segunda-feira, 21 de julho de 2014

Padre Raimundo Cruz: vida e memória!


Padre Raimundo Cruz: vida e memória!
Um tributo ao mês vocacional 

 



O tempo é indiferente. Vidas nascem, vidas desaparecem, e ele segue seu ritmo solene e implacável rumo aos acontecimentos que compõem o sentido próprio de sua existência. Ele segue o ritual sagrado do ofício opressor de sua tirania inexorável. Ele desconhece as preces e os desejos ansiosos daqueles que estarão à mercê de sua consumação infrene. De fato, o tempo é a possibilidade dos eventos, como afirmara o grande Teólogo da Sagrada Escritura, Gerhard von Rad, que morreu no ano em que eu nasci, 1970. 

 


No dia 8 de julho de 2014, a Arquidiocese de Aracaju perdeu mais um de seus sacerdotes. O Padre Raimundo Cruz (1941-2014) desapareceu no quarto de um hospital onde se internara durante poucas semanas, por causa da doença que o acossara por anos. Para usar a expressão de Lia Luft, “posso dizer que é a morte que escreve sobre nós – desde que nascemos ela vai elaborando conosco o nosso roteiro. Ela é a grande personagem, o olho que nos contempla sem dormir, a voz que nos convoca e não queremos ouvir, mas pode nos revelar muitos segredos. O maior deles deve ser: a morte torna a vida tão importante! Porque vamos morrer, precisamos dizer hoje que amamos, fazer hoje o que desejamos tanto, abraçar hoje o filho ou o amigo. Temos de ser decentes hoje, generosos hoje... devíamos tentar ser felizes hoje”. A luz desse raciocínio é somente uma inspiração válida quanto ao sentido urgente que devemos dar ao momento histórico em que estamos vivendo em face da morte que tudo pode determinar em nossa vida. O pensamento traz a lume a intuição tranquila de que não deveríamos perder tempo com bobagens passageiras em detrimento do verdadeiro amor que podemos colocar em cada uma de nossas ações existenciais, mas, de modo especial, diante das pessoas que julgamos amar. 



Filho de Aquidabã, ele foi o primeiro sacerdote ordenado por Dom Luciano Duarte, num momento em que a Arquidiocese passava por uma tremenda crise vocacional. De 14 seminaristas da Arquidiocese, apenas ele sobrou, subindo os degraus do altar do Senhor para a celebração da Eucaristia. Fora ordenado padre no dia 11 de abril de 1971! Pouco tempo depois do evento histórico do Concílio Vaticano Segundo, com o mundo em reboliço pela inspiração de São João XXIII, o Papa da abertura do grande Concílio, padres do mundo inteiro abandonavam a batina sem cerimônia nem constrangimento. Quem viveu aqueles tempos agitados pelas discussões eufóricas colocadas em pauta no acontecimento, contou o quanto algumas decisões conciliares mexeram com o imaginário coletivo de muitos sacerdotes. Mesmo assim, outros jovens apareciam dispostos a consagrarem sua vida a Deus, como sempre aconteceu e acontecerá na história da Igreja de Cristo. Raimundo Cruz também se apresentou diante do chamado vocacional. Assim, decorrido o período de formação durante os anos de estudos de Filosofia e Teologia no seminário Regional do Nordeste, em Recife, de 1966 a 1970, fora ordenado padre. Jovem sacerdote, animado pelo zelo apostólico e pela salvação das almas, iniciou seu ministério sacerdotal na Região do Vale do Cotinguida, especificamente, em Divina Pastora, Santa Rosa de Lima e Siriri. Fora enviado para pouco tempo ali, mas as necessidades pastorais e a escassez de sacerdotes fizeram com que a missão se estendesse por 12 longos anos, cheios de desafios e dificuldades pastorais. Naquele momento, as paróquias da Arquidiocese de Aracaju estavam se expandindo, e os operários da messe do Senhor ainda eram poucos. Também fora pároco em Nossa Senhora das Dores. No entanto, sempre fiel e obediente à sua vocação e ao seu Bispo, em 1986, fora transferido do interior do Estado para a Capital sergipana, tornando-se Reitor do Seminário Menor “Sagrado Coração de Jesus”, no Bairro Industrial, sendo ao mesmo tempo pároco da Paróquia de São Pedro Pescador no mesmo Bairro. Para lá, eram conduzidos os seminaristas e os vocacionados, a fim de participarem da missa no sábado à noite, o que favorecia efetiva e amistosa interação entre os seminaristas e os leigos da comunidade. Ao mesmo tempo, ainda permanecia Administrador Paroquial em Santa Rosa de Lima e Divina Pastora.



O Padre Raimundo Cruz realizou outros estudos como atualização pastoral, em Puebla, no Paraguai, atualização bíblica, em Jerusalém, e espiritualidade sacerdotal, em Roma. Entre outras atividades pastorais na Arquidiocese de Aracaju, ele foi Coordenador Arquidiocesano de Pastoral, do ensino religioso em Sergipe, membro do Conselho Presbiteral e de Consultores, Cônico capitular do cabido arquidiocesano, pároco da Paróquia São Pedro e São Paulo, Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no Ponto Novo, Vigário Episcopal para as vocações, Reitor do Santuário Nossa Senhora Menina e Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, no Grageru. Foi o Padre Raimundo Cruz quem me recebeu no Seminário Menor de Aracaju, no dia 14 de fevereiro de 1987, com outros 35 jovens seminaristas, entre os quais estava também o Padre Jadson da Silva Ramos, que estudou comigo até o final do curso de teologia, em Brasília. Há poucos dias, revirando papéis de mudanças – são tantas as descobertas nessas ocasiões – encontrei a carta que ele me enviou, sugerindo a lista do que deveria levar para o Seminário, uma espécie de “enxoval seminarístico”. 


Hoje, muitos sacerdotes da Arquidiocese foram formados e “plasmados” pelo timbre exigente e severo de suas orientações formativas. Como muitas vezes ouvimos de Dom Luciano Duarte, não importam as fraquezas de um sacerdote, ele deve sempre ser considerado como um “homem de Deus”, chamado e escolhido para engrossar as fileiras de sua milícia. Foi, pois, inspirado pela falta de vocações sacerdotais e religiosas, que Dom Luciano Duarte criou com a ajuda de alguns leigos do Movimento Serra Clube de Aracaju, cujo apostolado fomenta o apoio espiritual e material às mesmas vocações, a “oração pelas vocações sacerdotais e religiosas”, rezada em todas as missas, há mais de 40 anos. Logo, foi nesse contexto de oração pelas vocações ao Senhor da messe, que o Padre Raimundo Cruz viu florescer, de maneira palpável, o germinar de inúmeras vocações sacerdotais como resposta fiel do mandado do Senhor – “Pedi, pois, ao Senhor da messe que mande operários para a seara”. Tudo isso nasceu anos atrás, e se desenvolveu a olhos vistos por Dom Luciano Duarte, o Padre Raimundo e muitos leigos engajados na Pastoral Vocacional, sem falar do testemunho vivo de muitos sacerdotes que são frutos daqueles tempos de intenso apostolado vocacional. Depois, veio Dom José Palmeira Lessa, o Arcebispo Metropolitano de Aracaju, que também colheu e colhe os frutos das sementes plantadas por Dom Luciano Duarte e pelo Padre Raimundo Cruz. Bem nos ensina São Paulo que um é o que planta, outro é o que colhe, mas é Deus quem faz produzir os frutos necessários para o louvor de sua glória. Tudo isso, considerando também os frutos colhidos pela própria semeadura de atividades pastorais posteriores àquele início difícil, com o incentivo dos Bispos do Sub Regional, liberados por Dom José Palmeira Lessa, para a criação do Seminário de Filosofia e Teologia no próprio Estado de Sergipe. 




Os padres passam, os bispos passam, mas a Igreja de Cristo permanece espalhando no mundo o “bom odor de Cristo” para a salvação das almas. Não somos juízes das ações de ninguém, de nenhum irmão sacerdote, ou de qualquer outra pessoa. Às vezes, incompreendido, sozinho, vítima da maledicência, injuriado, recolhido na solidão mais profunda de seu ser, o sacerdote derrama as lágrimas que lavam o rosto de Cristo que sofreu pela humanidade. Por isso e por tantos outros mistérios que envolvem a vida dos consagrados, devemos reconhecer que a vida de nenhum homem consagrado a Deus é derramada em vão no canteiro de sua Igreja. Só Deus é o juiz de todos e saberá ponderar com transparência de justiça e misericórdia a vida e as ações de seus eleitos. Com efeito, Ele, que colhe com sabedoria e equidade os frutos da vida de seus escolhidos, também concederá a cada um o prêmio que tiver merecido pelo cêntuplo garantido aos que deixaram tudo e O seguiram. Que sua misericórdia e seu amor cubram pelos séculos eternos a vida e a memória dos que tentaram ser fiéis até o fim, não obstante as fraquezas humanas, porquanto, sem reservas, eles Lhe consagraram a vida em benefício de seus irmãos. 

 


Quando as folhas secas da vida sacerdotal despencam e caem da árvore de sua existência, vencidas pelo próprio tempo de sua durabilidade, o Senhor ainda saberá colher a seiva original daquele instante em que elas eram vicejantes e frondosas, porque tudo é mérito de seu próprio coração, transbordantemente, sacerdotal. Descanse na paz do Senhor, Padre Raimundo Cruz.


O Mistério das relações humanas

O mistério das relações humanas 




Vinte de julho! Dia Internacional da amizade. Li o pensamento de Sara Bronzino que diz: “O amigo nunca deixa de amar: é um irmão na desventura!” Pensando nesse dia, gostaria de refletir sobre o mistério das relações humanas no contexto da amizade. Tudo durante a nossa existência está envolvido pelo mistério, isto é, por aquela zona de desconhecimento que, às vezes, gera angústia e desconforto ao coração desejoso de clarividência em suas conquistas. Desse modo, as relações humanas também podem estar condicionadas pelos reveses das amizades. 
Quem me quer bem, me faz bem! Não me faz mal! Por exemplo: há pessoas que dizem que nos amam e nos querem bem, mas só nos fazem o mal. Quem nunca topou com alguém desse tipo em sua vida considere-se muito afortunado e feliz. É a incongruência comportamental das pessoas que as conduzem por sendas tortuosas, levando-as quase ao desespero por não conseguirem dominar as vítimas de seu mau caráter e cinismo. E elas insistem, com deboche e tentativas de dominação de suas presas, no percurso agressivo de suas investidas. São pessoas cujas capacidades psicológicas podem infernizar a vida de alguém, sem descanso nem trégua, até serem derrotadas pelas máscaras caídas depois de tanto fingimento. Elas parecem penetradas por um espírito tão satânico que vivem desassossegadas enquanto não ferem profundamente as pessoas sacrificadas pelas suas mórbidas paixões. São algozes psicopatas que deveriam ser isolados do convívio social e levados ao tratamento. E, se não é a própria família a diagnosticar a gravidade de sua doença, muitos estragos relacionais serão puxados adiante pela artimanha incrível de sua capacidade de dissimulação. Pessoas desse nível de agressividade e destempero comportamental, deveriam procurar o que fazer de sua vida, sobretudo, redimensionando seus interesses de realização pessoal e as motivações profissionais de suas conquistas. Um dia, eu vi um grupo de jovens protestantes vendendo balas num semáforo de Aracaju. Eles estavam angariando fundos para a realização de um retiro espiritual. Eram jovens e adolescentes sérios, normais, que buscavam um sentido novo para suas orientações espirituais e, consequentemente, sociais, como o melhoramento de suas atitudes frente aos desafios dos tempos modernos. Melhor do que viverem perturbando a vida de seus semelhantes com azedumes sem sentidos e perturbações desnecessárias aos seus próprios pais ou tutores. Uma ideia inteligente de quem quer ser dono de seu próprio destino e de suas vitórias. 




Há também o caso de amigos que mais tarde podem se tornar verdadeiros “rivais” a serem combatidos pela guerra fria da indiferença, da ingratidão, do distanciamento físico, da rejeição e dos desafetos perpetrados pelo desequilíbrio emocional das crises próprias das relações humanas. Mais ou mesmo como na frase de um filme em que um ator afirmava: “Às vezes, você ajuda a criar os inimigos que vai acabar enfrentando”. Trata-se de casos aparentemente perdidos em que o sentido da amizade desaparece quando outros interesses entram em jogo, pois, não conseguindo detectar o perigo do afastamento com antecedência, resvalamos pelo abismo da inimizade. É quando o amor vira desamor, a amizade, inimizade, a apreciação pelo outro, desprezo, e a corrente dos ressentimentos aumenta a plenitude das perdas relacionais. Com efeito, os sentimentos são caixas frágeis que guardam feridas que o tempo não cicatrizou, e continuam abertas podendo sangrar pelos rasgos das reminiscências ativas nas dobras do viver. Os amigos entram e saem de nossa vida como pétalas que murcham desenraizadas das flores que protegiam a tênue resistência da amizade que foi varrida pelo vento da desafeição. 
O tempo pode trair as amizades, mas o sentimento do amor verdadeiro pelos amigos permanece para sempre. Nesse sentido, a distração da vida não deveria permitir que o tempo corresse tão velozmente, de modo que não pudéssemos alcançar os amigos do passado pela contenção da memória que revive e traz ao presente os bons sentimentos da simpatia recíproca de outrora. Mas quem poderia prever os dardos inflamados de indignação e frieza causados pela provocação alheia? Disso nós somos e fazemos vítimas, mesmo se de modo não intencional. Daí que, nos meandros da cadeia que se refere ao mistério das relações humanas, nem tudo é previsível ou perceptível como gostaríamos que fosse. Mesmo assim, apesar das dificuldades que temos de atravessar em relação aos amigos e às amizades, jamais devemos desistir das novas possibilidades, porque, como já foi dito da confiança, a amizade também se conquista, não se impõe. 

 

Por isso, não devemos nos fechar se por conjunturas alheias à nossa vontade perdemos alguns amigos ou se trincamos e quebramos algumas amizades. E, mesmo que gato escaldado tenha medo de água fria, não podemos imaginar que o fracasso de alguns relacionamentos se repercuta na dimensão profunda de outros. Valem a pena os riscos. Na verdade, quando um sonho se acaba, é porque devemos correr atrás de novos horizontes. Como diz o ditado, quando se chega ao fim da noite, começa-se uma nova aurora. É a esperança que renasce sob as cinzas dos maus êxitos, dos insucessos, dos malogros da vida. É o filete de luz, tingindo a escuridão das derrotas com as tonalidades alvissareiras dos novos desafios. De fato, enquanto algumas amizades morrem, outras renascem, e a esperança rebenta no olhar confiante do futuro, não obstante as nuvens fechadas que acobertam o horizonte. É que muitos “tons” da amizade são como o pensamento de Lya Luft quando escreve sobre “o tom de nossa vida”: “Somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo. Estamos nele como árvores da floresta: uma é atingida em plena maturidade e potência, e tomba. Outra nem chega a crescer, e fenece; outra, velhíssima, retorcida e torturada, quase pede para enfim descansar... mas ainda pode ter dignidade e beleza na sua condição”. Assim são os segredos das amizades que, teimosamente, insistem na sobrevivência do tempo interior para além de todas as possibilidades de suas tentativas de destruição. 



Quanto à perenidade das amizades autênticas que sobrevivem a todos os vendavais das “turbulências afetivas”, não podemos nos esquecer da grandeza do valor infinito dos bons amigos que nos acompanham pela vida afora. De veras, isso também faz parte do mistério das relações humanas. Quantas pessoas passam muito tempo sem contato – o que poderia ser favorecido, inclusive, pelo avanço das modalidades tecnológicas que tem aproximado as distâncias afetivas – e se sentem felizes no instante em que se reencontram ou se falam? Nem o tempo nem a geografia apagam ou destroem os laços dos verdadeiros benefícios da ternura franca que envolve a camaradagem, a estima e a reciprocação intrínseca aos próprios amigos. Na verdade, é a vida do espírito que não deixa morrerem as dilatações prolongadas da afetividade que se distancia e volta, como as ondas do mar iluminado pelo sol, renovando e intensificando o brilho de sua transparência cordial, fraterna. 

 


Amigos de verdade tentam pegar o sol com a mão!





sábado, 31 de maio de 2014

O Homem moderno e a vida espiritual!



O homem moderno e a vida espiritual


 


Em tempos de mudanças pessoais, eu estava encaixotando alguns livros quando me deparei com um título curioso: “L’homme moderne et la vie spirituelle.” Então, atraído pela escritura, sempre fascinado pelas letras e a transmissão de seu conteúdo, elaborei esse texto inspirado em seu conteúdo e com a mesma epígrafe. Na verdade, um tema tão atual e urgente quanto no momento em que o autor francês, Max Thurian (1921-1996), irmão de Taizé, resolveu externar algumas de suas preocupações ou inquietações sobre a vida interior, diante da opressora onda de modernidade que tenta distrair o homem de todo jeito quanto às necessidades mais profundas de seu espírito, de sua relação com o Transcendental. Seu livro fora publicado na França, em 1961, há mais de cinco décadas. 

 


Pelo visto, a relatividade temporal, que enche o coração humano de coisas e mais coisas, tem deixado o mesmo espaço da interioridade vazio pela dimensão superficial com que buscamos nossas realizações ou satisfações distantes de quaisquer resquícios de espiritualidade. Mas não adianta o homem querer libertar-se ou desvencilhar-se da origem vital de todos os seus dramas mais íntimos, como é o caso de sua prerrogativa espiritual. Diferente de todos os outros animais, o homo sapiens esforça-se, em vão, para negar a si mesmo que ele não é somente matéria, corpo, imanência, finitude. Que pobreza seria se nossa vida fosse somente isso! 


Max Thurian era evangélico, e Dom Luciano Duarte, Arcebispo Emérito de Aracaju, teve a oportunidade de encontrá-lo durante as sessões do Concílio Vaticano II. Um homem de reflexões penetrantes e pontuais, que mais tarde se converteu ao catolicismo romano e foi ordenado sacerdote em maio de 1988. Evidentemente, ele escreveu para os cristãos que, mergulhados no ativismo pressuroso de suas buscas incessantes, quase intermináveis, também são arrastados pela avalanche materialista das ocupações quotidianas, barrando as fontes do espírito para o exercício da ascese. Já na introdução de seu opúsculo, ele fala que a primeira “arrancada” da ascese cristã é acolher na vida de todos os dias a cruz de Jesus Cristo, pois, na pessoa do Crucificado, nossa existência, no que ela possui de difícil ou doloroso, encontra um sentido e uma eficácia. 

 


Na amplitude de sua visão, o cristão não é convidado somente a assumir seu sofrimento ou a participar do de Cristo, pela fé, mas a exercitar-se nos combates que todos os dias ele deve conduzir contra o demônio, o mal, a usura e contra si mesmo. Segundo ele, essa ascese ativa no cristão, muitas vezes, foi considerada como uma luta mórbida contra si próprio, contra os poderes naturais do ser humano, contra o que Deus criou e que é bom. Mas não se trata da questão pela qual o cristão deva construir uma antropologia dualista, em que o espírito e a carne, compreendidos como alma e corpo, estariam em luta. Desse modo, a vida espiritual do cristão deve fazer-se uma com sua existência, porquanto não existe uma vida interior e outra exterior. O fato é que, assim, tocamos o problema do drama da vida espiritual do homem moderno que sofre por não encontrar espaço em sua existência para a oração e a meditação. Quanto às armas de que devemos estar munidos para o combate espiritual, ele cita o orientação de São Paulo aos Efésios: “Fortalecei-vos no Senhor e na força de seu poder. Revesti a armadura de Deus, para poderdes resistir às insídias do diabo. Pois nosso combate não é contra o sangue nem contra a carne, mas contra os Principados, contra as Autoridades, contra os Dominadores deste mundo de trevas, contra os Espíritos do mal, que povoam as regiões celestiais. Por isso deveis vestir a armadura de Deus, para poderdes resistir no dia mau e sair firmes de todo o combate” (Ef 6,10-13).   
 



Em nada, o autor se distancia das consequências de uma vida agitada como a que corre nos dias de hoje, de modo que, pouco tempo ou mesmo nenhum instante reservamos para as necessidades da alma, para o bem-estar do espírito. Corremos atrás de tudo que possa nos dar prazer, satisfação pelos bens materiais, sensação de conforte e comodidade, realizações no trabalho, e de tantas outras razões justas que favoreçam o valor de nossa dignidade, mas nos esquecemos do essencial. A superficialidade toma conta do que temos e do que somos. E assim, dispersos na correria pelas conquistas vitais de nosso ser, perdemos a consciência de que nossa pessoa é uma unidade. Não obstante essa percepção, a vida espiritual sempre foi dominada pela concepção dualista da divisão entre corpo e alma, algo que herdamos da cultura helênica e permanece entranhada na ambiguidade da existência do homem entre as realidades de ordem interior e as realidades físicas, cujo binômio não encontramos na Sagrada Escritura. Por sua vez, a divisão da pessoa, provocada pela lei moral no homem não cristão, desejoso de obedecer a uma ordem espiritual ou moral, nós a encontramos com outro sentido na antropologia de inspiração filosófica grega. 


Segundo essa visão, não é a Lei que suscita uma tensão dominando o conhecimento do pecado, mas a alma, considerada como originalmente boa e imortal, tende constantemente a escapar do corpo, sua prisão, pela liberação filosófica, pela contemplação das ideias até que a morte complete essa liberação. Desse modo, a espiritualidade e a ascese consistem na procura do equilíbrio entre a alma e o corpo, na dominação do espírito sobre a matéria. Tal dualismo helênico é totalmente estranho aos escritores sagrados, porque, para eles, existe uma unidade fundamental da criação e do homem. E mesmo que São Paulo faça eco de uma moral legalista, constituindo uma tensão dualista da pessoa, sobretudo, relacionada ao período anterior à sua conversão, ela não é original ou fundamental. É, portanto, essa filosofia que influenciará a espiritualidade cristã, fazendo-a perder sua concepção antropológica primitiva. Todavia, o fato é que, independentemente de toda a discussão concebida dentro do dualismo grego, contraposto à visão cristã – que arrasta o autor pelos caminhos de uma meditação mais profunda, o que não convém enfatizar aqui – o homem moderno parece perdido na balbúrdia do quotidiano e desenraizado de seu próprio espírito. Perdemos o sentido do silêncio, da meditação, da reflexão, ou da solidão como proposta de encontro com nós mesmos. De fato, quem hoje em dia reserva um pouco de tempo para estar, verdadeiramente, só com o entretenimento da alma? 

 


Conforme o sobredito autor, o problema do tempo está entre os mais importantes de hoje. O homem moderno não consegue mais organizar o seu tempo. Daí a necessidade de repensar o uso que lhe damos em relação à vida espiritual, mas sem lamentar em vão uma época terminada em que não se havia tempo para rezar. Assim, a nova organização do tempo deve levar em consideração as exigências do trabalho moderno e situar a oração no seio da atividade humana. Outro problema é o da disponibilidade psicológica, da solidão e do silêncio. O homem de hoje, dificilmente só na vida de todos os dias, invadido pelo barulho da cidade e das máquinas, não pode ter quando ele quiser a disponibilidade psicológica e a paz interior que se julga necessária à oração e à meditação. Por tudo isso e por tantas outras necessidades fundamentais do espírito do homem, é que o cristão do nosso tempo, no mundo do trabalho e da técnica, precisa de novas diretrizes para organizar os valores de sua vida espiritual, para aprender – ou reaprender – a rezar, a contemplar seu Senhor no combate da vida moderna. Pela revisão de vida, de suas atitudes e de seus desejos em face da vida espiritual, o homem moderno deve abandonar mais seu egocentrismo, seu orgulho, seu amor-próprio, suas ambições egoístas, a vaidade do eu, sem o que ele jamais poderá progredir na ascese cristã e identificar-se, verdadeiramente, com o seu Senhor. 


Bebendo especialmente da fonte da Palavra de Deus, métodos fácies e exequíveis podem ser aplicados à vida de oração permanente, como ter o pensamento atravessado por uma expressão que nos coloque em sintonia com o espírito reflexivo e orante, a exemplo do publicano que simplesmente rezou, dizendo: “Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!” (Lc 18,13). E voltou para casa justificado diante de Deus, com seu coração leve e banhado da misericórdia do Pai. Somente assim, com serenidade, mas sem hesitação interior, o homem moderno poderá trilhar novas sendas de vida espiritual, motivado pela simplicidade e pela alegria de seu despretensioso agir.