quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Querida Amazônia

Querida Amazônia

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Diferentemente dos aspectos polêmicos que muitas pessoas gostariam que o Papa Francisco abordasse na Exortação Apostólica Pós-sinodal, Querida Amazônia, o texto é profundamente substancioso e sereno quantos à riqueza e aos desafios que Igreja sempre enfrentou na extensão geopolítica da região continental da Amazônia.
O Papa Francisco demonstra, evidentemente, muitas preocupações pontuais em razão da história dos povos que ali habitam – sua cultura indígena, suas festas e danças, seus símbolos culturais, tradições propriamente indígenas etc. – sem desconsiderar a presença da Igreja, da evangelização, da inculturacão do Evangelho, das deficiências pastorais – mas também trazendo a lume, do ponto de vista ecológico e humanitário, a importância física da Amazônia para a sobrevivência dos povos de toda a Terra. Tudo isso dentro do contexto da preocupação eclesial que está sempre presente no coração do Santo Padre, inclusive reconhecendo alguns equívocos no exercício da missionariedade pelo que, também, pede perdão e renova o compromisso da Igreja: “[...] a Igreja não pode estar menos comprometida, chamada como está a ouvir os clamores dos povos amazónicos, ‘para poder exercer com transparência o seu papel profético’. Entretanto como não podemos negar que o joio se misturou com o trigo, pois os missionários nem sempre estiveram do lado dos oprimidos, deploro-o e mais uma vez ‘peço humildemente perdão, não só pelas ofensas da própria Igreja, mas também pelos crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América’ e pelos crimes atrozes que se seguiram ao longo de toda a história da Amazônia. Aos membros dos povos nativos, agradeço e digo novamente que, ‘com a vossa vida, sois um grito lançado à consciência (…). Vós sois memória viva da missão que Deus nos confiou a todos: cuidar da Casa Comum’” (n. 19).
Outra inquietação do Papa está relacionada ao que ele chamou de “indigenismo completamente fechado, a-histórico, estático, que se negue a toda e qualquer forma de mestiçagem”. (n. 37). E ele continua no mesmo parágrafo, de modo que, assim sendo, “Uma cultura pode tornar-se estéril, quando ‘se fecha em si própria e procura perpetuar formas antiquadas de vida, recusando qualquer mudança e confronto com a verdade do homem’. Isto poderia parecer pouco realista, já que não é fácil proteger-se da invasão cultural. Por isso, cuidar dos valores culturais dos grupos indígenas deveria ser interesse de todos, porque a sua riqueza é também a nossa. Se não progredirmos nesta direção de corresponsabilidade pela diversidade que embeleza a nossa humanidade, não se pode pretender que os grupos do interior da floresta se abram ingenuamente à ‘civilização”. (n. 37). Desse modo, o Papa reconhece ainda que “mesmo entre os distintos povos nativos, é possível desenvolver ‘relações interculturais onde a diversidade não significa ameaça, não justifica hierarquias de um poder sobre os outros, mas sim diálogo a partir de visões culturais diferentes, de celebração, de inter-relacionamento e de reavivamento da esperança’”. (n. 38). Ou seja, no geral, Romano Pontífice se detém muito em relação aos direitos dos povos indígenas, à complexidade dos problemas relacionados ao desenvolvimento dos grupos sociais, como, por exemplo, exigindo o “protagonismo dos atores sociais locais a partir de sua própria cultura”. (n. 40).  

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Numa visão mais ecológica e humana, constata-se que “Numa realidade cultural como a Amazônia, onde existe uma relação tão estreita do ser humano com a natureza, a vida diária é sempre cósmica. Libertar os outros das suas escravidões implica certamente cuidar do seu meio ambiente e defendê-lo e – mais importante ainda – ajudar o coração do homem a abrir-se confiadamente àquele Deus que não só criou tudo o que existe, mas também Se nos deu a Si mesmo em Jesus Cristo. O Senhor, que primeiro cuida de nós, ensina-nos a cuidar dos nossos irmãos e irmãs e do ambiente que Ele nos dá de prenda cada dia. Esta é a primeira ecologia que precisamos. Na Amazónia, compreendem-se melhor as palavras de Bento XVI, quando dizia que, ‘ao lado da ecologia da natureza, existe uma ecologia que podemos designar ‘humana’, a qual, por sua vez, requer uma ‘ecologia social’. E isto requer que a humanidade (…) tome consciência cada vez mais das ligações existentes entre a ecologia natural, ou seja, o respeito pela natureza, e a ecologia humana’. Esta insistência em que ‘tudo está interligado’ vale especialmente para um território como a Amazónia”. Aqui o Sumo Pontífice reclama a urgência de considerarmos a interligação entre ecologia, humanidade e anúncio da verdade de Cristo, que salva o homem e o mundo. Essa seria uma “ecologia cristocêntrica”, com referência ao que nos ensina São Paulo: “a criação foi submetida à vaidade [...] na esperança de ela também ser libertada da escravidão da corrupção para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus – liberabitur a servitute corruptionis in libertatem gloriae filiorum Dei. Pois sabemos que a criação inteira geme e sofre as dores do parto até o presente”. (Rm 8,21-22). Daí o fato de o Santo Padre destacar também a importância da água no ambiente amazônico, o que encontramos, poeticamente, nos números 43 a 46. Vale a pena a leitura desse texto.
Indo mais além, não obstante a colocações sob a ótica das reflexões propriamente ecológicas, o pensamento do Papa se estende, e não poderia ser diferente, sobre o que é mais primordial ainda quanto ao papel evangelizador da Igreja na região: “Eles têm direito ao anúncio do Evangelho, sobretudo àquele primeiro anúncio que se chama querigma e ‘é o anúncio principal, aquele que sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar duma forma ou doutra’. É o anúncio de um Deus que ama infinitamente cada ser humano, que manifestou plenamente este amor em Cristo crucificado por nós e ressuscitado na nossa vida. Proponho voltar a ler um breve resumo deste conteúdo no capítulo IV da Exortação Christus vivit. Este anúncio deve ressoar constantemente na Amazónia, expresso em muitas modalidades distintas. Sem este anúncio apaixonado, cada estrutura eclesial transformar-se-á em mais uma ONG e, assim, não responderemos ao pedido de Jesus Cristo: ‘Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura’” (Mc 16, 15). (n. 64). Sabiamente, o Papa não deixa escapar a oportunidade de desqualificar o papel que algumas ONG’S que se colocam pretensamente a serviço dos povos indígenas, mas, na verdade, terminam por aproveitar da situação para escravizar ainda mais os índios sem a devida tutela de seus reais direitos de sobrevivência. De qualquer modo, em relação à pregação do Evangelho de Cristo, o Papa é incisivo: “Qualquer proposta de amadurecimento na vida cristã precisa de ter este anúncio como eixo permanente, porque ‘toda a formação cristã é, primariamente, o aprofundamento do querigma que se vai, cada vez mais e melhor, fazendo carne’. A reação fundamental a este anúncio, quando o mesmo consegue provocar um encontro pessoal com o Senhor, é a caridade fraterna, aquele ‘mandamento novo que é o primeiro, o maior, o que melhor nos identifica como discípulos’. Deste modo, o querigma e o amor fraterno constituem a grande síntese de todo o conteúdo do Evangelho, que não se pode deixar de propor na Amazónia. É o que viveram grandes evangelizadores da América Latina como São Toríbio de Mogrovejo ou São José de Anchieta”. (n. 65).
Outrossim, como não seria de apreciar aqui texto tão fecundo e profético no contexto de sua abrangência eclesial, especialmente, devotado às populações da Amazônia, o Santo Padre, em nenhum momento, talvez para frustração de quem desejaria o contrário, nem de longe, mencionou a possibilidade de ir buscar os viri probati – homens provados, de fé íntegra e de incólume testemunho cristão, dentro do Sacramento do Matrimônio – para ordená-los padres, mesmo depois de escorreita e devida preparação teológica. Todavia destacou a importância dos sacerdotes para a celebração da Eucaristia (números 91 a 93); a presença fidedigna de leigos bem preparados e engajados no labor pastoral (números 94 a 96); e enfaticamente da presença dos mulheres, que não deixam morrer o serviço da evangelização e a conservação da herança cristã da fé recebida (números 99-103). E, como não poderia ser diferente, o Papa insiste na atitude eclesial da oração pelas vocações sacerdotais, religiosas e leigas: “Esta premente necessidade leva-me a exortar todos os bispos, especialmente os da América Latina, a promover a oração pelas vocações sacerdotais e também a ser mais generosos, levando aqueles que demonstram vocação missionária a optarem pela Amazônia. Ao mesmo tempo, é oportuno rever a fundo a estrutura e o conteúdo tanto da formação inicial como da formação permanente dos presbíteros, de modo que adquiram as atitudes e capacidades necessárias para dialogar com as culturas amazônicas. Esta formação deve ser eminentemente pastoral e favorecer o crescimento da misericórdia sacerdotal”. (n. 90).
Enfim, o texto apresenta um diagnóstico eclesial de profunda realidade vivida pelos povos da Amazônia, mas também que diz respeito ao ambiente mais amplo da Igreja de Cristo, com seus desafios, suas propostas de evangelização, com a necessidade de protagonistas mais fiéis e pontuais, sobretudo diante das exigência evangélicas. Mesmo sabendo que a doutrina nem a catequese sejam aceitos por todos, a preocupação do Santo Padre incentiva a necessidade de, pelo menos, ao que estiver ao alcance de todos não descuidar do fato de que “Ao mesmo tempo que acreditamos firmemente em Jesus como único Redentor do mundo, cultivamos uma profunda devoção à sua Mãe. Embora saibamos que isto não se verifica em todas as confissões cristãs, sentimos o dever de comunicar à Amazônia a riqueza deste ardente amor materno, do qual nos sentimos depositários”. Assim seja! (PGRS).


terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Dom Dilmo Franco de Campos


Dom Dilmo Franco de Campos
Primeiro bispo da minha turma de filosofia em Teologia, em Brasília

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No dia 25 de janeiro de 2020, dia festa da conversão de São Paulo, foi sagrado o primeiro bispo da minha turma, egresso daquela casa de formação. De 15 sacerdotes ordenados para vários dioceses do Brasil, dois deixaram o ministério sacerdotal e um, de Formosa, faleceu. Pois, então, Dom Dilmo Franco de Campus, foi nomeado pelo Papa Francisco no dia 27 de novembro de 2019, aos 47 anos de idade, com 22 anos de exercício do ministério sacerdotal. Era a minha turma dando frutos de sucessão apostólica. Uma alegria incomensurável. Filho de Formosa, no interior do Estado de Goiás, foi sagrado na catedral sede da Diocese onde também fora ordenado sacerdote. O bispo sagrante principal foi Dom João Casimiro Wilk, bispo de Anápolis, para cuja diocese Dom Dilmo foi nomeado o primeiro bispo auxiliar, sendo o bispo titular de Itá - uma sede episcopal antiga, que não existe mais. Essa é uma tradição na Igreja Católica Apostólica Romana. Todos os bispos que assumem alguma função na Igreja – como, por exemplo, bispo auxiliar, núncio apostólico, secretário de Estado do Vaticano, et alii – recebem uma sede episcopal imaginário. Entre os bispos consagrantes, estava Dom Waldemar Passini Dalbello, que fora nosso contemporâneo em Brasília, durante seus estudos de Teologia. O outro, Dom Aldair José Guimarães, Bispo de Formosa, veio do clero da Diocese de Uruaçu, tendo passado por outra diocese.

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CONGRAGAVIT NOS IN UNUM CHRISTI AMOR

Dom Dilmo assumiu como lema episcopal Congragavit nos in unum Christi Amor - O amor de Cristo nos uniu! A sagração episcopal é o terceiro grau do sacramento da Ordem. Quando éramos seminaristas em Brasília, Dilmo me fizera uma proposta, dizendo: "Gigi - era assim que me tratava - se, um dia, você for morar em Roma, você vai me dar uma bíblia, em latim, de presente". Aceitei o trato, mas me esqueci de fazer a contraproposta: "E, se você for, você compra sua Bíblia". O fato é que eu fui antes dele e, depois, nos encontramos pelas paragens da cidade de Rômulo e Remo. Então, como a bíblia era cara, manifestei o desejo de cumprir a promessa apenas com o Novo Testamento, que era, inclusive mais simples e portátil. Mas ele não o aceitou. Portanto, resolvi comprar uma bíblia bem grande, edição da vulgata, só para fazer mais volume na sua bagagem. E, desse modo, mais uma vez, o vento da história sopra o pó de nossas reminiscências. Dom João Wilk, polonês, muitas vezes, foi recebido por mim no Seminário Maior de Brasília quando eu era seminarista e compunha a equipe do economato, ajudando da administração das finanças, sob à liderança de um padre formador. Ele era o responsável direto pelo pagamento da mensalidade dos franciscanos. Era um bom pagador, fiel, não atrasava!
Sobre Dom Waldemar Passini Dalbello, posso narrar o fato de eu ter conseguido para ele hospedagem de cinco dias em Paris, quando de sua primeira viagem a Israel. Um dia, ele, ainda seminarista, precisou fazer uma ligação para o Canadá com o intuito de falar com um padre que fora formador em Brasília, o Pe. Paul Terrio, que, algum tempo depois,  em 2012, foi nomeado bispo da Diocese de São Paulo, em Alberta, naquele país.  Dom Paul Terrio foi o meu primeiro diretor espiritual em Brasília. Então, por não falar francês ainda, pediu, sob sigilo, que fizesse a ligação para o Canadá, chamando-o em francês. A partir daquele colóquio, Dom Waldemar pôde organizar sua viagem para breves estudos de hebraico em Jerusalém. Voltando, permaneceu cinco dias em Paris, hospedado na casa geral da Congregação das Irmãs Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora. Quem o conseguiu para mim, foi a Ir. Maria Alice Portela, uma santa religiosa que Deus me concedeu a graça de conhecê-la. Na ocasião, o jovem Waldemar me trouxe um livro com informações turísticas sobre Paris no qual escreveu: "...para uma preparação antecipada de sua visita à capital francesa". Em 1999, durante o mês de agosto, eu estava lá, conferindo as novidades da histórica Paris que já conhecia pela fama, e pelos livros, e pelo idioma neolatino.
Assim é a história dos homens, assim é também a história da Igreja de Cristo. Basta um piscar de olhos, pousando o raio da visibilidade sobre o mosaico dos seus personagens, para descobrirmos quantas personalidades se cruzam no mapa das nossas investigações mentais. Ninguém é estranho a ninguém quando expandimos o leque das boas recordações de fatos e pessoas.



segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Estresse informativo ou fastio webiano?


Estresse Informativo ou fastio webiano?

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Na era digital, com o avanço galopante da tecnologia moderna, vivemos verdadeiro tsunami de informações instantâneas, que estão assoberbando nossa capacidade de apreensão e triagem em relação ao que ler ou acolher como relevante. São tempos de estresse informativo, com acentuada dependência tecnológica digital. E, então, basta um apagão momentâneo do efeito dos aplicativos, e o caos se instala dentro no circuito da nossa maníaco-compulsão interativa nas redes sociais.
Senhoras do cotidiano, as informações chegam instantaneamente, varrendo o controle e o equilíbrio da curiosidade. Paramos tudo e nos voltamos aos imperativos das máquinas ao alcance da mão. Perdemos a concentração, nos dispersamos na atenção ao essencial, e corremos, infrenes, pressurosos, na aceleração pisada pelas novidades. Saímos do eixo gravitacional de nós mesmos, de nossa substância, das motivações mais sublimes de nossa própria identidade, abraçada pela convivência. Fugimos do âmago fundamental do que somos e permanecemos à superfície das frivolidades do inconsciente.
Em algumas postagens, percebemos repetições irrefletidas de pensamentos alheios, e nem paramos para refletir se são verdadeiros, se valem a pena ser “copiados” e “colados”. Quando não plagiamos, cinicamente, as ideias os outros. Simplesmente, reproduzimos a intenção malevolente de terceiros e não ponderamos a importância, ou não, do conteúdo ali depositados. Somos vorazes na repetição do que os outros querem nos fazer ver, sem a possibilidade da discussão dialética de sua veracidade. Desse modo, acabamos nos tornando reprodutores mecânicos, autômatos da inspiração alienígena.
A tecnologia está nos emburrecendo! Pensemos, por exemplo, nos números de telefones que guardamos na memória! Fiquei assustado! Não consegui lembrar nem dez números. Antigamente, o gesto repetivo de pressionar a tecla dos aparelhos analógicos nos permitia gravar e registrar na mente os algarismos mais frequentemente indigitados. Na hodiernidade, isso está cada dia mais esporádico e difícil. Tudo está memorizado nos aparelhos tecnológicos, na memória externa, e o mesmo acontece em relação às investidas do saber. Tudo está depositado, ali, nos sítios informativos de todo tipo de conhecimento. Sem falar das assinaturas em aplicativos ou de outros expedientes de interesse da freguesia. Basta a inscrição para que automaticamente cheguem até as malhas da comunicação as notificações. São informações tão saturadas de conteúdos variados que não estamos dando conta de tudo isso. Assim, conectados, se não formos vigilantes, perderemos muito tempo precioso garimpando coisas que podem nos informar, mas não nos formam, não acrescentam nada à essência do que já somos. Trata-se de uma perda de tempo desorganizado, sem proveito nenhum.
Não obstante todos os benefícios das redes sociais, elas ainda têm causado muita dependência tecnológica e, em certo sentido, também está desumanizando as pessoas, sobretudo, quando se age como se do outro lado da tela fria não houvesse uma pessoa, de carne e osso, plena de sensibilidade e sentimentos. É quando aparecem os xingamentos, os desabafos sentimentais, as ironias dialéticas, as provocações inconvenientes, enfim, as hostilidades patrocinadas pela aparente distância das vítimas das “turbulências afetivas”. Mas depois dos excessos, vem o fastio. Eu chamá-lo-ia de “fastio webiano”. Os sinais de cansaço começam a aparecer. Pelo que percebemos, aos poucos, menos pessoais estão frequentando as redes sociais. Encontro-me entre elas. Saí definitivamente do Facebook! A intenção é a de priorizar outros aspectos mais importantes e substanciais do que me interessa no momento, não somente de formação acadêmica, mas também de avanços pessoais no equilíbrio das pesquisas e investigações. Muitos amigos também estão nessa de um tempo de repouso ou descanso do Facebook. Pode até parecer um contrassenso, andar na contramão da modernidade. Contudo, um pouso de deserto pode ajudar-nos a nos conectar mais com nós mesmos no frescor e no aconchego do oásis interior, tanto quanto em relação às pessoas que nos cercam, com as quais convivemos diariamente. Menos tempo nas redes, mais tempo nas teias diretas dos relacionamentos. 
Se antes a vida estava exposta à infinidade de curiosos, críticos e censores, sem falar daqueles com quem se tornou impossível dialogar, tão penetrados de ideologias nocivas, facínoras ou homicidas, destruidoras até de bonitas amizades, agora, fora dessa dimensão da virtualidade tecnológica, que reine a paz e a tranquilidade, longe dos holofotes indiscretos dos fofoqueiros de plantão, dos invejosos e dos maledicentes. E o que dizer, então, dos carniceiros, para os quais “besteira pouca é bobagem?”. Se a desgraça posta nas redes sociais não for imensa, bem catastrófica, ninguém demonstra interesse, de modo que ficamos expostos aos abutres necrofágicos da sociedade.
Quanto ao mais, a vida real mostrará melhor os amigos de verdade que colecionamos durante a existência. Esses saberão onde, quando e como tempestivamente nos encontrar. (PGRS).

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Natal e transformação geracional


NATAL E TRANSFORMAÇÃO GERACIONAL

Papa Francisco diante do presépio na Casa Santa Marta

O Natal chegando, e nós como iremos celebrá-lo? O que iremos pedir ao Menino-Deus? O dom maior Deus já nos concedeu em sua infinita misericórdia: A Salvação em Jesus, cujo nome significa justamente o “Salvador”. Mas “salvador” de que mesmo? A humanidade, adormecida nos porões da ideologias modernas, que foram construídas ao longo dos séculos, parece que já o esqueceu. O homem não é o salvador de si mesmo, apesar de sua luta por emancipação. Segundo relato bíblico, Deus nos salvou das garras do demônio tentador e de suas investidas facínoras. Foi quando o “pecado” entrou no mundo pela desobediência de Adão e Eva. “Pecado” se tornou uma palavra em desuso, e o instinto das pessoas faz de tudo para tentar esquecê-la, mas não adianta. Ela está aí diante de nossos olhos, garimpando o comportamento libertino de todos nós. Recusamos aceitar que não somos criadores, mas criaturas. Criaturas rebeldes, por sinal! Daí decorre todo tipo de rejeição aos mandamentos, à atitude religiosa espiritual, ao desejo de superação de si mesmo em relação à ruína das virtudes, ao melhoramento ético e moral, no sentido do progresso ascendente no que concerne à vida na graça divina, à conversação e à santidade, e assim por diante.
O mundo está profundamente marcado pela chamada “desorientação ontológica” porquanto, desde as origens de nossa formação ou criação civilizatória – sim, a civilização humana iniciou com Abel e Caim – perdemos o rumo certo do equilíbrio espiritual ou psíquico interior, da intimidade com Deus. Tudo isso exigido para nossa felicidade puramente humana, antes da queda. De lá para cá, todos nós somos vítimas odontológicas da tragédia que trouxe desarmonia entre o Criador e as criaturas, e entre as próprias criaturas. No entanto, a chave de recuperação que Deus usou para reabrir o caminho da “reformatio harmoniae” – re-formação da harmonia – foi o envio do seu Filho Eterno, Jesus Cristo, a fim de ligar de novo a criatura humana ao Criador. E aqui está o segredo do Mysterium que celebramos no Natal. Deus, em Jesus, reabre para todos nós a senda do céu. Todavia, a salvação é um dom oferecido a todos, de modo que é preciso que nós o queiramos, que nós o aceitemos. Ou seja, o caminho em direção ao inferno – que existe, independentemente de o aceitarmos ou não – é uma escolha que fazemos com nossas atitudes contrárias ao convite soteriológico de Deus. Santo Agostinho é quem o afirma: “Quem te criou sem ti, não te salva sem ti”. Mas será que nós queremos o céu? Ou preferimos a liberalidade de nossas conveniências morais, espirituais, éticas, religiosas – criamos nossa própria religião – etc.?
Então, o tempo do Natal é o momento em que devemos colocar todas as nossas convicções na balança da ponderação, para decidirmos o que realmente queremos para nossa felicidade, com Deus ou sem Deus. A decisão é imperativamente nossa. Infelizmente, vivemos conjunturas sociais de um ateísmo tão perturbador e estonteante que muitas pessoas pensam poder se liberar de Deus, de seus juízos, de seu tribunal, diante do qual, um dia, deveremos comparecer para a prestação de contas da nossa existência. E o tribunal de Deus é insubornável Diante dele, nenhum álibi nosso será suficientemente justificável. E não adiante tentarmos fugir, porque, mais cedo ou mais tarde, todos os nossos esforços de autossuficiência e arrogância se demonstrarão inúteis, não terão servido para nada. Talvez, por isso, diante das incertezas ou de nossas próprias incongruências humanas, pensemos em poder zombar de Deus e de seu Filho Jesus. Um comportamento aberrante e desrespeitoso que mancha de ignomínia e indignação o devido respeito à liberdade religiosa. Acintes e provocações desse tipo não melhoram em nada, por exemplo, o mesmo respeito que muitos artistas tentam impingir dos outros em nome do que eles, alucinada e cinicamente, consideram ser “cultura” ou “liberdade de expressão”. Mas, a seu tempo, cada um pagará a sua conta, porque a história é implacavelmente vingativa e, oportunamente, apresentar-lhes-á a devida conta.
Ninguém pense que Deus possa descer ao nível de nossas mediocridades. Vez por outra, recebo mensagens equivocadas de pessoas que imaginam que a Igreja do Papa Francisco está trazendo inovações, a ponto de, por exemplo, mudar a doutrina da fé católica, escancarando as portas a todo tipo de conveniências morais, espirituais, etc., segundo os gostos da modernidade. Há inclusive quem deseja que, um dia, a Igreja de Cristo possa “ter cara e pensamento condizentes com o século XXI”. Quem assim o espera, saiba que se trata de um “desejo sem esperança”, para recorrer a uma frase de Dante Alighieri na Divina Comédia. Nunca, jamais, a Igreja se tornará aliada do mundo contra a riqueza de sua doutrina, com fundamentação nos Evangelhos. Isso não significa dizer que não possamos fazer nossas escolhas, determinar nossas orientações, afinal de contas, o mesmo Deus que nos criou livres, jamais se colocará contra o dom da liberdade que também nos concedeu. Contudo, ninguém se engane, pois ela também terá o seu preço, e a própria humanidade tem dado sinal de cansaço.
Nossa humanidade é um cansaço crônico, histórico, gravado pelas consequências da desobediência de Adão. Mas, a cada Natal, a misericórdia divina vem nos advertir de que, não obstante tudo, ainda existe a esperança da regeneração. O Emanuel, o Deus conosco não nos abandona, nem mesmo quando parecemos à deriva, desorientados, sem bússola pelo mar agitado das feridas mais profundas de nossas inquietações interiores. Transformando a cada um de nós, ele também pode trazer a transformação geracional dos povos, conforme os ditames de seu poder Salvador, porque ELE É O SALVADOR... (PGRS).
Feliz Natal, com Jesus, o Salvador!


quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Somos livres, não, independentes...


Somos livres, mas não somos independentes...



O maior drama da criatura humana é não aceitar a condição do que ela é, quer dizer, de ser criatura. De fato, na raiz dessa recusa, dessa inadequação entre seu desejo de autossuficiência e a radical dependência de Outrem, está a origem de todos os dilemas da história da humanidade, de cada homem, de cada projeto de busca de felicidade. Dentre todos os seres criados e jogados dentro do universo visível das criaturas, só o homem pôde voltar as costas ao Criador. É o profeta Isaías quem o afirma, de modo contundente e sereno: “O boi conhece o seu dono, e o jumento, a manjedoura de seu senhor, mas Israel é incapaz de conhecer, meu povo não é capaz de entender. Ai da nação pecadora! do povo cheio de iniquidade! Da raça dos malfeitores, dos filhos pervertidos! Eles abandonaram o Senhor, desprezaram o Santo de Israel, afastaram-se dele” (Is 1,3-4). O profeta Isaías pinta com cores vivas e incandescentes a realidade na qual o homem está mergulhando desde que se rebelou contra seu criador. O povo de Israel, enquanto expressão da humanidade inteira, encarna e atrai sobre si o destino de todos os filhos de Adão. Racionalmente livres dentro do seu espírito, sua consciência vagueia entre o bem e o mal, o certo e o errado, a verdade e a mentira, o moralmente belo e o feio, entre a vida e a morte. A possibilidade de uma escolha livre foi o que o tornou prisioneiro de si mesmo, de sua liberdade, de suas inclinações para a própria maldade do coração. Paradoxalmente, sua liberdade o fez escravo. Querendo emancipação, encontrou escravidão.
Tudo isso está narrado no livro do Gênesis, o livro das origens, o primeiro livro da Bíblia. Deus criou tudo o que existe das coisas da natureza, viu que tudo “era bom” (Gn 1,10.12.18.25) e resolveu criar também o homem, coroando assim o trabalho criacional de seis dias, depois do que, vendo que tudo “era muito bom” (Gn 1,31), resolveu descansar. Diz o texto sagrado: “Deus concluiu no sétimo dia a obra que fizera e no sétimo dia descansou, depois de toda a obra que fizera. Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, pois nele descansou depois de toda a sua obra de criação” (Gn (2,2-3). “Descansar?” O relato bíblico fala do sétimo dia como sendo o sábado. Dia do repouso divino. Claro que a linguagem bíblica é simbólica e revela por trás de si a pedagogia divina da revelação, de Deus que se dá a conhecer às criaturas pelas próprias criaturas. A palavra do livro da Sabedoria é incisiva quanto a este ponto: “Sim, naturalmente, vão foram todos os homens que ignoraram a Deus e que, partindo de bens visíveis, não foram capazes de reconhecer Aquele que é, nem, considerando as obras, de reconhecer o Artífice. Mas foi o fogo, ou o vento, ou o ar sutil, ou a abóboda estrelada, ou a água impetuosa, ou os luzeiros do céu, os príncipes do mundo, que eles consideraram como deuses. Se, fascinados por sua beleza, os tomaram por deuses, aprendam quanto lhes é superior o Senhor dessas coisas, pois foi a própria fonte da beleza que os criou. E se os assombrou sua força e atividade, calculem quanto mais poderoso é Aquele que as formou, pois a grandeza e a beleza das criaturas fazem, por analogia, contemplar o seu Autor” (Sb 13,1-5). De fato, recorrendo ao início da filosofia grega, de um tempo em que os sinais da natureza eram vistos e aceitos como manifestação dos “deuses”, está a constatação daquilo que o homem primitivo via como animismo. Segundo o Dicionário Aurélio, o “animismo” é definido como “modo de pensamento ou sistema de crenças em que se atribui a seres vivos, objetos inanimados e fenômenos naturais um princípio vital pessoal, isto é, uma alma”. Assim, mais tarde, a mesma filosofia grega indicaria o estágio de superação desse tipo de mentalidade. Segundo Comparato, “No século V a.C., tanto na Ásia quanto na Grécia (o século de Péricles), nasce a filosofia, com a substituição, pela primeira vez na História, do saber mitológico da tradição pelo saber lógico da razão. O indivíduo ousa exercer a sua faculdade de crítica racional da realidade”. (Comparato, 2015, p. 21).
A partir da criação do homem, penso que Deus nunca mais descansou. Pelo contrário, desde então, vive correndo atrás da intimidade com sua criatura rebelde. Às vezes, sinto pena de Deus, porque parece que ele está perdendo para o homem em criatividade! Ele criou homem e mulher, masculino e feminino, e, agora, dizem que já há mais de 70 possibilidades de sermos algo diferente! Também me dá vontade de rir da “criatividade maligna” do homem. Tentando inverter a ordem criacional, o homem que fora criado à imagem e semelhança de Deus, agora procura um “deus” à sua imagem e semelhança. Foi, então, por inspiração do demônio que ele desejou ser igual a Deus, mas acabou imaginando poder criar o seu deus, um demiurgo à sua estatura pequena, tacanha, impotente e limitado. No entanto, refém de si mesmo, a sede humana de autonomia não dispensa o homem da necessidade de Deus. Por mais que as descobertas científicas encham seu espírito de orgulho e autossuficiência, de liberdade e sonhos, ele permanece na zona criacional de dependência e inclinação à finitude biológica e temporal diante do que ele também se debate sem alcançar o sucesso desejado.
Por conseguinte, desde o primeiro Adão até o último – querendo expressar dessa maneira a lista interminável de todos os seres humanos que habitaram a terra, em todos os estágios da duração da vida – a história da humanidade segue seu destino irrefreável na textura da criatividade com que pessoas geniais deram sua contribuição em todos os ramos das ciências, e das artes e das técnicas. Mas a genialidade humana é reflexo dos atributos divinos depositados dentro da inteligência de que a obra-prima da criação – a criatura humana – foi dotada. Inteligência, vontade e liberdade fazem parte da constituição que a luz da consciência projeta dentro do homem, permitindo-lhe dobrar-se diante de si mesmo e do seu Criador.
A inteligência ilumina o caminho da vontade, indicando a direção do voo para a liberdade. É a liberdade o que livra o homem de si mesmo, de suas armadilhas mais secretas, do calabouço de seus medos, da estranheza de suas inspirações, das tristezas da vida, da ilusão das incertezas, da tortura de pensamentos que o oprimem pelas ondas interiores das angústias, enfim, da prisão dos seus próprios receios.

domingo, 23 de junho de 2019

Ana Medina - Cronoradiografia de um Médico


Ana Maria Medina
Cronoradiografia de um médico


Venho de ler o “ensaio biográfico” da amiga Ana Maria Medina – carinhosamente cognominada de minha “madrinha intelectual” – sobre a vida de um médico sergipano, boquinense, que estendeu sua experiência na medicina sobre os telhados do mundo. Refiro-me à obra sobre o Dr. Valmir Fernandes Fontes (2019). Na verdade, a cultura das letras é um caminho que ninguém percorre sem esforço. Com efeito, imaginação, intuição e criatividade no brilhantismo dos códigos da comunicação gráfica também é fruto do empenho, da investigação e da especulação que se imbricam nas linhas cruzadas do pensamento. A ideia de “ensaio biográfico” projeta as intenções do espírito na dimensão profunda das evidências de uma personalidade. O ensaio é, pois, uma tentativa, uma faísca luminosa no céu plúmbeo dos esgarços históricos pessoais que acobertam a quase consciência, que tenta buscar a si mesma, nas reminiscências existenciais do passado. Um “ensaio” é como um “esboço”, o que, em nada, diminui o valor da obra. Pelo contrário, segundo Jean Guitton, em colóquios imaginativos com Blaise Pascal, mediante excogitações filosóficas como sinopses de final de cena no pôr do sol da existência, “os esboços são sempre mais belos”. Essa é também a grandeza do “ensaio”.
Do vocabulário, talhado à maneira da linguagem apropriada para a narrativa, adentramos com a autora no universo cultural e histórico, não apenas da família do homenageado, mas também no contexto social da época. Eram tempos diferentes dos nossos, em que o primor da gentileza das tradições parece desbotar o brio dos amores modernos. Assim, história, tradição e cultura se misturam na estampa do tecido literário da trama. Efetivamente, a literatura possui o poder e a magia de abrir nosso espírito aos ventos de recordações do passado, colocando-nos dentro do ambiente emoldurado pela estatura eloquente da palavra. Desse modo, traços específicos de um tipo de erudição cronobiográfica enfronham décadas de formação e relevo social da casta dos Fontes, de cuja prole descende o Dr. Valmir Fernandes, que protagoniza o “Ensaio Biográfico” de Ana Maria Medina, prima do referendado nas páginas de sua obra. Sem dúvida, exaltada por sentimentos familiares em relação aos fulgores de personagens ilustres e positivamente influentes no meio social em que se destacaram pela profissão escolhida e abraçada, não poderia desconsiderar o estudo da figura em relevo na obra. Mas não somente por impulso sanguíneo. Na verdade, é preciso ter muita lucidez e sensibilidade para entender e perceber que, do seio de famílias simples na origem dos rebentos de seus troncos, também nascem vultos, celebridades importantes, que expandem sua sombra sobre a sociedade, contribuindo, de maneira mais ampla, para o bem da coletividade. É o que acontece, por exemplo, com a dinâmica da vida do médico, que não se deteve nos umbrais da medicina caseira, residual, íntima, mas se permitiu ir além fronteiras com suas pesquisas rigorosamente científicas e tecnológicas, inclusive publicando artigos em revistas de renome internacional. Porém, não apenas pelos artigos. De fato, “Suas contribuições também ficaram registradas em centenas de trabalhos científicos publicados em revistas e livros especializados, vários dos quais premiados, tanto no Brasil quanto no Exterior”. Segundo Sotero, citado pela autora, “A literatura médica internacional é a fonte bibliográfica da genialidade deste sergipano”.
A obra é leve, fruitiva e aprazível, no sentido da satisfação intelectiva que nos causa, embora traga consigo a exigência terminológica do ambiente descrito e do estilo condigno à envergadura e à imponência do Dr. Valmir Fernandes Fontes. Entre superstições e folclores da cultura nordestina dos tempos de antanho, como “enterrar o umbigo no mourão da cancela”, a fim de que o indivíduo se prenda ao lugar e tenha sorte, entre outras argumentações e crendices – saci-pererê, caipora, como reflexos de mitos afrodescendentes – ela também revela o gosto pela sabedoria popular, enriquecendo o enredo para deleite do ledor. Dessarte, ela foge à monotonia de obras enfadonhas pela ausência de dinamicidade literária, sem falar da estética visual sobre a qual o olhar descansa, perlustrando o caminho das ideias e da impressão das figuras. Desse modo, sob as cinzas do passado, reacendido por suas memórias, também descobrimos rasgos educacionais que experimentamos na era da “palmatória”. De fato, ninguém gosta de apanhar por ignorância, pois, diferentemente da concepção da época, não se tratava da “docilização do corpo”, mas era um constrangimento para quem batia e para quem recebia o “bolo” dos mais sabidos. Mesmo assim, na contraluz entre o passado e o presente, era o tempo “em que criança não questionava: obedecia”.
À mercê de outro ângulo de percepção, a vitalidade também escorre pelos cantos sombrios, tristes e obscuros de qualquer existência, de modo que vida e morte se encontram nos ingredientes etnolinguísticos da literatura biográfica da autora. Há sofrimentos e mortes que pendem sobre a família diante dos desafios da cronologia consanguínea. Mas as perdas familiares não conseguem deter os passos determinados da sobrevivência. E a responsabilidade que tomba sobre os ombros dos primogênitos demonstra, de igual modo, a ousadia dos fortes nas batalhas da vida. Isso também não faltou à vida do Dr. Valmir Fernandes Fontes. Mesmo fazendo parte dos corolários do nascimento, a morte sempre causa incômodos ao espírito humano. Na própria expressão da escritora, “a tragédia se abate sobre a família, levando o chefe para o insondável mistério da morte”. Diante da perda irremediável, “João, o primogênito, de apenas 17 anos, investiu-se da couraça que só os bravos têm sobre os ombros para sustentar e afiançou à mãe e ao avô que iria tocar a Fazenda Campo da Onça, e que nada iria faltar à família, mesmo que abdicasse de seus planos pessoais”.
Por certo, da leitura do livro, da simetria de suas palavras e da extensão de seu conteúdo, muitas vertentes de reflexão e entretenimentos intelectuais podem brotar da semeadura das páginas. Todavia, diferentemente da colheita das plantações, que fazem germinar o que ali fora depositado, no caso da literatura, seus frutos dependem também da ótica do leitor e do ponto de vista da realidade que açambarca seus conhecimentos. De fato, a sinfonia das letras tem o tom da sensibilidade dos músicos. Sobrevoando os campos da filografia espontânea e envolvente, a escritora, como em tantos outros livros seus, permite-nos vislumbrar horizontes mais profundos e longínquos, que nos mergulham além da superfície do texto, lá, onde o sabor das palavras revela a riqueza da elaboração e o segredo dos argumentos da escritura. Discorrendo sobre o passado de uma vida, tudo parece tão rápido e efêmero sob a esferografia da pena. No entanto, entre o acontecido e o dito em segundos, a extensão do tempo traz consigo a glória dos imortais e o brilho de suas façanhas.
Na verdade, a obra trata da cronoradiografia de um médico, isto é, uma espécie de raio “X” existencial do eminente galardoado. Antes, porém, de concluir minhas apreciações sobre a constituição sincrônica da obra, não poderia deixar de externar a grata surpresa e o gáudio que me permearam a alma por me encontrar na história do livro quando se fala de “Benjamim e Bebé [Elizabeth]”. No sobressalto da curiosidade, procurei saber se se tratava de uma senhora que, antes de falecer, eu lhe dera o sacramento da Unção dos Enfermos, no Instituto do Coração, na Capital, pois ela era muito religiosa e bastante conhecida em Aracaju. Eu também a conhecia! Felizmente, mesmo em contextos de vidas diferentes, em conjunturas temporais de aproximação de uns com os outros, ainda é possível o milagre do encontro e do reencontro. Então, parabéns à Ana Maria Medina, a autora, pela magnanimidade da obra, e ao homenageado, o Dr. Valmir Fernandes Fontes, “pela figura de homem representativo da dignidade humana”, por ser “competente, altruísta, desprovido das vaidades egoicas”, como afirmou em depoimento a Dra. Diana Maria e, sobretudo, pelo testemunho humano e profissional no mister de sua vida.