sexta-feira, 31 de maio de 2019

Dom Luciano Duarte





Dom Luciano Duarte
e a ousadia dos gênios




A admiração que sempre nutri por Dom Luciano Duarte (1925-2018) nasceu quanto eu ainda era jovem vocacionado, e, depois, seminarista, no final da década dos anos oitenta, participando dos encontros vocacionais no Seminário Menor de Aracaju. Como esquecer aquele tempo e suas visitas frequentes aos seminaristas? Pelo menos, para mim, foi um tempo de desejo ardente de florescimento multicultural, ouvindo e aclamando, com tantos encômios dignos de sua autoridade pessoal e eclesiástica, o então Arcebispo Metropolitano da Arquidiocese de Aracaju. O fulgor de sua inteligência era, realmente, contagiante. Portanto, o que trago aqui outra coisa não é, senão, um breve memorandum sobre o mítico de multifacetada personalidade que ficou conhecido no meio intelectual de Sergipe e na própria Igreja católica simplesmente como Dom Luciano Duarte.
Grande visionário, estudioso, intelectual, de profundo e rico veio oratório e dialético, versátil na exposição vocabular de seu conhecimento linguístico. O homem da palavra fácil, da réplica espontânea, no belo estilo polido da finesse dos grandes espíritos argutos, sábios, mas também capaz de ajudar os menos afeitos ao rico patrimônio do saber, da “sabedoria acumulada” de que fora dotado pela própria natureza de sua insistência na formação do caráter e da individualidade. Mas nada aconteceu por acaso, no sentido de que ele não tenha se esforçado para atingir os páramos mais elevados da grandeza que a envergadura de sua genialidade poderia lhe favorecer. Com efeito, a intensidade da educação que recebemos pode tornar-se uma referência que determina, negativa ou positivamente, a vida de quem se abre ou se fecha aos dotes cognoscitivos dos próprios recursos que brotam dentro da claridade dos pensadores.

Grande estudioso, insaciável na ânsia pelo saber, de raciocínio investigador, extremamente inquieto e saliente nos limites das aquisições já adquiridas, sempre desejoso de ir mais além, alfinetado pelas respostas prontas que trazia sob os riscos ou traços da pena literária, lúcido até onde lhe permitiram os rasgos do brilhantismo intelectual, Dom Luciano Duarte sabia se posicionar, de modo categórico e certeiro dentro dos vários ambientes em que se encontrava, sob qualquer tema ou assunto, mesmo não agradando nem convencendo, mas estando convencido de suas certezas, de suas convicções pessoais, fundamentadas no fértil solo do conhecimento erudito de que se servia para expor seus argumentos.
Embora o caráter e a personalidade de uma pessoa possam crescer e amadurecer no tempo cronológico de sua formação educacional ou acadêmica, levando em consideração outros efeitos da conceituação antropológica do indivíduo – sua infância e adolescência, o meio onde foi criado e educado, o acesso que pôde ter às letras e aos livros, a oportunidade de leituras e elaboração do pensamento etc. – o fato é que algumas mentes privilegiadas podem se destacar, desde cedo, mediante o mistério inebriante da acuidade espiritual e intelectiva de suas percepções mais tenras. Penso que isso tenha acontecido com o homenageado, Dom Luciano Duarte. Gênios brincam como gênios, mesmo que o alcance de sua criatividade seja traído pela não concretude de seus anseios na vida futura. Aliás, quem pode garantir a vida futura? Ouvi um dia, numa pregação da quinta-feira santa, na missa do lava-pés, Dom Luciano dizer que quase morreu quando criança, muito doente. Mas conseguiu se tratar e sobreviver, e não apenas não se tornou mais um número nas estatísticas do governo federal, aumentando o índice da mortalidade infantil no país, mas, sobretudo – dizia ele – havia se tornado alguém importante e influente no seio da sociedade sergipana e alhures. Na verdade, ele se referia, no contexto da celebração, ao modo como, muitas vezes, o Senhor Jesus poderia nos lavar os pés, servindo-se daquela maneira.
Nos vários “recreios culturais”, que tive e tenho com a amiga Ana Maria Medina, da Academia Sergipana de Leras, ela me contou que, num episódio narrado em seu diário seminarístico, consta que, um dia, numa brincadeira de menino que queria ser “gente grande”, no sentido da importância de uma personalidade que se destaca pelos seus talentos, numa espécie de peça de teatro, que ele escreveu aos onze anos, ele se colocara como aquele a quem todos deveriam obedecer, isto é, a “Dom Luciano Duarte”. Certamente, adormecida nas dobras da alma pueril do menino levado, inteligente, jazia o tom brincalhão de quem, um dia, se tornaria, realmente, importante e influente. Esse fato, narrado por ele mesmo, fez-me acordar dentro do espírito algo que li, por sua influência, sobre Geovanni Papini, um dos tantos convertidos do século passado, entre os quais podemos destacar também Maurice Blondel e Léon Bloy, sobre os quais ele falava com largueza de conhecimento e riqueza de detalhes da vida dos dois. Geovanni Papini, que dizia nunca ter sido criança, sisudo na fisionomia do rosto, já era tratado e apelidado como “velho”, aos sete anos de idade. Não brincava como as outras crianças de sua contemporaneidade, mas, penetrado por uma inteligência brilhante e astuciosa, rivalizava com o próprio Deus em peças de teatro que imaginava, querendo concretizar o acontecimento bíblico de quando a serpente disse a Adão e Eva que eles seriam como o próprio Deus. Assim sãos os gênios e sua ousadia intelectual, tempestivamente provocados por suas intuições mais profundas. Às vezes, tento fantasiar em minhas especulações a ousadia da genialidade de meninos assim, abertos aos ventos do espírito, com as asas da inteligência volitando sobre os encantos de suas criações inocentes. Devaneios ou sede de autoafirmação mesmo? Consciência plena dos caminhos de suas buscas ou enlevos francos de sua esperteza em arrebatamentos idealistas? Não sei! Mas tenho certeza de que as sementes dos grandes sonhos plantados na alma dos pequenos gênios podem ser sinais de virtude, de coragem ou de desejo de realizações oportunas. A vida é o caminho dessas vitórias e conquistas, mas os limites são os desafios impostos pela superação dos grandes ideais e aspirações do espírito humano.
O tempo é o senhor de todos os sonhos! Para os ideais daquele menino também. Levantando-se do chão pelo crescimento da força física, mas também intelectual, seu caminho estaria marcado pela lucidez com que, sempre, se embrenhou pelas florestas altas do saber e do conhecimento, percorrendo o mundo pela construção acadêmica que a Igreja lhe abriu durante a formação, porém ampliando, cada vez mais, o horizonte das inquietações que lhe perturbavam o espírito. Não se deteve no conhecimento das coisas da Igreja, apenas, mas igualmente se deixou desassossegar pela conjuntura mundial das ideologias que, de um modo ou de outro, espezinhou e vilipendiou a dignidade humana em conflitos revolucionários de governos caudilhistas e déspotas. Ele, que costumava citar o pensamento de um pastor inglês, metodista, John Wesley (1703-1791), que dizia que, ao abrir a janela de sua casa pela manhã, contemplava o mundo inteiro como se fosse sua paróquia, também saiu das sacristias e elevou seu pensamento e suas preocupações sobre os telhados do mundo em decomposição moral, deteriorando-se nos seus valores mais prementes.
Com efeito, a alma dos gigantes não se contenta com o mundo pequeno de suas percepções, mas com a grandeza e a elasticidade de suas inquietações mais profundas. Não quis somente ser o padre ou pastor, especializado nas coisas da Teologia e da Igreja, mas também se abriu para o mundo, fazendo seu doutorado na Sorbonne de Paris, aos pés de grandes filósofos e amigos como Jean Guitton e Paul Ricoeur, também egrégios inspiradores de grandes ideais pela elevação da humanidade.
Pe. Gilvan Rodrigues, Mestre em Teologia Bíblia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, e Escritor.
  

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Santos da nossa história..


SANTOS DA NOSSA HISTÓRIA
SANTOS DA NOSSA VIDA


Falando sobre a santidade na vidas das pessoas, Bento XVI escreveu o seguinte: “em todas as épocas da história da Igreja, em qualquer canto na geografia do mundo, os santos pertencem a todas as idades e a qualquer estado de vida, são rostos concretos de todos os povos, línguas e nações. [...] Acrescento que, para mim, não só alguns grandes santos, que amo e que conheço bem, servem como ‘placas de sinalização’, mas principalmente os santos simples, ou seja, as pessoas boas que vejo na minha vida e que nunca serão canonizadas. São pessoas normais, por assim dizer, sem heroísmo visível, mas em quem, na sua bondade de todos os dias, vejo a verdade da fé. Essa bondade, que amadureceram na fé da Igreja, é para mim, a mais garantida apologia do cristianismo, e o sinal de onde está a verdade”.
Mesmo sem possuir a clarividência do Papa Emérito nem a profundidade de suas intuições, em proporções menores, eu também posso reconhecer a veracidade de suas palavras em pessoas que passaram por minha vida ou ainda estão, aqui, comigo, na transitoriedade do tempo que nos encaminha para a eternidade. João Paulo II, com quem estive três vezes; Madre Tereza de Calcutá e Irmã Dulce, para citar alguns exemplos perto de nós, e que já celebraram a sua Páscoa definitiva, são testemunhos de uma vida santa. Mas há também aqueles santos que, na afirmação de Jacques Maritain, “nunca serão canonizados”.
É, pois, dentro do contexto desse pensamento que eu gostaria de recordar e fazer memória da Irmã Maria Alice Portela (1928-1999), que nasceu e Portugal, viveu muitos anos em Paris, como superiora geral de sua congregação – a Congregação da Irmãs Franciscanas Missionárias de Nossa Senhor – mas também dedicou tempo de sua existência em Itabaiana, Rio das Pedras e em Jequié, na Bahia. Sei que com essa publicação muitos amigos se lembrarão dela. No mundo globalizado e moderno, ela era de um espírito cativante e empreendedor no âmbito das vocações que devia cultivar para o bem da Igreja e dos consagrados. Era um testemunho de serviço e de alegria em meio a todos com quem convivia. Não por acaso, o livro que escrevemos sobre ela – uma obra a várias mãos, se intitula, numa singela homenagem “...passou sorrindo...”. Foi publicando em português e francês. Há um dramático relato meu, justamente, fazendo referência ao dia 14 de mais de 1999, dia em que fui me despedir dela, sempre sorridente, porque ela deveria partir para sua terra natal, a fim de levar adiante o tratamento de saúde. Também porque afirmou ter medo de morrer fora de sua pátria. Naquele dia, depois da despedida, no Rio das Pedras, viajando para Salvador, eu capotei o carro, num acidente. Fui obrigado a retornar, ferido, para o Hospital, de modo que, na segunda-feira seguinte, pude ir ao aeroporto para aquele instante de “adeus”.
Vinte anos se passaram, e eu conservo ainda o frescor de sua personalidade, sofrendo no corpo e no espírito, mas sorridente também. Em agosto daquele ano, eu fora hospedado na casa de sua congregação em Paris, vindo da Itália, onde participei de um curso de formação religiosa. No dia 24 do mesmo mês, dia em que deixei a “cidade Luz”, falei com ela por telefone. Aliás, chorei mais do que falei. Ela, muito doente, simplesmente, me disse: “Padre, quando chegar ao Brasil, mande notícias, mas não espere mais notícias minhas...”. Depois de tantos encontros que tivemos ao longo de mais de dez anos, aquele foi nosso último diálogo, e ela faleceu no Porto, no dia 2 de novembro de 1999. Nunca a esqueci e sempre trago comigo em minhas orações. Tenho certeza de que ela também vive na memória de muitos amigos e admiradores. Penso que seu pensamento traduz o sentido profundo também de sua vida, de seu testemunho e de sua existência no meio de nós: “Que através de nosso testemunho de vida fraterna vivida no Amor e na Fé profunda, possamos dar muito amor a todos aqueles que nos rodeiam e que têm necessidade de nós. Que possamos levar Esperança àqueles que a vida faz sofrer e para quem ela não tem sentido; muita alegria àqueles que a tristeza e o sofrimento impedem de viver”. De fato, onde a Ir. Maria Alice chegava levava consigo luz e esperança aos circundantes.
Que a contemplação da luz divina no céu seja sua mais digna recompensa por tanta bondade semeada no nosso caminho, na estradas de todos que tiveram o privilégio de encontrá-la pelas estradas da vida. Descanse na paz do Senhor, Irmã Maria Alice Portela.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Democracia ou demonocracia?


DEMOCRACIA OU DEMONOCRACIA?


Um silêncio estranho ronda a praça da matriz da Igreja Santo Antonio e almas de Itabaiana-SE. Alguém provocou o Ministério Público, e ele fez silenciarem os sinos que anunciam um sinal de Deus no meio da comunidade. Não importa se crente ou não, se ateia ou não, se pagã ou não. Mas a voz se faz ouvir em todos os cantos da cidade. Há séculos e décadas, os sinos de uma igreja e, depois mais recentemente com o avanço moderno da tecnologia, também o serviço de som anunciavam, de modo mais claro, um sinal da presença divina.
Quem ainda não se lembra de quando criança como eram preciosos e edificantes os hinos religiosos que embalavam os sonhos e as esperanças da sociedade em conflito, na luta pela sobrevivência. Os sinos chamam e indicam o caminha da igreja, do encontro e da comunhão com Deus; recordam o falecimento de um amigo na cidade, o instante de seu enterro, e elevam o espírito dos pobres mortais à lembrança de que a vida humana é breve, passa num segundo. Uma das expressões mais clássicas da literatura inglesa ensinava: “Não perguntes: por quem tocam os sinos? Eles tocam por ti”. Existem categorias e toques de sinos que são especiais em momentos, sobretudo, fúnebres, quando nosso coração se entristece, e o badalo do campanário nos recorda também que a vida humana não se esgota, aqui, na poeira dessa terra. Os sinos indicam a direção ao alto, da elevação da alma a Deus, e permite à mísera criatura humana, não orgulhosa, mas humilde, recordar-se de que o seu dia também chegará.
Sei que a Igreja possui muitos inimigos, inclusive, dentro dela mesma. Há grupos fascistas, demoníacos, comunistas, eivados de ideologias satânicas, até mesmo com o patrocínio de alguns padres e bispos – disse “alguns” – que, para não terem o seu nome arranhado ou sua imagem desprestigiada, preferem ver ovelhas de seu rebanho caminhando para o inferno sob o olhar pacato e tranquilo de suas conveniências. Isso porque se furtam à Verdade do próprio Evangelho de Cristo, que propõe conversão e mudança de vida. Um amigo me disse que “a omissão é a trincheira dos covardes”. E eu concordo plenamente! Infelizmente é assim que muitas vezes nos comportamos para não cairmos na indisposição dos desafetos. Mas a omissão é um pecado gravíssimo, de modo que, a seu tempo, cada um pagará a sua conta. Li um cardeal muito admirado e amado pela igreja que dizia: “As contas que não pagarmos durante a vida, voltam todas no final [na hora da morte!]”. Que constatação tremenda. Mas Deus não dá em ninguém de corda!
A bem da verdade, o fato é que vivemos tempos difíceis e não me canso de repeti-lo! A humanidade está maluca, e os princípios que, há bem pouco tempo, pareciam reger a vida das pessoas, mesmo a vida daquelas que nunca professaram fé nenhuma, mas possuíam consciência de retidão, sentido de bondade e desejo de viver e fazer o bem. Mas hoje, o mundo está de pernas para o ar. Ninguém sabe mais ou tem noções básicas do que é certo ou errado, bem ou mal. O caos tem se instalado de dia para dia, com uma avalanche de desprezo e ridicularização pelo sagrado impressionante. Basta lembrar o que aconteceu recentemente no carnaval do RJ em que mostraram Cristo vencido pelo diabo. Mera hipocrisia e satanismo humano. Quando alguém imagina coisas desse tipo, com certeza, é porque ela já foi alcançada por satanás, mas, não, NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! E dentro desse universo de desvarios e maluquices, está o problema da educação. Isso mesmo: EDUCAÇÃO! Se ela é considerada o berço da civilização, como conseguimos vislumbrar nos albores da gloriosa Grécia, por certo, já perdemos o rumo há muito tempo. Não por que os homens fossem perfeitos. Não! Não se trata disso. Mas porque nenhuma civilização sobreviveu sem ela. Até os anarquistas precisam dela para atingir seus objetivos, porquanto ela impõe disciplina, aprendizagem, crescimento etc. E olha que estou me referindo a princípios humanos, meramente humanos. Não me refiro a categorias meramente empíricas, afastadas dos ideais de progresso humano. Aludo àquilo que torna o indivíduo senhor de sua pessoa e de sua própria dignidade, lutando para ser, cada vez mais, melhor. Se não somos dotados nem de educação, como poderíamos pretender grimpar a páramos mais elevados? Podemos até pensar que somos educados, mas nos mostramos verdadeiros trogloditas pré-históricos.
Dizem que, no Brasil, vivemos uma democracia! Coisa linda e bonita para engambelar os distraídos. Temos uma Constituição Federal, a chamada Carta Magna do País, que está sendo carcomida pelo STF, os deuses, senhores acima do bem e do mal, que a interpretam como bem a intendem, contanto que a maioria decida o que é certo ou errado, hoje, e, amanhã, mudem de opinião. É isso democracia? Aprendi com um escritor católico que maioria não é sinônimo de verdade. Nunca foi, nunca o será! E ele explicava: se uma caixa com 100 laranjas contiver 90 podres, isso não significa que a maioria é melhor. Parece-me bastante lúcido. E pelo andar da carruagem, estamos longe de atingir o sentido pleno e correto do que chamamos “democracia”. Na minha opinião, vivemos uma “demonocracia”! Sim, pare que o poder emana do demônio e, não, do povo! Tantas aberrações já foram decididas com base no princípio constitucional! Quem for inteligente deve se lembrar de algumas. Enquanto isso, vamos reprimindo, a toque de caixas, a também constitucional “liberdade religiosa”.
“Liberdade religiosa”. Em nome da laicidade, estamos destroçando os valores cristãos, porque dizem que religião é uma coisa interna, da consciência de cada um, e, portanto, deve ser vivida escondido, no silêncio do coração ou da consciência. Mas outros tipos de aberrações, e de imoralidades, e de pornografias, e de comportamentos vis, de desrespeito à presença dos transeuntes – esses, sim – podem ser externados à luz do dia, nas praças das cidades, como prêmio da libertinagem individual e coletiva fomentada pelo Estado de Direito! Quanta hipocrisia! Maldita hipocrisia! Depois, o homem se transforma na besta irracional que devora seus iguais, e ninguém se pergunta por quê. Muitos que intrigam com a igreja e as religiões, vivem como ateus, à toa ou perdidos mesmo, mas quando estão morrendo ainda têm o cinismo de mandar chamar um padre, com medo de ter de atravessar os umbrais do inferno. É como diz Augusto Cury: “Às portas da morte, o ser humano recolhe [todas as] suas máscaras e fala sem disfarce”. Na hora da morte, os que pareciam corajosos na sua descrença, apelam para algum “deus”! E ainda querem missa de corpo presente, de preferência celebrada por um padre famoso, e de sétimo dia. Houve um filosofo francês que, não apenas mandou vir um padre, mas também pediu as credenciais para certificar-se de sua credibilidade.
Em uma cidade da Alemanha, no final de abril de 2019, agora, recentemente, uma grupo de católicos, entre os quais havia muitos padres, bispos, e inúmeros leigos, fizeram uma passeata pacífica, em defesa da vida, contra o aborto, em prol da família cristã e de seus valores. Uma cena tremendamente chocante, dantesca, assustadora! Esse grupo de fiéis católicos, passavam, serenamente, cantando, rezando, flanqueados por barreiras de policiais, que os defendiam dos gritos, das vaias e do desrespeito dos inimigos, que rosnavam como cães raivosos, tentando alcançar suas presas. Uma cena chocante e triste ao mesmo tempo! Como pode o mundo odiar tanto quem só deseja o bem? Os cristãos de verdade sabem a resposta, e tenho certeza de que estamos dispostos a voltar às catacumbas, como acontecia no início do cristianismo, nos três primeiros séculos de sua história. E é isso o que está acontecendo; é o que estamos vivendo! Acuados pela covardia do mundo, os cristãos, cada vez mais uma minoria, estão sendo empurrados para o esconderijo, para as catacumbas.
Lembro-me de um texto terrível, que o Papa Bento XVI escreveu, numa visão profundamente profética, sobre a perseguição crucial e violenta que, ao fio dos anos e dos séculos futuros, os cristãos irão sofrer. Que ninguém se engane: isso já começou! Estamos sentindo na pele. A fumaça de satanás confundido os homens no vendaval da imoralidade, do egoísmo, da indiferença religiosa, do ateísmo prático e doutrinário, do antiteísmo, de ideologias macabras e desconcertantes, que nos conduzem à mais completa obscuridade anticivilizatória. Pena que perdi aquele texto. Talvez, devesse perde-lo! Gostaria de fundamentá-lo melhor. Era, realmente, um texto assombroso, de um tempo sanguinário de perseguição religiosa radical, contra os discípulos de Cristo. Na sua visão, depois de imensos sacrifícios, de mortes e de martírios, de verdadeira purificação, a Igreja do Senhor, como sempre aconteceu após as tormentas levantadas pelo ódio do mundo, renasceria purificada, com um número bem reduzido, mas como expressão viva do Senhoria de Cristo, de cuja Igreja “as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela” (Mt 18,16-20). Não obstante tudo, essa também é a nossa fé, a fé dos cristãos e a sua irrenunciável esperança. O mundo moderno passará, com todas as suas prevaricações e desprezo pela Igreja do Senhor, mas o julgamento também é certo. (PGRS).

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Paris e o mundo aos pés de Notre-Dame em chamas


Paris e o mundo aos pés de Notre-Dame em chamas...

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Seria muito bom se não fosse verdade, mas Paris e o mundo se prostram diante da bela catedral Notre-Dame de Paris em chamas, qual luzes que nãos gostaríamos de ver. A bela Paris de meus sonhos parece não querer acreditar do pesadelo do fogo. Em tão pouco tempo, menos de um final de tarde, onde o sol se põe depois das 19 horas, quase um milênio de história e arte desaparece no meio das cinzas das incertezas deste início de século. Será verdade? Sim, o sonho de dezenas de séculos se transforma no nada. Sinal dos tempos? Reflexos do paganismo moderno em que vivemos? Destruição de um símbolo cristão da primogênita filha da Igreja Católica? Afronta à terra de santos e de mártires que se consumiram pelo amor à religião do Senhor Jesus? Não sei! Talvez, nenhuma dessas alternativas. Mas o fato é que todos perdemos!
Perdeu o Ocidente, orgulhoso de sua cultura filosófica, cientista, helênica, astrológica, etc., mas rebelde às raízes da própria fé plantada nos albores do Cristianismo. Perdeu a arte multissecular de vitrais magníficos de constituição catequética, de um tempo em que as gravuras falam por si mesmas, tentando catequizar o mundo vaidoso do Ocidente sonolento no berço de suas conquistas. Perdeu a história arquitetônica, que esboçou nos painéis góticos a imaginação de nervuras de cimento o esplendor da criatividade humana. Perdeu a própria Paris, encruzilhada do mundo, que alberga turistas de todos os povos e lugares. Perdeu a humanidade, senhora de tempos sombrios, de épocas civilizatórias e momentos de barbáries, no mesmo canteiro dos anseios humanitários. Perdeu quem viu o esplendor de um templo cristão, na capital da França católica, de reis santos e de santos convertidos, que beberam na fonte cristalina da graça da conversão. Hoje, no universo cinzento que atraiu a atenção do mundo, cada um, a seu modo, pôde externar sentimento se pesar e tristeza, de assombro, inclusive, de espanto, mas também de oração e de prece à Virgem cujo nome detém o sentido sagrado do que, agora, parece ter se tornado profano no meio das flamas vertiginosas do imprevisível. Quantas vezes, eu pude adentrar no seu recinto, e também rezar a missa com outros sacerdotes concelebrantes em domingos festivos, na liturgia solene do Senhor! A Catedral de Notre-Dame – a catedral de Nossa Senhora, a rainha de todas as coisas criadas, visíveis e invisíveis – certamente renascerá das cinzas, segundo o desejo de todos que lamentaram sua inominável destruição, inclusivo Presidente Emanuel Macron, que já decidiu conclamar o mudo político e artístico para ajuda-lo! Enquanto isso, seguimos, de longe, rezando e torcendo para que sua esplendecência volte ao fulgor de outrora. Numa cruzada de sentimentos e lamentos, hoje, 15 de abril de 2019, o mundo diplomático se uniu à Paris num canto fúnebre de tristezas e lamúrias incendidas de pesar e consternação da alma fraterna dos povos.
Da Alemanha, veio o frêmito de Ângela Merkel, “a dama de gelo”, referindo-se ao trágico acontecimento: “Que dor, ver essas atrozes imagens de Notre-Dame em chamas! Notre-Dame é um símbolo da França e da nossa cultura europeia. Todos os nossos pensamentos aos amigos franceses”; Dos Estados unidos, Trump se solidarizou, afirmando: “É horrível ver o incêndio massivo da catedral de Notre-Dame de Paris”; Melania Trump, a primeira dama americana, declarou seu “coração ardendo”: “Rezo para que todos estejam sãos e salvos”; Barak Obama reconheceu: “Notre-Dame é um dos maiores tesouros do mundo”; e ainda: “É da nossa natureza se lamentar quando vemos a história perdida, mas também é da nossa reconstruir o amanhã, tão forte quanto o podemos”; da Inglaterra, Tereza May manifestou “pensamentos aos serviços de urgência que combatem o terrível incêndio da catedral Notre-Dame”; também o prefeito de Londres, Sadiq Khan, da minha idade, 48, externou pesar pela catedral pegando fogo; “É verdadeiramente terrível. Que tragédia cultural, não apenas para Paris e a França, mas igualmente para o mundo”, afirmou, então, a primeira ministra da Escócia, Nicola Sturgeon; por sua vez, o primeiro ministro canadense, Justin Trudeau, também lamentou: “Isso nos queima o coração, ver a catedral Notre-Dame de Paris na proa das chamas. Pensamos em nossos amigos franceses que combatem esse incêndio devastador”; Sandro Sanchez, primeiro ministro espanhol, destacou: “Seguimos com inquietação as informações que chegam de Paris, sobre o incêndio de Notre-Dame, uma das mais belas catedrais do mundo. Uma notícia triste para nossa história e nosso patrimônio cultural universal”; o presidente da República Mexicana, de igual modo, também deixou sua mensagem: “Esse incêndio é uma infelicidade para a arte, a cultura e a religião”; o presidente colombiano, enfatizou: “Pena irreparável que toca esse símbolo mundial; e o presidente do Brasil... ah, o jornal Le Figaro, do qual colhi tais informações, não disse nada Sobre o assunto! Nossa visão cultural do mundo está sempre em atraso. Paciência! Enfim, para citar mais um pensamento, assim se pronunciou o presidente da comissão europeia, Jean-Claude Juncker: “Que triste espetáculo! Que horror! Eu partilho a emoção da nação francesa que também é nossa...”.


Não obstante tudo, o fato é que muitos outros espíritos de cultura elevada e conectada instantaneamente com as tragédias da história moderna não perdem tempo em juízos de valor sobre o que é realmente essencial na cultura moderna, mesmo que suas raízes estejas plantadas num passado distante que também nos atinge. Ironicamente, Notre-Dame significa “Nossa Senhora”! e, talvez, o mundo moderno tão tenha sentido a necessidade de invocar o seu nome como agora, em que o paganismo se espraia implacavelmente destruindo valores culturais, religiosos, axiológicos da vida, da existência humana, mas também da zona de espiritualidade de que o mondo hodierno tenta se esquecer. E quantos lábios pagãos não a invocaram sem o saber nessas trágicas circunstâncias de incêndio e purificação de que o mundo precisa urgentemente.
Notre-Dame de Paris, priez pour nous! Nossa Senhora de Paris, Rogai por nós! 


segunda-feira, 25 de março de 2019

Um país sem cultura é um país sem história


Um país sem cultura é um país sem história



Na contra mão do que acabei de afirmar na epígrafe, inicio essa abordagem enfatizando que um país sem história é um país sem cultura. Se não temos cultura, não temos história e vice-versa. Qual é mesmo a nossa história? Um autor francês, Jean de la Croix dizia que se não carregássemos dentro de nós mesmos a história da humanidade, seríamos como bússolas enlouquecidas. Então, não é assim que se encontra o Brasil, uma bússola enlouquecida? Aonde estamos indo? Basta olhar a situação em que a nação verde-amarela se encontra para percebemos que estamos cada vez mais longe dos ideais que estimularam outras nações em direção às suas conquistas.
Num rápido passeio pela história de outras nações, sobretudo europeias, descobrimos quanto sangue foi derramado pela conquista de direitos e emancipações da dependência das tiranias estrangeiras. Muito sangue foi derramado. Duas grandes guerras golpearem terrivelmente aqueles países, e os monumentos em homenagem aos que tombaram na guerra estão espalhados por toda a Europa. Sinais de agressões bélicas mapeiam os ambientes turísticos por que passamos. Nomes intermináveis podem ser lidos ao vento de reminiscências que nada parecem dizer, por exemplo, a um brasileiro, porque aqui nunca derramamos sangue para conquistar nossos direitos. Eles foram dados, gratuitamente, de modo especial, na Constituição Federal que foi promulgada em 1988, quando saíamos da bruma densa do que chamamos ditadura no Brasil. Sonhos e liberdades truncados pela força bruta do caudilhismo que grassava em todos os âmbitos sociais. Mas, nem de longe, poderíamos dizer, que aqui se derramou sangue, a fim de tingir a história de mais orgulho. Nenhuma nação se torna verdadeiramente autônoma e livre sem lutas e batalhas, mesmo que isso não signifique o derramamento de sangue mediante as tempestades belicosas que agitaram os povos. Todavia, infelizmente, foi isso o que aconteceu em várias partes do mundo. De fato, o patriotismo que estranhamos aqui, quando, por exemplo, se pede para cantar o hino nacional nas escolas, é sinal de orgulho para as nações que sabem o quanto pagaram para ser o que são. Famílias destroçadas pela guerra, porque o homem é igual em todas as estações do avanço histórico das civilizações, choraram seus mortos, suportaram os mutilados, experimentaram a miséria do comportamento humano, sentiram a saudade dos que nunca mais voltaram, perdidos nos campos de guerra, sem direito à dignidade de um funeral, e cujas lembranças nada mais são do que o nome recordado por seus entes queridos. No Brasil, vivemos tudo isso historicamente? Alguém me lembre, porque, como dizem que brasileiro não tem memória, é possível que eu tenha acabado de me esquecer.
Durante muito tempo, fomos sendo doutrinados para perder todos os valores que poderiam compor e constituir o sentido profundo da vida em sociedade. Saímos do campo da singularidade – porque a individualidade é uma característica do ser pessoal, do ser pessoa – para a dispersão do gênero, da degeneração coletiva, pois, quem se perde na massa, também perde sua própria identidade. Trabalhamos a cultura do “junto e misturado” e nos esquecemos de que nos misturar não é nos confundir na essência individual mais recôndita do nosso ser. Socialismo, comunismo, marxismo e tantos outros ismos foram engolindo nossa capacidade de percepção da nocividade de seus conceitos ou de sua efetividade prática em relação à própria dignidade humana. Ideologias que matam foram tomando conta do inconsciente coletivo como algo positivo, enquanto, na verdade, só favoreciam o pequeno grupo dos ditadores que comiam a carne viva de seus semelhantes, quando não assavam a lenha verde de suas vísceras em fornos crematórios. Era a vida humana degringolando em direção ao precipício do aviltamento brutal. A história passou, e muitos, alucinados por inspirações diabólicas como a fumaça do nazismo, insistem que um mundo sem Deus, longe de princípios religiosos, é a garantia de que as liberdades serão respeitadas e, os direitos, acautelados.
Antes mesmo dos períodos sombrios do advento da II Grande Guerra Mundial, espíritos altaneiros e pensadores, sobretudo cristãos, já anteviam que a civilização Ocidental post-Cristã escolheria “a Cristo sem a Cruz. Mas Cristo sem o sacrifício que reconcilie o mundo com Deus não passa dum pregador itinerante barato, efeminado, descolorido, que merece a popularidade pelo seu grande Sermão da Montanha, mas que merece também a impopularidade tanto pelo que afirmou acerca de sua Divindade, como pela sua doutrina sobre divórcio, juízo e inferno. Este Cristo sentimental é recordado num fundo de mil lugares-comuns, sustentado às vezes por etimologistas acadêmicos incapazes de ver a Palavra por causa das letras, ou deformado, até perder a fisionomia pessoal, pelo princípio dogmático de que tudo o que é Divino se reduz necessariamente a um misto. Sem a Cruz, ele não passa dum ardente precursor de democracia, ou dum humanitário propugnador da fraternidade sem lágrimas”. (Sheen). Em outras palavras, o escritor quis dizer que a verdade anunciada por Cristo nos encanta quando nos parece comodamente distante das exigências da vida voltada ao espírito de sacrifício e generosidade, mas que, ao mesmo tempo, nos choca e nos constrange quando a mesma verdade nos acusa. É muito fácil aplaudir verdades que não exigem muito do nosso comportamento, que não comprometem o risco de nossas ambições ou mesmo presunções. Vivemos a era dos direitos, buscamos a liberdade de nossos vícios, e nos esquecemos de que os deveres também tecem a filigrana de nossas atitudes, comprometendo-as diante do bem comum, da coletividade. Mas o brasileiro prefere a vida cômoda à guerra. Isso está no seu DNA, talvez, como herança de algum ancestral de outro continente. E a comodidade, filha da preguiça, parece condu-lo pelo caminho das facilidades, do jeitinho, da lei do menor esforço, desembocando na oportunidade da corrupção. Não aquela feita de milhões, mas aquela, pequena, gradual, progressiva, colhida na escuridão da noite moral, que pode levar aos milhões.
Como é triste ver quem deveria ser e dar exemplo ser levado para a cadeia num país tão rico de tudo, inclusive de ladrões! É o tecido social esgarçado pela podridão de algumas lideranças políticas, surrupiando montanhas do dinheiro que poderia ser investido na educação, na saúde, no saneamento básico, na segurança e, assim, por diante. Infelizmente, fomos habituados à passividade, de modo que, quase não nos indignados mais com toda essa sujeira que está aí. Tentamos defender a nossa parte, e pronto. O Brasil está aos frangalhos, depois de anos a fio de corrupção e ideologias degenerativas de tantos valores sociais, familiares, comunitários, religiosos, em que, supostos defensores da diversidade e, que, agora, diante de uma moldura social que se demonstra diferente de suas presunções, aparecem radicalmente intolerantes com quem pensa diferente. As redes sociais que o digam! Cada vez que eu posto um texto assim, com esse tipo de reflexão, descubro que muitos me bloqueiam no Facebook. Deve ser a incapacidade para acolher o diferente, o novo, mesmo considerando que não sou o dono da verdade, que apenas exponho, com toda a “liberdade de expressão” devida a todos, pois esse é um direito constitucional. Outros apelam para a religião, como se ela me tolhesse o direito de pensar e refletir. Mas a religião ou o ser religioso não pode ser uma mordaça na vida de ninguém, nem um tapa olho [como de pirata] que lhe favoreça a tiflose ou mesmo a cegueira intelectual. E o pior é quando torcemos para que o Brasil não dê certo, simplesmente porque o governo que está aí não foi o candidato em quem votamos. Comportamo-nos como aquele cara do avião que lia tranquilamente seu jornal num momento de turbulência que inquietava todos os passageiros. Alguém tentava adverti-lo de que o avião estava prestes a cair. E ele argumentou: “Deixe o avião cair! Ele não é meu!” Ou seja: burrice pura! Se o Brasil afundar, iremos todos juntos com ele. De qualquer modo, nessa precipitação de desejos controversos, muitos ditos intelectuais, artistas, cantores, escritores, cineastas, entre tantos ouros brasileiros, criticam o sistema político do país, mas moram fora, em cidades e nações civilizadas da Europa ou da América Latina. Assim fica mais fácil cuspir no prato em que comeram. Não que eu seja contra quem mora fora do Brasil. Pelo contrário, esse não é o problema. O problema é não permanecer aqui para nos ajudar na superação das dificuldades nacionais, enquanto atiram pedras de longe. Alguns mamaram demais nas tetas do Governo Federal, usando nosso dinheiro e, agora, percebem que a fonte secou.
Embarcamos quase que inconscientemente nas ondas da psicopatia social e ainda nos consideramos normais. O mundo está maluco mesmo, de pernas para o ar. Enquanto tentamos combater os vários tipos de preconceitos, construímos pessoas ainda mais doentes, com sentimentos mórbidos, incapazes de reagir com lucidez aos dramas da própria vida. São assassinatos nas escolas, massacres em ambientes sociais marcados pela presença inocente das pessoas, que não sabem o perigo que as ronda. Mas o que estamos fazendo dentro de nossas casas, com a educação de nossos filhos? Que tipo de testemunho somos para eles? Por que delegamos a responsabilidade por seus comportamentos à Escola ou ao Governo ou ao Estado? Até onde nos interessamos realmente pela mudança de suas atitudes e comportamentos, de modo especial quando eles se tornam agressivos, negativos? Por que nos furtamos à disciplina e à ordem dentro de casa, sem mais exigir o respeito e a obediência dos filhos? Por que o medo de frustrá-los ou fazê-los perceber que a vida tem seu preço e que as dificuldades devem nos ajudar a crescer? Certos traumas nunca mataram ninguém. E não estou defendendo situações que possam, de algum modo, marcar ou estigmatizar psicologicamente nossos filhos com propósitos intencionais de feri-los, mas de socorrê-los na hora da exigência de subordinação e tolerância com seus próprios erros. A formação é um caminho de sacrifício que deve envolver a todos, não apenas as escolas, mas também as famílias, a sociedade, o Estado, a Igreja (e por que não?) no sentido da integralidade do crescimento de cidadãos de bem, capazes de se colocarem no lugar dos outros, com altruísmo, empatia e compassividade. Numa palavra, desde cedo, devemos orientar os filhos para trabalharem em si mesmos a chamada “Inteligência Emocional”, algo sobre o que, infelizmente, sabemos muito pouco ou quase nada.
Altruísmo e empatia são termos correlatos. A palavra não é minha, mas de um grande estudioso do assunto, Daniel Goleman, Ph.D.: “Além dessa ligação imediata entre empatia e altruísmo nos encontros pessoais, Hoffman sugere que a própria capacidade de afeto empático, de colocar-se no lugar de outra pessoa, leva as pessoas a seguir certos princípios morais”. E ele recorda um dos versos mais famosos da literatura inglesa: “Nunca pergunte por quem dobra o sino; ele dobra por ti”. (Goleman). E isso significa o que, afinal de contas? Significa que todos nós fazemos parte do tecido social que, quando se deteriora, atinge também a cada um de nós. Somos filhos da mesma humanidade podre que nos abraça, de modo que ninguém está acima do bem e do mal. Como afirmou o mesmo autor acima referido: “[...] a dor do outro é nossa. Sentir com o outro é envolver-se”. (Goleman). Na verdade, trata-se de uma dinâmica da vida social que começa dentro de casa, ainda na primeira infância e que, depois, se estende sobre todos os estágios da formação da existência da pessoa.

quinta-feira, 14 de março de 2019

A Revolução dos bichos...


A Revolução dos bichos
Numa espécie de verdadeira fábula, “a revolução dos bichos” – uma obra do pseudônimo George Orwell (1903-1950), cujo nome verdadeiro era Eric Arthur Blair, que foi romancista, ensaísta político e jornalista – retrata a interação entre os bichos e os homens, numa perspectiva de superação das dificuldades por que passam os bichos quando não se sentem livres nem iguais aos homens. Na verdade, a obra do referido autor, adepto do anarquismo, é uma crítica e uma sátira, eivada de humor, em relação ao sistema ditatorial de Stalin, na Rússia.
A obra é uma distopia ou antiutopia, isto é, representa lugares e existências fictícios para denunciar algo que gostaria que não existisse na realidade. É, pois, o que acontece na supracitada obra, que inspirou o comentário a seguir. Nela, fala-se de irmandade, de fraternidade, que são termos próprios dos humanos. Assim, no apólogo, os bichos pensam e falam, à maneira antropológica, ao modo humano. Eles argumentam sobre justiça e liberdade, igualdade e direitos no exercício da sua dignidade animal. Na verdade, poderíamos dizer que se trata de uma projeção humana no universo animal, porque, de fato, os humanos tentam se colocar dentro do contexto da vida daqueles indefesos, que são maltratados e mortos. Então, eles, por assim dizer, no reflexo de sua percepção, se recusam a admitir que os homens os tratem de modo cruel, porque são preparados e cevados para morrer. “A revolução dos bichos” se torna, então, um tipo de protesto, de grito e de rebelião; uma insurreição capaz de produzir a revolta dos bichos. Tudo isso se reflete, contundentemente, quando eles expulsam os humanos que os exploram para longe de seu habitat. Assim, o perigo mais grave que se apresenta é a possibilidade de que o comportamento dos animais se estenda sobre outras propriedades da região. Começa, portanto, a tirania dos bichos sobre os humanos.
Interessante é pensar, por exemplo, que o desequilíbrio natural e harmonioso entre os humanos e os bichos é um fator psicológico humano, reproduzido nos animais. Hoje, fala-se muito dos “direitos dos animais”, da “racionalidade inferior” dos bichos, até bem pouco tempo, totalmente considerados irracionais. Logo, o raciocínio dos bichos se enquadra dentro das discriminações polarizadas no contexto social moderno. Os bichos se tornam discriminados em face dos humanos e intencionam se tornar como eles, inclusive com a elaboração e a positivação de princípios e leis que possam regê-los à maneira tipicamente humana. Trata-se de instruções que possam garantir seus direitos de liberdade, igualdade e dignidade ao nível de sua animalidade. Uma organização se estabelece entre os bichos, que ocupam cargos de liderança e funções de trabalho, ordem e disciplina, a tal ponto, eficientes, que surpreendem os humanos, agora, destituídos de suas tarefas frente aos bichos. Tudo parece um sonho feliz e edificante, quando, de repente, os sentimentos negativos, de rejeição, de tortura e de reféns de alguns bichos dominando outros, começam a aflorar.
Ou seja, os bichos entram no mundo dos homens e se comportam de igual maneira. Mais ou menos como assistimos no espelho da história humana onde os que tentam se liberar de certas tiranias, acabam impondo as suas. A cegueira ou o fanatismo de ideologias que deturpam o sentido real dos direitos devido a todos também se estabelece sobre as atitudes comportamentais dos bichos. Assim, a ideologia poderia comparar-se a um veneno lento, que entorpece a consciência, obnubilando-a gravemente, de modo que a pessoa se submete às imposições da tirania. De fato, a ideologia enfraquece as mentes distraídas, condicionando-as letargicamente aos antídotos contra a liberdade da própria lucidez do espírito. Quer dizer: a suposta segurança de alguns degringola na opressão de outros. Isso porque, com muita facilidade, os que lutam pelo desejo de liberdade em relação à tirania, quando alcançam o poder, assumem, de igual modo, o posto dos ditadores, tornando-se até piores do que seus predecessores. Um dia eu ouvi num filme: “Se não expulsarmos as formigas, elas nos expulsarão”. Então, trava-se a guerra ou a batalha pela sobrevivência individual, de modo que, mesmo assim, almejando liberdade e igualdade, alguns subjugam os demais, usufruindo dos mesmos privilégios que antes condenavam. Soa-se, assim, como corolário da astúcia dos tiranos, o rifão que diz que o mundo é dos mais espertos. E há rivalidades entre os próprios bichos. “A lealdade e a obediência são mais importantes!”, afirma Napoleão, que faz de tudo para ludibriar, de modo intencionalmente pernicioso, a capacidade de pensamento dos bichos! Cada um assume o seu papel na construção da sociedade, com canseira, fadiga e até fome, mas sem fugir das responsabilidades que lhe cabem.
Depois que os animais se instalam na Fazenda dos homens, é preciso tomar o caminho do diálogo, da negociação, mesmo reconhecendo que com animais não se negocia. Todavia, enquanto isso não acontece, vale a vigilância atenta, conscienciosa dos bichos mais reflexivos, a fim de se livrarem das ciladas argumentativos e fáticas diante das circunstâncias da convivência na suposta “Fazenda animal”, que se augura “vida longa”! Os homens tentam fazer os animais provarem de suas experiências, enquanto eles mesmos, racionais e pensantes, dominam a inteligência do animal dito “racional”. Certamente uma preposteração de valores, de sentimentos e ideais de vida, que colocam os animais no lugar dos humanos. Também no meio deles não há espaço para os traidores e enganadores de seus iguais. Isso para efetivar o anseio de uma sociedade melhor, mais justa e equânime na prática de seus direitos, embora isso também contrarie o princípio da igualdade, pois, entre os bichos, também há categorias classistas. Os de segunda classe não poderiam usufruir dos mesmos direitos que os da primeira. Com a instauração do tribunal de julgamento, animal que infringiu o mandamento do “não matarás”, será condenado e punido de morte. Mas a liderança impoluta do “reino dos animais”, que favorece as condições de sobrevivência dos bichos deve receber o mérito da “honra do animalismo”. Uma ironia hipócrita do reino animal! Falácias de bichos que não são capazes de reconhecer suas próprias desgraças e desigualdades. A força bruta da tirania é o princípio que rege os sonhos de liberdade dos oprimidos. Porém, a solidariedade entre os bichos também reforça os laços da filadelfia, da irmandade, de modo que uns podem ajudar aos outros. Vida longa; Fazenda animal; Viva Napoleão!
De um momento para outro, o homem instiga o porco a reconhecer que todos os animais são iguais, mas “alguns são mais iguais que outros”! Outra falácia para enganar os animais quanto à semelhança com os humanos. Por conseguinte, eles também precisam de muralhas que possam protegê-los dos inimigos. Mas a ganância e a crueldade dos poderosos também se reproduzem nos animais, vítimas de sua própria loucura, mesmo “esperando contra toda esperança”. No final, com a expectação frustrada pela nostalgia de algum tempo distante, tudo parece recomeçar do zero, de onde a esperança e a vontade de gozar da liberdade sonhada brilham no horizonte de novas perspectivas de conquistas, de vitórias. Ou seja, percebendo a impostação do conjunto da obra, a inspiração da racionalidade humana respinga no mundo dos animais, com desejos de superação de si mesma na contraluz da irracionalidade dos bichos em revolução. Mas é como diria La Fontaine: “Sirvo-me dos animais para instruir os homens”. Com efeito, essa parece ser a legenda mais eficaz e producente quando imaginamos que, pelo andar da carruagem, nós, os humanos, por vontade própria de humanização dos bichos, escorregamos, pressurosamente, para a animalização dos humanos.
Por fim, ousaria até dizer que estamos transitando da era dos humanos para a era dos bichos, como já aconteceu em algum tempo e em lugares, bem distantes, perdidos nas sombras inimagináveis da história. Pena que, quando desaparecermos, por mais brilhantes e racionais que sejam os bichos – como desejam algumas fantasiosas intuições acadêmicas, inclusive na área do Direito em universidades modernas, do Brasil e do mundo – eles nada poderão dizer ou contar da era dos humanos. Com efeito, quando estivermos esparsos e diluídos no espaço sideral do esquecimento, nada mais seremos além de uma massa informe nas lentes controversas dos próprios bichos. Quem viver verá quão irracionais teremos sido nós, que teremos perdido para os irracionais, que nunca se levantarão de suas patas nem conseguirão ser inteligentes como os humanos. Sinceramente, na real, considero um grande risco o fato de os humanos tentarem humanizar os animis, enquanto, ele mesmo, também parece [eu escrevi “parece”, o que supõe incerteza e dúvida] se bestificar, animalizando-se. (PGRS)


sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

2019 E as despedidas da vida




2011,2012... 2017... 2019 E as despedidas da vida


Todas as despedidas são pequenas expressões da morte, ou seja, daquilo que passa por nós e deixa de existir no plano material do passadouro do tempo. Sim, a morte nos acompanha desde quando fomos gerados, minusculamente, no ventre materno, na inconsciência primeira do nosso próprio ser. Foi, então, lá, o primeiro ninho a nos albergar nos instantes iniciais da existência, até quando tivemos de nos despedir do invólucro da nossa manifestação no mundo extrauterino. Aquele foi o primeiro ensaio de uma espécie de despedida, e, ao longo da vida, de tantas outras despedidas e partidas.
Assim, da escuridão da vida intrauterina, fomos lançados no cosmos, e a luz do universo nos acolheu no abraço de uma jornada surpreendente, desafiadora, cheia de encantos e mistérios, que nos preparavam para novas despedidas. Nos primeiros passos, ainda éramos prisioneiros do carinho e do colo da mãe, da preocupação dos pais, que juntos, nos ensinaram a nos soltar das amarras da dependência para a liberdade pessoal. Foi quando, depois de alguns meses, também nos levantamos do chão, iniciamos a firmar os passos na direção de outras despedidas, porque o tempo, por si mesmo, sempre nos empurra para a frente, deixando para trás os rastros das partidas. Desse modo, a existência ganha rumos inesperados na formação da personalidade e do caráter, das peculiaridades inerentes a cada ser humano. Então, ganha espaço no bojo da inteligência a racionalidade que se despede da fantasia pueril das crianças para entrar na realização concreta das responsabilidades dos juízos e dos discernimentos mais comprometidos consigo mesmo. E novas separações acontecem como expressões do adeus ao tempo que ficou lá atrás, nos porões da autofagia dos eventos dentro do circuito cronológico.
Depois, entramos na escola, fazemos amigos, acumulamos conhecimento e trazemos para dentro de nós a exterioridade do universo, apreendido pelo espírito no movimento da intelecção que abrange as conquistas do saber. E mais despedidas acontecem: mudamo-nos de cidade, trocamos de vizinhos, descobrimos novas amizades e, mais tarde, conforme sopram os ventos do destino, dizemos outros adeuses, e buscamos em plagas mais distantes o aprimoramento da epistemologia das façanhas do intelecto. E o tempo patrocina outras despedidas no que fica para trás. De repente, a cronologia se estica ainda mais no rastro das despedidas, e começamos a perder os parentes mais próximos, como avós, tios, país, irmãos, amigos, enfim, pessoas das quais tentamos conservar o carinho das boas lembranças e as marcas da saudade, plantadas no fundo da alma, e arraigadas em reminiscências tiradas da convivência. Tudo corre para o esconderijo do esquecimento onde as lembranças vão se apagando na bruma inevitável da distância temporal das sombras existenciais. E as despedidas se intensificam ainda mais no pôr do sol da memória humana.
Mesmo assim, a gente só se despede do que passou, porque o tempo não volta mais. Todavia, é bom que o tempo passe, como diria Santo Agostinho: “Mas é bom que esse tempo passe, pois, se ele não passar, não teremos outro tempo”. Sim, “outro tempo” é a garantia que temos – enquanto vivemos – de que podemos conquistar mais do que aquilo que ficou para trás. E isso acontece porque a gaiola do tempo sempre está aberta na direção do porvir, do futuro que nos espera em algum lugar das novas possibilidades da realização da existência. Talvez, lá, nas curvas inconscientes do tempo, nas dobras da alma partida pelos arcos quebrados das frustrações, mas desejosa de que o vislumbre do horizonte porte novo sol sobre as asas da magia e do encanto da esperança, iluminada pelo fascínio dos sonhos que se acordam, teimosos, sempre de novo, nos lençóis do espírito. Na verdade, são despedidas que dão boas-vindas ao novo que chega, mesmo quando ele surge dos pontos escuros da existência, sem a claridade devida à obscuridade dos desafios que despontam na esteira dos propósitos do existir.
Às vezes, me ponho pensando: “Quem nasceu para morrer hoje, não pode esperar pelo amanhã!”. Mas a vida segue para os que ainda estaremos aqui, curtindo o chão batido da saudade dos que se nos anteciparam à corrida do além. Essa é a martelada fatídica do tempo, da cronologia que nos abraça na duração da vida, do pinga-gota temporal que, um dia, chegará ao fim para todos, pobres mortais, adormecidos na fantasia dos espectros da realidade fugidia, corriqueira, efêmera, quando, por exemplo, podemos contar os anos: 1900... 2011, 2012... 2017... 2019. Por certo, são eles que agasalham as despedidas enquanto ainda conseguimos contar o ritmo cronológico de suas batidas. E assim, cheios de alegria, paz e esperança – sobretudo para a nação brasileira, que ganha novo presidente – anelamos e queremos que o ano de 2019 se abra com as bênçãos de Deus para todos nós, coletiva e individualmente, pois, embora não possamos deter as despedidas, ele seguirá controlando tudo e todos, mesmo sem o aval de nossa vontade. E, desse modo, veremos outras despedidas, algumas, inclusive sem tempo para a despedida. (PGRS).