quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

 

Dom Luciano Duarte e a ousadia dos gênios

 


(1925-2018)

Se vivo fosse, nesse dia 18 de janeiro de 2023, Dom Luciano Duarte estaria comemorando 77 anos de consagração sacerdotal. A admiração que sempre nutri por Dom Luciano Duarte (1925-2018) nasceu quanto eu ainda era jovem vocacionado, e, depois, seminarista, no final da década dos anos oitenta, participando dos encontros vocacionais no Seminário Menor de Aracaju. Como esquecer aquele tempo e suas visitas frequentes aos seminaristas? Pelo menos, para mim, foi um tempo de desejo ardente de florescimento multicultural, ouvindo e aclamando, com tantos encômios dignos de sua autoridade pessoal e eclesiástica, o então Arcebispo Metropolitano da Arquidiocese de Aracaju. O fulgor de sua inteligência era, realmente, contagiante. Portanto, o que trago aqui outra coisa não é, senão, um breve memorandum sobre o mítico de multifacetada personalidade que ficou conhecido no meio intelectual de Sergipe e na própria Igreja católica simplesmente como Dom Luciano Duarte.

Grande visionário, intelectual de profundo e rico veio oratório e dialético, versátil na exposição vocabular de seu conhecimento linguístico. O homem da palavra ligeira e cortante, da réplica espontânea, no belo estilo polido da finesse dos grandes espíritos argutos, sábios, mas também capaz de ajudar os menos afeitos ao rico patrimônio do saber, da “sabedoria acumulada” de que fora dotado pela própria natureza de sua insistência na formação do caráter e da individualidade. Mas nada aconteceu por acaso, no sentido de que ele não tenha se esforçado para atingir os páramos mais elevados da grandeza que a envergadura de sua genialidade poderia lhe favorecer. Com efeito, a intensidade da educação que recebemos pode tornar-se uma referência que determina, negativa ou positivamente, a vida de quem se abre ou se fecha aos dotes cognoscitivos dos próprios recursos que brotam dentro da claridade dos pensadores.

Grande estudioso, insaciável na ânsia pelo saber, de raciocínio investigador, extremamente inquieto e saliente nos limites das aquisições já adquiridas, Dom Luciano era um espírito sempre desejoso de ir mais além, alfinetado pelas respostas prontas que trazia sob os riscos ou traços da pena literária, lúcido até onde lhe permitiram os rasgos do brilhantismo intelectual. Dom Luciano Duarte sabia se posicionar, de modo categórico e certeiro dentro dos vários ambientes em que se encontrava, sob qualquer tema ou assunto, mesmo não agradando nem convencendo. No entanto, estava convencido de suas certezas, de suas convicções pessoais, fundamentadas no fértil solo do conhecimento erudito de que se servia para expor seus argumentos.

Embora o caráter e a personalidade de uma pessoa possam crescer e amadurecer no tempo cronológico de sua formação educacional ou acadêmica, levando em consideração outros efeitos da conceituação antropológica do indivíduo – sua infância e adolescência, o meio onde foi criado e educado, o acesso que pôde ter às letras e aos livros, a oportunidade de leituras e elaboração do pensamento etc. – o fato é que algumas mentes privilegiadas podem se destacar, desde cedo, mediante o mistério inebriante da acuidade espiritual e intelectiva de suas percepções mais tenras. Penso que isso tenha acontecido com o homenageado, Dom Luciano Duarte. Gênios brincam como gênios, mesmo que o alcance de sua criatividade seja traído pela não concretude de seus anseios na vida futura. Aliás, quem pode garantir a vida futura? Ouvi um dia, numa pregação da quinta-feira santa, na missa do lava-pés, Dom Luciano dizer que quase morreu quando criança, muito doente. Mas conseguiu se tratar e sobreviver, e não apenas não se tornou mais um número nas estatísticas do governo federal, aumentando o índice da mortalidade infantil no país, mas, sobretudo – dizia ele – havia se tornado alguém importante e influente no seio da sociedade sergipana e alhures. Na verdade, ele se referia, no contexto da celebração, ao modo como, muitas vezes, o Senhor Jesus poderia nos lavar os pés, servindo-se daquela maneira.

Nos vários “recreios culturais”, que tive e tenho com a amiga Ana Maria Medina, da Academia Sergipana de Leras, ela me contou que, num episódio narrado em seu diário seminarístico, consta que, numa brincadeira de menino, ele dizia que queria ser “gente grande”, no sentido da importância de uma personalidade que se destacasse pelos seus talentos, numa espécie de peça de teatro, o que ele escreveu aos onze anos. Desse modo, ele já se colocava como aquele a quem todos deveriam obedecer, isto é, a “Dom Luciano Duarte”. Certamente, adormecida nas dobras da alma pueril do menino levado, inteligente, jazia o tom brincalhão de quem, futuramente, se tornaria, de verdade, importante e influente. Esse fato, narrado por ele mesmo, fez-me acordar dentro das lembranças da fantasia da alma, algo que li, por sua influência, sobre Geovanni Papini, um dos tantos convertidos do século XX, entre os quais podemos destacar também o filósofo Maurice Blondel (1861-1949) e escritor Léon Bloy (1846-1917), sobre os quais ele falava com largueza de conhecimento e riqueza de detalhes da vida dos dois.

Geovanni Papini, que dizia nunca ter sido criança, sisudo na fisionomia do rosto, já era tratado e apelidado como “velho”, aos sete anos de idade. Não brincava como as outras crianças de sua contemporaneidade, mas, penetrado por uma inteligência brilhante e astuciosa, rivalizava com o próprio Deus em peças de teatro que imaginava, querendo concretizar o acontecimento bíblico de quando a serpente disse a Adão e Eva que eles seriam como o próprio Deus.

Assim sãos os gênios e sua ousadia intelectual, tempestivamente provocados por suas intuições mais profundas. Às vezes, tento fantasiar em minhas especulações a ousadia da genialidade de meninos assim, abertos aos ventos do espírito, com as asas da inteligência volitando sobre os encantos de suas criações inocentes. Devaneios ou sede de autoafirmação mesmo? Consciência plena dos caminhos de suas buscas ou enlevos francos de sua esperteza em arrebatamentos idealistas? Não sei! Mas tenho certeza de que as sementes dos grandes sonhos plantados na alma dos pequenos gênios podem ser sinais de virtude, de coragem ou de desejo de realizações oportunas. Contudo, a vida é o caminho dessas vitórias e conquistas, mas os limites são os desafios impostos pela superação dos grandes ideais e aspirações do espírito humano. Aquele menino virou padre e, depois, também Arcebispo da Arquidiocese de Aracaju.

O tempo é o senhor de todos os sonhos! Para os ideais daquele menino também. Levantando-se do chão pelo crescimento da força física, mas também intelectual, seu caminho estaria marcado pela lucidez com que, sempre, se embrenhou pelas florestas altas do saber e do conhecimento, percorrendo o mundo pela construção acadêmica que a Igreja lhe abriu durante a formação, porém ampliando, cada vez mais, o horizonte das inquietações que lhe perturbavam o espírito. Não se deteve no conhecimento das coisas da Igreja, apenas, mas igualmente se deixou desassossegar pela conjuntura mundial das ideologias que, de um modo ou de outro, espezinhou e vilipendiou a dignidade humana em conflitos revolucionários de governos caudilhistas e déspotas. Ele, que costumava citar o pensamento de um pastor inglês, metodista, John Wesley (1703-1791) – que dizia que, ao abrir a janela de sua casa pela manhã, contemplava o mundo inteiro como se fosse sua paróquia – também saiu das sacristias e elevou seu pensamento e suas preocupações sobre os telhados do mundo em decomposição moral, espiritual, ética, deteriorando-se nos seus valores mais prementes.

Outrossim, a alma dos gigantes não se contenta com o mundo pequeno de suas percepções, mas com a grandeza e a elasticidade de suas inquietações mais profundas. Não quis somente ser o padre ou pastor, especializado nas coisas da Teologia e da Igreja, mas também se abriu para o mundo, fazendo seu doutorado na Sorbonne de Paris, aos pés de grandes filósofos e amigos como Jean Guitton e Paul Ricoeur, também egrégios inspiradores de grandes ideais pela elevação espiritual da humanidade. (Dr. PGRS). 

 

 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

 

Signore, Ti amo 


 
Joseph Aloisius Ratzinger (1927-2022) - Bento XVI 

Jesus, eu Te amo! Dizem que essas foram as últimas palavras do Papa Emérito, Bento XVI, ao morrer no dia 31 de dezembro de 2022, derradeiro dia do ano. Certamente, uma palavra síntese do que foi a sua vida inteira, porque a ousadia dos santos passa pela brevidade de um discurso, que resgata, solenemente, na introspecção da alma, a coerência da fé e da vida dos amigos de Cristo. Jesus eu Te amo! Quantas vezes nós tivemos a coragem de dizer isso? Mas não, levianamente, da boca para fora, como manifestação do que, na verdade, não corresponde aos nossos atos ou às nossas atitudes cotidianas diante d’Aquele a quem dizemos amar! Eu não ousaria responder! Infelizmente, na maioria das vezes, nosso comportamento contradiz a essência do que falamos ao sabor das incoerências mais devastadoras do nosso agir. Mas Bento XVI sabia o que estava dizendo!

Percorrendo o histórico de sua vida pessoal, do seu amor a Cristo e da sua fidelidade incondicional à Igreja do Senhor, a lucidez de sua consciência é comovente. Com efeito, tudo o que fez e viveu – inclusive enfrentando os inimigos internos e externos da Igreja, a fim de não negociar com o mundo moderno os valores da pregação do Evangelho – foi para fazer valer o depositum fidei – o depósito da fé – em detrimento das falsas doutrinas ventiladas por supostos teólogos e liturgistas, entre outros “pensadores” convertidos às ideologias mais diversas dos dias que correm. Dentro desse contexto, “como seu posto na Cúria o obrigara a defender a ortodoxia católica contra a heresia e a inovação, os sentimentos por ele antes da eleição iam da idolatria ao puro ódio”. (Coulombe, 2022, p. 502). E, assim, a sua vida se derramou, do início ao fim, custodiando o patrimônio multissecular da Igreja contra os lobos ferozes, que tentam enganar o rebanho para satisfazer o modismo de egoísmos penetrados de autodeterminação e vontades mundanas. Ele não era um homem de visão míope e limitada pela cegueira dos que imaginam os valores da fé e da doutrina da Igreja como acidentais e passíveis de mudança ao sabor das modas contemporâneas. Por isso, ele condenou a “ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades”.

No evangelho que ouvimos (Jo 1,35-42), a expressão do Apóstolo André dirigida ao irmão Simão Pedro é bastante significativa: “Encontramos o Messias, que quer dizer Cristo”. Joao Batista estava com dois de seus discípulos que o ouviram dizer: “Eis o cordeiro de Deus”’, indicando Jesus. Depois, eles seguiram a Jesus que lhes perguntou: “O que estais procurando?”. E, então, eles quiseram saber: “Rabi, onde moras?”. Em seguida, vem o suave convite de Cristo: “Vinde e vereis!”, e foram ver onde ele morava, de modo que permaneceram com ele naquele dia. Certamente, foi um dia muito agradável e de muitos ensinamentos. Foi, pois, naquela ocasião que André fez o anúncio a Pedro, conduzindo-o até Jesus que lhe disse, fitando-lhe os olhos: “Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado ‘Cefas’ (que quer dizer pedra)”. Para compreender bem essa passagem do Evangelho, não é suficiente recorrermos apenas às ideias pessoais que tentam elaborar a dimensão mais profunda de seu conhecimento. Trata-se, pois, de um acontecimento cristocêntrico, que traz à vida dos Apóstolos a amizade fiel, até a morte, ao seu Senhor e Mestre. Assim, o pano de fundo exegético indica-nos melhor o alcance de sua abordagem. Pensemos com os estudiosos!

Na visão de Poppi (2006, p. 568), o chamado não é uma escolha humana, mas nos evangelhos sempre aparece como consequência da iniciativa de Cristo. “O que estais procurando?”. Na Bíblia, com frequência se fala da procura pela sabedoria personificada, que convida os homens a acolher suas instruções, a seguir as suas vias e a participar do seu banquete (Pr 8-9); e ela, por sua vez, vai a procura daqueles que são dignos do seu seguimento. (Sir 6,18ss: Sb 6,12-16). Portanto, parece eu seja necessário reconhecer uma aproximação intencional entre Jesus e a sabedoria divina, que o homem deve procurar (zēteîn) para conhecer a verdade e encontrar e encontrar a salvação. Com certeza, iluminado pelas moções do Espírito Santo, Bento XVI percebeu essa realidade de busca ou de esforço de reposta ao chamado de Cristo durante a sua existência. Não por acaso, ele se colocou como um entre tantos outros “Cooperadores da Verdade”! Mas que verdade? A única revelada por Deus ao homem, à criatura humana, fazendo descer dos céus o Seu Filho eterno para ser o nosso Salvador. Foi ele mesmo, o Filho, quem assim se nos manifestou: “Eu sou o Caminho, e a Verdade, e a Vida!” (Jo 14,6).

Bento XVI foi um papa de muitas surpresas, inclusive com o ineditismo de sua renúncia! Renunciou por amor à Igreja, que sempre a reconheceu como não sendo sua nem nossa. A Igreja é de Cristo! A Igreja é de Deus! E ele o sabia! Mas renunciou também por fidelidade ao Fundador, que, um dia, disse a Pedro: Tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo ecclesiam meam, et portae inferi non prevalaebunt adversus eam (Mt 16,19).

Bento XVI foi um gigante na pregação e defesa da fé católica, pela qual consumiu todas as suas forças, do início ao fim da vida, para que grandes e pequenos pudessem saborear a alegria da experiência do encontro com Cristo. Diante de um mundo raivoso e apóstata, longe das sublimes exigências da dimensão da fé concreta, ele foi o último bastião de uma era. Portanto, rezemos pelo Papa Defunto, Bento XVI!

Que o Senhor da messe, a quem ele amou incondicionalmente, conceda-lhe contemplar nos céus a luz de sua face, dizendo-lhe: “Servo bom e fiel, entra na alegria do teu Senhor!” (Mt 25,23). Amém! (Dr. PGRS).

 


terça-feira, 3 de janeiro de 2023

 

Um padre na vitrine da Arquidiocese

 

 

Um dia, há muito anos, eu fui visitar o Pe. Raul com outro sacerdote que não o conhecia ainda, e ele ficou bastante entusiasmado com o reverendo. Depois, voltando para casa, ele me disse: “Rapaz, o Pe. Raul deveria ser colocado numa vitrine da Arquidiocese para admiração e inspiração do clero mais jovem e, sobretudo, dos seminaristas”. Contudo, infelizmente não é assim que, às vezes, a Instituição ver os padres mais avançados nos anos.

Eu tive o privilégio de ser coroinha do Pe. Raul, lá atrás, nos idos da década de setenta e oitenta, em Carira, e fui testemunha do seu zelo pastoral, ao dedicar-se incansavelmente ao pastoreio do rebanho que lhe fora confiado. Tanto que sou fruto de seu ministério sacerdotal naquelas terras tórridas e inclementes em tempos de seca prolongada, onde o duro chão nada fazia florescer, castigando, então, o sertanejo que até passava fome e tinha dificuldades para alimentar os filhos. Foram tempos sofridos no meio daquela gente, mas o Pe. Raul, no frescor da juventude sacerdotal, era uma motivação para a fé simples do povo. Carismático no sentido prático do evangelho, dedicado à cura das ovelhas, assistia espiritualmente, não apenas a sede paroquial, no caso, a matriz, mas se desdobrava para ir aos povoados, construindo capelas, pedido ajuda à própria comunidade, não deixando faltar-lhes oportunamente a missa nas localidades. Com ele, fiz a Primeira Comunhão! Também o acompanhei pelas redondezas, no verão, no inverno, nas estações de chuva, em meio aos riscos das estradas inundadas, etc. Ou seja, vi de perto seu desgaste pelo bem da comunidade.

Mais tarde, fui para o seminário menor de Aracaju, e, lá, fui seu aluno de latim, em 1987, quando ele se mudara para o Grageru, na capital. Na nova comunidade, assumindo a missão do pastoreio, igualmente revelou seus dotes como escritor e poeta, publicando livro de poemas. Homem da palavra fácil, ainda teve tempo de desenvolver a inteligência engenhosa para a pintura, uma obra de arte que exige criatividade e vislumbres pontuais da mente do artista. Pinturas em tela, com tinta; gravuras rabiscadas a lápis de cor ou apenas de grafite; tudo isso mostrava o gosto pela cultura polivalente que lhe rebentava na alma. Mais tarde, em 1996, voltou a Carira para preparar as minhas ordenações diaconal e sacerdotal. Fez tudo com muito carinho e generosidade, junto à comunidade. Seu “primogênito” tornava-se padre no dia 21 de janeiro de 1998. Há 25 anos!

Ao celebrar o Jubileu de Ouro Sacerdotal nos brindou com o livro “Cartas para Francisco”, em 2013, retratando, através de missivas endereçadas ao pobrezinho de Assis, suas preocupações pastorais no vicariato de Carira. Na verdade, um belo resgate de boas lições vividas como sacerdote. No final dessa obra, há uma coleção iconográfica de sua autoria que resume a história de São Francisco. Feita a lápis de cor, parecem figuras tridimensionadas pela percepção da acuidade do criador. Ainda há outras obras suas que não foram publicadas por falta de recursos pecuniários, inclusive uma que auxiliou muito a Ir. Morais na sua obra “Província Eclesiástica de Aracaju: Evangelizando para a vida” (2014). Sua colaboração foi muito valiosa, e a autora lhe agradeceu condignamente a generosidade da pesquisa.

Agora já octogenário, no dia 3 de janeiro de 2023, comemorou mais uma primavera, no alto de seus 86 anos de vida, e caminha para o sexagenário aniversário de ordenação sacerdotal, no dia 7 de julho do ano em curso. Vive numa casinha em Itabaiana, na solidão de seu peregrinar, ajudando no que pode às religiosas de um hospital, desgastando seus dias com alegria testemunhal e espírito de bom humor. Sim, sua pessoa deveria ser colocada na vitrine da arquidiocese de Aracaju, não somente para ser reconhecido como consagrado do Senhor, mas, também, elevado ao pedestal da dignidade do que foi sua vida derramada pela Igreja e pelos cristãos por onde passou. Enfim, um testemunho vivo, fiel e alegre do serviço ao Senhor. (Dr. Pe. Gilvan Rodrigues dos Santos).

sábado, 24 de dezembro de 2022

 

Uma manjedoura cheia de graça



 

Uma manjedoura cheia de graça! Também não poderia ser diferente. O cocho no qual é colocado o feno e o capim para alimentar os animais, tornou-se o lugar do pequeno menino nascido em Belém – em hebraico “Betlehem” que significa “casa do pão” – não para ser capim, mas alimento vivo que sacia a fome de eternidade que o homem carrega dentro de si pela vida afora. A saudade de Deus é preenchida somente por Deus.

Daí a expressão de Santo Agostinho, logo no início, na primeira página de suas “Confissões”: “Fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti”. É por isso que ele veio ao nosso encontro, buscando-nos onde quer que nos encontremos perdidos no espaço físico, espiritual ou interior de nós mesmos. O sonho de Deus chega carregado de Si próprio na manifestação plena de sua extraordinária e frágil pequenez. Nasce como criança, vinda do seio de uma mulher, arrebentando os portões do mundo, com a grandeza de sua presença inaudita.

Na manjedoura de Belém está a paz que o homem procura para as guerras; a harmonia para o caos cósmico e universal; a felicidade plena para os infelizes; o calor humano para os frios e indiferentes; a esperança viva para os desesperados; a serenidade para os inquietos e agitados; a salvação para os perdidos; a consolação para os sofredores; a calmaria interior para os injustiçados; a fortaleza para os fracos; a graça redentora para os pecadores; a cura definitiva para as feridas da alma; a vitória para o fracasso; a verdadeira vida para a morte; a coragem do amor sem limites para os indecisos. Na manjedoura repousa a esperança do mundo adormecido em sua insensibilidade doentia. Nela está a libertação de todos os opróbrios.

Eis, pois, a grandeza de Cristo, o menino de Belém, luz que ilumina as trevas de todos os povos, acobertando os séculos com sua luminosidade infinita: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, uma luz raiou para os que habitavam uma terra sombria. Multiplicaste o povo, deste-lhe grande alegria; eles alegram-se na tua presença como se alegram os ceifadores na ceifa, como regozijam os que repartem os despojos. Porque o jugo que pesava sobre eles, o bastão posto sobre os seus ombros, a vara do opressor, tu os despedaçaste como no dia de Madiã. Com efeito, todo calçado que pisa ruidosamente no chão, toda a veste que se revolve no sangue serão queimadas, serão devoradas pelo fogo. Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, ele recebeu o poder sobre os seus ombros, e lhe foi dado este nome: Conselheiro-maravilhoso, Deus-forte, Pai-eterno, Príncipe da paz, para que se multiplique o poder, assegurando o estabelecimento de uma paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, firmando-o, consolidando-o sobre o direito e sobre a justiça. Desde agora e para sempre, o amor ciumento do Senhor dos Exércitos fará isso”. (Is 9,1-6).

Contemplando a manjedoura do menino-Deus, nascido em Belém, devemos recordar a bondade misericordiosa do Senhor que, do alto de sua Transcendência e inacessibilidade, chega ao nosso meio e se permite ser tocado pelas nossas feridas mais profundas. Mais do que isso: “Aquele que não conhecera o pecado, Deus o fez pecado por causa de nós, a fim de que, por ele, nos tornemos justiça de Deus”. (2Cor 5,21). A estrela de Natal que brilha no horizonte de nossa existência não tem nada a ver conosco e, no entanto, veio na intenção de que sejamos restaurados nele. Ou seja: Cristo nasce para o mundo, a fim de que nós possamos nascer para os céus.

Ó pobre criança de Belém, teu nascimento enche de luz todos os caminhos dos homens e do mundo inteiro. Assumindo a nossa humanidade, tu nos revestes com a glória de tua divindade. Carregando em Ti todas as mazelas de nossos pecados, tu nos devolves a graça perdida no Paraíso. Espoliado de tudo, até de tuas vestes, totalmente despido das riquezas humanas, que a ferrugem pode corroer, tu nos ensinas onde podemos encontrar a verdadeira dignidade, depois de todos os ultrajes sofridos pela injustiça dos homens. Tocando com tua humanidade todas as angústias do tempo e dos séculos, tu nos educas para a serenidade perene das consolações eternas. Enfim, chorando como todos os homens, tu nos mostras a compaixão divina por nossas fragilidades.

Muito obrigado, Jesus, porque no teu Natal tu continuas “nascendo no coração das pessoas de boa vontade, nos gestos de amor e partilha, nos povos que buscam a fraternidade e a paz”. Amém!

 

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

 

Paróquia Nossa Senhora Rainha do Mundo 

Aracaju, 8 de agosto de 2022

Prezadas Crianças e Catequistas,

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Com muita alegria, recebi os bilhetinhos que cada um escreveu-me por ocasião do Dia do Padre. Então, diante do gesto simples, mas gratificante, e da criatividade das mensagens e de alguns desenhos – lindos, por sinal – eu não poderia deixar de responder-lhes, o que o faço oportunamente.

Li com a atenção devida cada recado que me foi apresentado, alguns, inclusive com pedidos de oração por vocês, suas famílias e suas necessidades momentâneas. Saibam que os levei em consideração e estou rezando por todos. E tenho certeza de que Cristo escuta os pedidos das crianças. Por isso, a amizade com ele deve ser cultivada sempre, especialmente, nesse estágio de preparação para a Primeira Comunhão. De fato, Cristo é amigo das crianças, porque foi ele quem disse: “Deixai as crianças e não as impeçais de virem a mim, pois delas é o Reino dos céus!” (Mt 19,14). Que belo imperativo de Cristo! Portanto, lembrem-se de que o carinho de Deus por nós passa pela amizade do Filho, Jesus de Nazaré, que morreu na cruz para nos salvar. Ele é o nosso Senhor e Salvador! Ele é o Bom Pastore e nos carrega nos ombros em direção ao céu.

Deus abençoes vocês, os catequistas e suas famílias. Contem com nossa amizade e nossas orações. Deus os abençoes!

Em Cristo,

 

Pe. Gilvan Rodrigues

PÁROCO & PASTOR

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

 

São João Maria Vianney



São João Maria Vianney (1786-1859) foi canonizado pelo Papa Pio XI, em 1925, quando também foi declarado o padroeiro de todos os párocos. Sua memória é celebrada no dia de sua morte, 4 de agosto, mês considerado vocacional pela Igreja, que se serve desse dia para comemorar o Dia do Padre. Por ironia de seu destino de santidade, quase impedido de ser ordenado sacerdote pelas limitações intelectuais, tornou-se um dos maiores luminares da França na primeira metade do século XIX. Ainda bem que a santidade não está diretamente relacionada aos dotes privilegiados da inteligência humana! Ninguém precisa ser muito inteligente para ser santo e aproximar-se de Deus pela amizade espiritual. De fato, a vida de santidade começa a estabelecer-se dentro do espírito do homem quando ele, ciente da graça já recebida pelo santo batismo, abre-se, progressivamente, cada vez mais, às inspirações divinas. Sua semente foi semeada em nós pelo germe do projeto do Criador quando nos quis “à sua imagem e semelhança” (Gn 1,26).

O Cura d’Ars-en-Dombes encontrou muitas dificuldades no trilho do anelo dos sonhos vocacionais. Dardilly, sua terra natal, viveu momentos obscuros, envolvida na cerração temporal da política, de modo que até a sua paróquia fora fechada, interrompendo, assim, os serviços litúrgicos e a catequese. Segundo Enrico Peppe, “o futuro cura d’Ars recebeu a primeira comunhão escondido em uma casa de campo durante a missa clandestina, e o contato com aquele padre lhe fez nascer no coração o primeiro desejo de se tornar sacerdote. Uma ideia que parecia utópica para a situação política do país pela impossibilidade de frequentar escola”. Talvez possamos encontrar, aí, um obstáculo futuro quanto ao desempenho de sua escolaridade. Conheci um sacerdote, que, morando no interior do Ceará, somente pôde ter acesso aos estudos depois dos dezessete anos de idade, com todos os vícios linguísticos e “culturais” da educação que não recebeu. Ainda hoje, ele possui alguns “obstáculos musculares”, sei lá (?), que repercutem na sua tatibitate. Todos nós sabemos, e isso está provado cientificamente, que delongando certo tempo na aprendizagem dos esforços guturais, determinados sons da língua não são mais possíveis de serem pronunciados. Quem já tiver ultrapassado os vinte anos, tente, por exemplo, pronunciar alguns vocábulos em língua árabe ou até mesmo em hebraico ou de qualquer outra língua maluca do antigo Oriente Médio. Eles podem ser aproximados, mas, nunca, igualados ao som de quem nasceu, viveu, foi educado e cresceu lá. Por certo, as ranhuras da música linguística do indivíduo serão notadas no sotaque indiscreto da fala, quando não pronunciar um vocábulo diferente.

Na Itália, tive a oportunidade de conviver com um jovem sacerdote libanês, ao qual pedi que me dissesse uma palavra em árabe, e assim que eu a repeti, ele ficou visivelmente ruborizado. Quis saber a razão, e ele me respondeu: “O que você disse é um palavrão na minha língua, e eu não falei isso!” Nem o significado ele quis dizer-me. Imaginem o constrangimento! Todavia, o Cura d’Ars teve outros problemas de compreensão, sobretudo, da língua latina, mediante a qual eram feitos os estudos e os exames para a superação dos estágios acadêmicos. Dizem que ele não entendia nem sequer o conteúdo das perguntas que lhe eram feitas. Mas ninguém precisa de latim para ir para o céu. Os espanhóis dizem que os anjos falam a sua língua, na ferrenha disputa para depreciar a “última flor do Lácio” (Olavo Bilac), o português. E nós, em contrapartida, afirmamos que Deus fala português. Pilhérias, à parte, falaremos diretamente com Deus, sem necessidade da tradução dos anjos.

Graças à criativa generosidade do Pe. Charles Balley, que, em Écully, não muito longe de Dardilly, abriu uma escola para orientar os candidatos ao sacerdócio, no caso, antes de ingressarem no seminário, João Maria Vianney “também se apresentou: um caso humanamente quase desesperador, porque tinha 20 anos e conhecia mal e mal os primeiros rudimentos da leitura e da escrita. O padre Balley ouviu-o, apreciou-lhe o candor da alma e a persistência de camponês e o admitiu em sua escola. Não foi fácil para o jovem acompanhar as lições do mestre, sobretudo em se tratando da língua latina, que não entrava na cabeça, enquanto se saía muito bem na aprendizagem das verdades da fé e na prática das virtudes cristãs”. (Enrico Peppe). Sua humildade e perseverança, mas também sua abertura às moções do Espírito divino, conduziram-no à “elevação espiritual” de que precisava para demonstrar-se capaz de, convertidamente, santo, orientar suas ovelhas. Durante três anos, foi designado para a cidadezinha de Ars, um lugarejo com 40 casas e pouco mais de 270 habitantes. Tendo sido colocado à prova pelo seu bispo, esperou três anos, a fim de que sua comunidade pudesse ser elevada à dignidade de paróquia. Seu zelo espiritual pela vila – antes interessada mais pelo trabalho do campo, de manhã, e à tarde, pela taverna atrás da igrejinha, inclusive, por conta do sistema da pobreza e da necessidade, do que pelo apostolado do jovem padre – despertou a fé escondida sob as cinzas do tempo, mudando, de modo radical, a vida religiosa de sua gente. Com efeito, o ambiente social da época estava tomado pelos lupanares espalhados por muitos lugares, e, também, em Ars. É por isso qu, “nos dias mais solenes, o ponto de encontro não era a celebração litúrgica, mas as festas e bailes, que se prolongavam até altas horas da noite, à luz de vela e – segundo o parecer do jovem padre – sempre terminavam em lugares onde não havia nem mesmo essa luz fraca, permitindo ao demônio a destruição da moral familiar, até mesmo levando à prostituição alguma pobre moça”. (Enrico Peppe). Atraídos pela vida simples e austera do Cura d’Ars, que fazia penitência, jejuns prolongados e orações pelos pecadores, homens notáveis, como o primoroso orador de Notre-Dame de Paris, igualmente, sacerdote, o Pe. Lacordaire, fizeram questão de conferir de perto a fama do pároco daquela minúscula aldeia. E quando alguém quis saber da apreciação de Lacordaire sobre a pregação do padre tido por ignorante, sua resposta não poderia ter sido mais ferina e contundente: “Seria bom desejar-se que todos os párocos dos campos [e, hoje, das cidades] pregassem tão bem como ele”. (Enrico Peppe). Por sua vez, depois de convidar o Pe. Lacordaire a pregar em sua igreja, o Cura d’Ars também desferiu seu comentário no dia seguinte: “Costuma-se dizer que às vezes os extremos se tocam. Isso, sem dúvida, verificou-se ontem no púlpito de Ars. Viu-se a extrema ciência e a elevada ignorância”. (Enrico Peppe).

O santo Cura d’Ars é um testemunho que, ainda hoje, serve de modelo e inspiração para a vida de todos os sacerdotes da Igreja de Cristo. Despretensioso, humilde, santo, ciente de seu papel de pastor e das responsabilidades graves do dever de seu apostolado. Na expressão de Dom Luciano Duarte (1925-2018), “no dia 9 de fevereiro de 1818, num fim de tarde de inverno, ele se aproximava, a pé, de sua paróquia, para tomar posse. Uma bruma friorenta escondia o povoado humilde dos olhos de seu novo pastor. Foi, ali, onde hoje se ergue o ‘Monument de la Rencontre’, que o Cura d’Ars encontrou o seu primeiro paroquiano: um menino, um pastorzinho de ovelhas, Antoine Givre. Ele indicou ao Pe. Vianney o caminho de sua paróquia, lá adiante, coberta de névoa. O Pe. Vianney o olhou longamente, com amor. Era o primeiro de seus filhos que ele encontrava: – ‘Tu me mostraste o caminho de Ars; eu te mostrarei o caminho do céu”. E o mesmo autor segue pelas linhas translúcidas de sua argumentação: “Foi nesta igreja que o Cura d’Ars trabalhou quarenta anos. Ele a encontrou vazia. Despovoada de homens, embora cheia de Deus. Mas entre a presença divina e a ausência humana, um vazio. Um fosso. Uma rotura. O Cura d’Ars estendeu sobre as bordas seu corpo de Padre, sua vida de santo. E os homens de Ars passaram por cima da estranha ponte, ao encontro do Senhor”.

Foi, pois, indicando a direção do céu, que São João Maria Vianney converteu a muitos de seu tempo, especialmente, pela sua vida provada de todo tipo, com frequência, atormentado por uma presença diabólica, experimentando o próprio peso de sua cruz. Nesse sentido, sua “união com Deus e a caridade pastoral” fizeram dele um protótipo permanente da santidade que, por nossa vez, também devemos buscar. De fato, até mesmo em meio aos conturbados tempos pós-modernos, a santidade é uma provocação que Deus faz a cada um de nós todos os dias. Aquela santidade silenciosa, cultivada no coração, propícia às benevolências do céu. Trata-se de um esforço que exige empenho e mortificação pessoais. Com efeito, foi um santo quem disse que é melhor andar no caminho de Deus, claudicando, do que percorrer outras estradas longe dele. Ou como diria o salmista (Sl 84,11), um só dia em sua casa vale mais do que milhares fora dele, isto é, vivendo ao meu modo, à minha maneira, segundo os moldes viciados de minha pretensa liberdade.

Que São João Maria Vianney, Patrono dos Padres, ajude-nos a encontrar, no garimpo das coisas desta terra, o verdadeiro endereço do Céu!

 

 

terça-feira, 5 de julho de 2022

 

       Escritos outonais na pena de Ana Medina


 

Escritos outonais é mais uma pérola de literatura com que a Acadêmica Ana Medina brinda seus leitores. Trata-se, na verdade, de uma obra bifurcada em duas vertentes de páginas translúcidas de poesia e paisagens do espírito, emolduradas pela fina estampa da sensibilidade do brio intelectivo da autora. Portanto, assim segue a distribuição escorreita e cadenciada de sua exposição: Escritos sobre escritos e Escritos inventivos. De uma lauda à outra, é o fascínio das letras que sorvemos avidamente como de ânforas plenas do saber erudito que transborda e se derrama no chão estilístico da inspiração.

Escritos sobre escritos é um afresco de mosaicos imbricados, que mapeiam inúmeras obras prefaciadas ou apreciadas pela autora em múltiplas cosmovisões, à mercê do conteúdo e da abordagem da obra em si. São janelas da alma contemplativa que se abrem sobre os telhados poéticos da singularidade de muitos autores. Mas é o fio conducente de sua percepção que nos garante a riqueza das inflexões pessoais, que brotam cristalinas na “seara da cultura”, sobretudo, sergipana. A coletânea da primeira parte jaz jus ao talento literário e à competência apurada da bela arte das letras. A vivacidade dos textos é perene, atravessa décadas da produção grafológica e rebenta solene – com o mesmo frescor do orvalho matutino de sua aurora – nas ondas do espírito do leitor. Metáforas resplandecem no tecido dos vocábulos como em “véus diáfanos”, que enxergam “o belo através da dor humana”; a autora enfrenta, tranquila, “as armadilhas do português”, o desafio do conhecimento erudito dos autores que prefacia, e as disposições da cultura clássica, com a maestria da ponderação lógica e racional do que lhe é proposto fazer; elabora, com finesse et bon goût, a viagem emocional de seus textos, com leveza, sem o veio acrimonioso dos incautos; sua literatura é plástica, sonora, e acende no vislumbre da perlustração a sede do desejo de ir sempre mais adiante nas plagas da geografia do texto.

Cada panorama da obra exige o conhecimento de uma lexicografia diferenciada, o que dá à autora o privilégio da idiossincrasia epistemológica para atingir seu objetivo; ela pendula entre o erudito e prosaico, entre o burlesco e o cotidiano, entre o religioso e o profano, entre o lírico e o bucólico, entre a história e a geologia da alma, como em instantes áureos e tempos de decadência. Tudo isso sem cair na mesmice simplória do pensador, “afinal o que é literatura senão o fruto da imaginação ou a recriação da vida, sem veleidades de cientificismo?”, pergunta-se. De fato, a literatura tem a prerrogativa de depositar na intuição dos intelectuais um universo cosmológico tão amplo quanto as gavetas que se abrem aos ventos da imaginação, e isso se agiganta ainda mais quando pensamos que “cada cabeça é um mundo”. Na literatura, os personagens assomam no horizonte de seus escritos como figuras vivas de um passado recente, que cintilam em suas páginas como estrelas nostálgicas da verdade que os constituem. Dramas pessoais, experiências da longevidade, buscas interiores, sofrimentos da alma, fulgores da prosa, deleites sentimentais, etc. De tudo isso, a autora se reveste para descrever – “como sacerdotisa de tempos imemoriais” – as “oferendas” que lhe foram apresentadas para refeição e análise cognoscitiva, conforme a índole peculiar a cada geração de autores.

Cotejando a investigação dos autores com personagens clássicos das artes universais como a pintura, a música, a escritura, a gramática poética, a história dos mitos helênicos – num estilo que abraça tantas épocas – o pano de fundo revela a riqueza de seu ambiento cultural. Desse modo, ela nos faz imergir no tempo antes do tempo, na origem mesma da arte que atravessa os séculos, porque in principium erat verbum... (Jo, 1,1).

Quanto aos Escritos inventivos – segunda parte da obra – uma ligeira apreciação faz deter-nos no conjunto sincrônico da compilação argumentativa. Absorta na ciranda de outras especulações, as folhas outonais da palavra caem da pena de quem parece dialogar consigo mesma. Na verdade, sua prosa transborda em temas pertinentes à religiosidade popular, relembrando tradições culturais da fé do povo de Deus; evoca conjunturas políticas de sua amada Boquim, com as “futricas” próprias das efervescências eleitoreiras; seu interlóquio segue rememorando celebrações juninas, do mês de Santo Antônio, quando a cidade se acendia de luzes, cores e sons, rompendo o silêncio mudo da normalidade dos dias, ao sabor das comidas típicas dos alusivos festejos; sem cair no irrisório, conta “causos” hilariantes como das modas “bufantes”, etc.

Ainda: temas abordados na segunda parte avança fronteiras, vão a Portugal, “enquanto os sinos plangentes lembram uma fé perdida, as ruas de pedras polidas [que] vão apertando a nossa alma de um tristeza que não se sabe por que e nem de quem, elas falam de lutas, de amores escondidos, de sonhos abafados”. De modo especial, “a mala do prelado” leva consigo um mundo de inquietações da alma religiosa, que também repousa na buliçosa dimensão antropológica da visão cosmopolita dos contrastes humanos; talvez uma “maleta” mais do que, de maneira justa, comparada à “caixa de pandora”, que, depois de Lilith – da mitologia sumeriana, a Eva dos hebreus – tornou-se responsável palas desgraças do mundo. Na verdade, aqui, a metáfora revela apenas uma comparação que açambarca a fertilidade criativa do conhecimento cultural da autora.

E vamos mais adiante! De prosa em prosa, chegamos ao “réquiem para o presidente!” Suicidara-se o Presidente do Brasil Getúlio Dornelles Vargas (1882-1954). Não gosto desse verto pronominal! “Suicidar-se” parece querer dizer que a pessoa se matou duas vezes, no começo e no fim da frase, ou no início e no pôr do sol da vida! Porém, isso é impossível. Mas o presidente se matou, e a notícia caiu com o estrondo de um tropo, inicialmente, incompreensível: “[...] uma tragédia se abateu sobre a nossa Pátria amada, idolatrada. O luto veste o grande Gigante adormecido”. A narrativa segue, emocionante, não somente aos ouvidos da plateia de então, mas também à oitiva do leitor, que ainda se inquieta com o suspense: Praesidem siepsum occidit! Enquanto isso, os sentimentos se sobrepõem à curiosidade reinante. Nada mais coerente para a sequência lexicográfica do que um ensaio sobre “Ritos da morte”, cobrindo o “imaginário infantil” da autora com lembranças fúnebres de nostalgia e saudade de rostos que ainda vivem nos “álbuns visitados” de sua memória.

No mais, para concluir sobre os personagens de ontem e de hoje, do passado e do presente, a linda lembrança de “Uma catequista memorável” une-me temporalmente àquela que também esteve marcando o itinerário de meu histórico vocacional, ao lado de Dom Luciano Duarte (1925-2018). Seu nome: Conceição Luduvice! Encantada com os novos tempos na Aracaju, vista com os olhos de menina, recém chegada de Boquim, o conjunto arquitetônico de templos e igrejas, ponte e palácios, a beleza do Rio Sergipe, entre tantas outras novidades, enchem de brilho os neurônios inteligentes da autora. Todavia, no meio da “selva de pedra”, também havia espaço para a colheita de fruto espirituais oferecidos na catequese, nas missas, nas peças religiosas de teatro, tudo sob a magistral regência da evangelizadora Conceição Luduvice, ícone ainda vibrante da Igreja São Salvador. (Dr. PGRS).