Os Garis de
Aracaju e os caras de Porco
Li num Jornal de circulação diária na
capital sergipana: “Aracaju, a capital mais limpa do Brasil, ergue o primeiro
monumento em homenagem aos trabalhadores da limpeza urbana”. Seriam os garis? A
homenagem é devida ao fato de que a cidade tem sido considerada, além da cidade
da “qualidade de vida”, uma das mais limpas do Brasil. Considero justa a homenagem
realizada com um monumento situado no Bairro Orlando Dantas. Pena que os garis
não ficaram sabendo. Fui às ruas perguntando, e nenhum deles tinha, sequer,
ouvido falar no assunto. Se o trabalho deles é importante, e o é de fato, penso
que eles deveriam ter sido os primeiros a serem notificados. Ou seria somente
coisa “para inglês ver”?
Sei que a homenagem aos ilustres
desconhecidos que varrem o lixo de nossos caminhos é digna de apreciação, é
meritória. Dom Marco Barbosa, que participou da Academia Brasileira de Letras, e
traduziu-nos uma preciosa obra de Maurice Druon, Tistou les pouces verts – O
Menino do Dedo Verde – afirmou, poeticamente: “Varredores que varreis as
ruas, vós varreis o Reino dos céus!”. A metáfora não deixa de demonstrar o
valor que devemos dar e o respeito que devemos ter pelas pessoas, entre homens,
mulheres e jovens, que, com tanta dignidade, prestam tão extraordinário serviço
à sociedade, limpando as ruas de nossas cidades. Mais do que isso, nós também
poderíamos colaborar com a limpeza de nossas ruas, evitando despejar lixo por
onde passamos. Eu fico indignado quando vejo pessoas mal educadas, atirando objetos
pela rua de dentro de seus automóveis ou de qualquer outro reservatório que
seja digno de seu próprio lixo. Dá-me vontade de recolher o entulho e devolver
ao proprietário da imundície. Isso me lembra de uma charge que eu vi sendo
distribuída em Paris, com a figura de um porco,
onde estava escrito: “olha como fica a
cara de quem joga lixo no chão!” A prefeitura de Paris, chamava a atenção,
sobretudo, dos turistas que, vindos de todas as partes do mundo, levam do
quintal de suas casas por aonde vão seu comportamento incivilizado e
desrespeitoso. A prefeitura de Aracaju poderia, muito bem, copiar a ideia da Cidade Luz, como ficou conhecida a
famosa capital francesa.
Um amigo estava na Suíça e jogou um
papel de bala no chão. Mais adiante, ele foi abordado pelo policial que lhe
pediu a gentileza de recolhê-lo. Ele simplesmente negou ter sido o autor da
única sujeira encontrada no local. Para sua vergonha – penso que o policial
ainda foi muito bem educado com ele – conduziram-no diante de uma câmara que
havia registrado o fato. E ele teve de recolher seu papelzinho de bala, sem
maiores cerimônias nem desculpas. Civilização também é assumir atitudes
comportamentais dignas de todos os ambientes por onde andamos e por onde
passamos, mesmo que seja turisticamente. E não custaria nada, no caso dos
motoristas, levar dentro do carro saquinhos de lixo, como, às vezes, são
distribuídos como brinde aos condutores. Quem não se lembra do tempo em que a
rede Globo de televisão apresentava o plim-plim
com animais instruindo pessoas, nada civilizadas, passeando na rua e permitindo
que seus bichinhos de estimação fizessem caca na via pública? Ou de outros
irracionais, tentando controlar a ira de condutores no trânsito, a fim de
evitar maiores desgraças comportamentais? O porquinho de Paris bem que poderia
ser a simbologia triste e constrangedora do que afirmou o fabulista francês,
Jean de la Fontaine: “Sirvo-me dos animais para instruir [educar] os homens!” Isso
revela o nível a que chegamos, mas não deixa de ser uma lição digna de
aprendizagem. Do contrário, oxalá que os detritos esparsos nas sendas humanas
corressem atrás de seus próprios donos até alcançá-los! A vingança não seria
“sanguinolenta”! Que coisca maravilhosa, a fantasia do “homo intellegens”! O sorriso não aplaca a ironia interior de sua
criatividade.
Qualquer lixo não jogado nas vias de
nossas cidades, que já possuem muito lixo transformando em corrupção de todo
tipo, poderá mostrar nosso Brasil mais limpo e perfumado pela educação de seus
filhos gentis. De fato, não é somente o entulho material que inunda nossas
comunidades da fetidez estúpida de nossa má educação. Infelizmente, a
humanidade inteira está infectada pela podridão do lixo moral, ético, físico,
ideológico, político, religioso, e eu ousaria dizer até de lixo espiritual,
condicionado pelas manhas e artimanhas das inclinações perversas de uma
religião “à la mode de chez nous”,
isto é, à maneira de nosso gosto caseiro e egoísta de querer dominar a
divindade.
Pense, reflita, mude de comportamento!
Não apenas demonstre ser civilizado, educado, mas o seja concretamente. Tenho
certeza de que os garis sentir-se-ão, não somente homenageados, mas também, verdadeira
e especialmente, agradecidos. Não jogar lixo na rua não é luxo, é
civilizatório.