sábado, 16 de setembro de 2017

Arcebispo de Aracaju recebe o Pálio...

Dom João José da Costa, Arcebispo Aracaju E a imposição do pálio


 No majestoso e memorável dia 15 de setembro ano da graça do Senhor de 2017, às dezenove horas e trinta minutos, aconteceu na Catedral metropolitana da Arquidiocese de Aracaju a solene liturgia de imposição do pálio ao Arcebispo Metropolitano da Arquidiocese de Aracaju, Dom José João da Costa. Em missa, inicialmente, presidia pelo senhor núncio apostólico no Brasil, Dom Giovanni D’Aniello, concelebrada pelo arcebispo emérito da mesma Arquidiocese, Dom José Palmeira Lessa, por bispos do Regional Nordeste III, de Sergipe e da Bahia, bispos de outros Regionais da CNBB, e sacerdotes da Arquidiocese e de tantas outras dioceses, entre as quais as dioceses de Propriá e Estância, numerosa foi a participação e a presença de diáconos, seminaristas, maiores e menores, religiosos, religiosas, leigos, e autoridades civis e políticas. E, sobretudo pela presença maciça do povo de Deus, razão de ser do sentido e da própria eficácia do pastoreio apostólico, foi um dia eclesialmente histórico e marcante para a Igreja particular de Aracaju e de toda a Província Eclesiástica.
Numa definição buscada nas malhas da internet, essa rede inextrincável de conhecimento e fonte de conteúdo em todos os ramos do saber, “o pálio é confeccionado com a lã de dois cordeiros brancos criados pelos monges trapistas. Possui uma volta no centro, a qual descansa nos ombros sobre a gola da casula, tendo duas pontas pendentes, uma anterior e outra posterior, com duas polegadas de largura, por doze de comprimento; de modo que, quando visto da parte dianteira ou traseira, ele se assemelha à letra Y. Para dar mais peso ao pálio, as extremidades das pontas são entrelaçadas com seda preta. É decorado com seis cruzes pretas, uma em cada ponta, uma em cada ombro e uma no peito e outra nas costas. O pálio é guarnecido por três alfinetes de ouro decorado com gemas, chamados espinelos (Spinelli), os quais são fixados em laços existentes nas cruzes do peito, das costas e do ombro esquerdo. Estas duas últimas características parecem ser remanescentes da época em que o pálio romano era um simples cachecol dobrado e fixado no ombro esquerdo”. Geralmente, o pálio é recebido em Roma das mãos do Santo Padre, o Papa, no Vaticano, e colocado por ele mesmo nos ombros do arcebispo durante a celebração eucarística da solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo. Assim, os arcebispos são chamados ali, ad limina Apostolorum Petri et Pauli, aos pés dos Apóstolos Pedro e de Paulo, voltando-se às origens da fonte da fé, em cujo fundamento Cristo edificou a sua Igreja. No entanto, agora, por disposição de sua Santidade, o Papa Francisco, a incumbência da imposição do pálio foi delegada aos núncios apostólicos, embaixadores da Santa Sé e representantes do papa nas várias nações que possuem relações diplomáticas com o Vaticano. Na verdade, a intenção do papa é a de favorecer às comunidades onde os arcebispos exercem o ministério apostólico a possibilidade de participarem, efetivamente, de tão solene e expressiva celebração, visto que pela imposição do e recebimento do pálio, o arcebispo expressa profunda unidade ao Sumo Pontífice Romano pelo cuidado pastoral em relação a todas as dioceses do mundo. Unidade feita de doação generosa, espírito de sacrifício e dedicação amorosa pelo rebanho que lhe fora confiado. Aliás, no pronunciamento do Senhor Núncio Apostólico, Dom Giovanni D’Aniello, durante a homilia, enfatizou-se o sentido pastoral profundo do múnus episcopal do arcebispo, pois, como afirmado acima, o pálio manifesta sua unidade ao Santo Padre na preocupação por todas as igrejas. Terminada a solenidade da missa festiva de Nossa Senhora das Dores, na Catedral Metropolitana, às vinte e uma horas e vinte minutos, foram apresentados vários discursos de boas vindas e acolhimento ao arcebispo pela oportunidade da imposição do pálio. Inicialmente, apresentou-se o governador do Estado de Sergipe, Jackson Barreto, com palavras e sentimentos efusivos de gratidão a Deus em nome do povo sergipano. Depois, tomou a palavra monsenhor Benjamin da Costa, representante do clero, ensejando ao arcebispo fecundidade no ministério episcopal. Entre outras frases, o monsenhor destacou que o acontecimento revela, de modo singular “ponto de comunhão não somente no território do Estado de Sergipe, mas, também no Brasil e no mundo”, ainda afirmando que “nós sacerdotes manifestamos o nosso apoio e colaboração nos serviços que o senhor desempenha à frente da Arquidiocese de Aracaju”. Em seguida, usaram a palavra outras pessoas, por exemplo, uma em nome dos leigos da Arquidiocese e, outra, em nome do povo da Diocese de Iguatu.
Por fim, tomado de ardor pastoral e profícua consciência apostólica e missionária, o Senhor Arcebispo Metropolitano da Arquidiocese de Aracaju, elevou a Deus pensamentos de louvor e gratidão pela empreitada pastoral no contexto do serviço ora confiado e renovado diante dos propósitos e desafios urgentes, mas, de igual modo, serenos da cotidianidade eclesial, mas também política, econômica, social e antropológica por que passa a nação brasileira. Um pastor no meio, “com cheiro de ovelhas”, segundo a expressão do Papa Francisco, destacou o arcebispo em sua preleção. Depois, agradeceu a Deus, ao Núncio Apostólico, proferiu a bênção final, e o diácono, revestido da função de serviço à mesa do altar e da palavra, despediu o povo com todos os presentes. Iniciava, pois, assim, a nova etapa continuada do então Arcebispo Metropolitano da Arquidiocese de Aracaju, Dom João José da Costa.




sexta-feira, 7 de abril de 2017

Bento XVI, 90 anos

Resistências do nonagenário Bento XVI
Papa Emérito



Quem possui, por princípios, a busca da verdade em todos os estágios da vida, não poderia, jamais, se dobrar aos caprichos do modernismo relativista e deletério dos valores primordiais da inteligência e da razão humana. Trocar o certo pelo duvidoso ou pela superficialidade das ideias rasas da opinião pública não é próprio dos espíritos altaneiros e perspicazes, que investigam com profundidade o motivo de suas próprias razões. Bento XVI, agora nonagenário, foi e é um homem assim, capaz de superar os limites da razoabilidade cognoscitiva para adentrar na essência mesma dos conhecimentos que investiga, não apenas como perito em teologia, mas também dentro do complexo universo das ciências humanas que absorvem as preocupações cotidianas de sua inteligência. Longe de se contentar com a possibilidade das concepções inatas do raciocínio interior que, por caminhos misteriosos, se jogam na rede das inspirações espontâneas do indivíduo, ele cresceu no espírito crítico quanto às ciências filosóficas, teológicas, literárias e antropológicas, entre tantas outras sobre as quais se debruçava com afinco e determinação.

Quem leu um pouco de suas obras e acompanhou, pelo menos discretamente ou sem muita proximidade, sua capacidade dialógica e argumentativa sobre tantos problemas que afligem a humanidade de hoje, dispersa e irrequieta diante da expressividade de suas conquistas científicas e tecnológicas, sabe melhor o que estou afirmando. Dentro desse contexto da vida social, uma de suas inquietações mais graves, no sentido da perturbação interior, talvez tenha sido a dimensão da obscuridade de Deus, do apagamento acentuado de sua imagem luminosa no seio da mesma sociedade contemporânea. Com efeito, uma sociedade que tenta se construir sem Deus perde todos os fundamentos de sua possibilidade de subsistência. Ela pode até perdurar no tempo, mas estará fadada à autodestruição. E, aqui, imaginamos o Deus Criador de tudo, que um dia desceu de sua inacessibilidade e se fez conhecer pelo mistério da Revelação. Aquele mesmo Deus que ainda hoje continua fascinando os homens pelas descobertas inimagináveis diante da imensidão do universo sempre em expansão. Recentemente, os cientistas descobriram sete novos planetas fora do nosso sistema solar. E, apesar da aparente incredulidade e ceticidade de alguns cientistas por profissão, foi Louis Pasteur, o pai da microbiologia, quem afirmou: “Enquanto mais eu estudo o infinitamente pequeno, mais admiro o infinitamente grande”. Na verdade (e felizmente), sua intuição se apresenta como uma luz que ainda se acende na convicção de muitas consciências. Deus permanece quem sempre foi, não obstante a obtusidade de muitas presunções e recusas humanas. Deus não é nosso rival ou adversário como quis insinuar a serpente do livro do Gênesis no início da história da salvação: “Deus sabe que sereis iguais a ele...” (cf. 3,5). Esse foi o maior engano que o tentador nos confidenciou, e nós acreditamos.

Desde então, o drama da humanidade se instaurou pelas insídias da mentira satânica. De lá para cá, todos sofremos as consequências daquele malogro. De fato, como escreveu um autor moderno, Esteve Jaulet, referindo-se a Ratzinger, ele “enfrentou com paciência e valentia todas as trapaças que a humanidade decaída deseja ocultar desde os tempos de Adão” (Apud Rowland, 2013, p. 8-9). Esse homem, odiado pela história contemporânea como se fosse inimigo da civilização e fechado aos avanços da ciência, ou como se fosse inimigo do progresso da humanidade e contrário ao bem-estar dos povos, sentiu soprar sobre si todos os ventos da maledicência e do deboche, por causa das convicções que sempre defendeu a ferro e a fogo na luminosidade de sua consciência. Enquanto perdia o vigor físico, alimentava o espírito pela lucidez da inteligência e, então, sempre resistia aos vendavais e às intempéries do tempo das provocações alheias à sua vontade. No risco da missão que lhe fora confiada, nunca quis atrair os holofotes para si mesmo nem tentou angariar aplausos merecidos pelas conveniências em querer ser agradável a quem quer que fosse. Muito pelo contrário, ciente das exigências inapeláveis da honestidade intelectual e espiritual de seu dever de pastor e soldado fiel de Cristo, pagou o preço do seguimento radical, mirando somente o seu Mestre e relativizando todo o resto que o distraía da intimidade com Ele. Na verdade, foram a força de seu pensamento e a intensa atividade intelectual de sua vida, realizada com rigor científico, ao lado do esforço cotidiano de amizade com Cristo, que o levaram a ser considerado, ainda vivo, místico e doutor da Igreja, embora não o seja reconhecido oficialmente.

Suas palavras incomodaram o mundo, sua firmeza intelectual desafiou as falácias argutas de raciocínios contraditórios, mas sua coragem e serenidade também surpreenderam o mundo do espetaculoso e do sensacionalismo barato de jornalistas ansiosos pelo flagrante das altercações dialéticas envolvendo, injustamente, a transparência de sua personalidade. Mas, segundo Esteve Jaulet, “não convinha a alguns que um homem tão lúcido fosse amado pela multidão. Quando o coração das ideias incomoda, é preciso derrubar quem as pensa e espalha. [...] Da mesma maneira como hoje em dia se estudam autores de séculos passados – Aristóteles, que viveu 2.500 anos atrás, é o filósofo mais estudado nestes tempos de hoje – Joseph Ratzinger será lido sempre. É normal que autores tão fecundos e lúcidos sejam mais estudados ao longo dos séculos. Joseph Ratzinger deixará um corpo de doutrina imenso” (Apud Rowland, 2013, p. 8). Infelizmente, parece que o desprezo do mundo não varola os grandes homens na medida do tempo de sua própria história existencial.

A humanidade padece por falta de grandes líderes em todos os campos da dimensão geopolítica da atualidade. Lideranças políticas e governamentais apodrecem o tecido social da administração dos bens públicos; a violência nossa de cada dia grassa incontrolavelmente sobre todos os ramos das relações humanas, minando a seiva vital de sua dignidade; a ganância de alguns poucos relega as privações primárias da maioria à insuficiência de recursos naturais a uma vida digna ou, no mínimo, menos penosa e precária. Basta olharmos de longe (nem de perto) a triste conjuntura social, política e econômica por que passa o Brasil. Um país tão rico como esse em recursos naturais, como pode albergar pessoas que morrem de fome? Que voz, hoje, no mundo, faz eco diante dos clamores de impaciência da humanidade? Uma impaciência silenciosa, mas gritante, que empurra milhões de refugiados para a incerteza e para a insegurança do futuro. Vivemos tempos de calamidades sociais que massacram a dignidade humana em muitas ditaduras disfarçadas de democracia, e o império da corrupção solapa patrimônios culturais universais pela onda do terrorismo tsunâmico e selvagem dos inimigos da civilização. Assistimos a tudo isso passivamente, enquanto vozes que se levantam contra tais horrores tentam ser silenciadas.

Dentro da própria Igreja Católica, quantos dissabores e desafetos intelectuais provocados por ideologias sem rumo certo também criticaram o papa visionário e profético desses tempos tão difíceis! E as vagas do relativismo transbordam sempre mais, avançando implacavelmente sobre o tecido de valores que se esgarçam sem consistência, inclusive, no mundo do pensamento contemporâneo. Desse modo, na direção da liquidez intelectual em que nos encontramos ‒ no ritmo da frouxidão de pensamentos confusos e das dialéticas do achismo ‒ a Igreja do Senhor deve permanecer firme em seus propósitos e valores, sem abrir concessões aos gostos do mundo. Um autor cristão, de cujo nome não me lembro agora, afirmou com propriedade: “A Igreja servia mais ao mundo quando era menos parecida com ele”. Penso que ele tinha razão! Às vezes, aplaudimos o papa, sua maneira pessoal de se colocar diante das pessoas, com palavras bonitas e gestos cativantes, mas não estamos dispostos a abraçar o evangelho de Cristo, abrindo-nos à verdadeira conversão à vontade do Senhor. Com efeito, quando buscamos aplausos, contrariando os princípios de uma doutrina que não é nossa, mas pertence à sublime perenidade dos ensinamentos de Cristo, que, por sua vez, os recebeu do Pai, nada mais fazemos além de falsear as verdades que brotam da pregação e da cruz do próprio Redentor. Portanto, como afirmou o próprio Ratzinger, “se a Igreja tivesse que se acomodar ao mundo de algum modo que levasse a um afastamento da cruz, isso não acarretaria uma renovação da Igreja, mas sim a sua morte” (Apud Rowland, 2013, p. 16).

Quanto penso em “resistências”, não estou abordando o lado negativo da personalidade de Bento XVI, no sentido de que se colocava contra a dura realidade das coisas ou das vicissitudes de seu tempo. Aludo, sobretudo, à dimensão sublime da sobrevivência misteriosa à caducidade da penumbra dos tempos em que viveu durante toda a sua vida. Segundo o Cardeal George Pell, ele “cresceu na tenacidade comunitária da católica Baviera, mas os católicos alemães não puderam impedir a ascensão de Hitler ao poder e compartilharam os desastres que ele trouxe ao país. Bento XVI é um homem de profunda espiritualidade, genuína virtude e grande erudição, desenvolvida ao longo de toda uma vida dedicada ao estudo e à pesquisa. Um teólogo dos teólogos, ele é um mestre espetacularmente bem sucedido em muitos níveis (como atestam as multidões nas suas audiências semanais), reservado em vez de gregário, habituado a gastar o tempo necessário para detalhar o seu programa” (Apud Rowland, 2013, p. 17-18). Ele também viveu as discussões do Concílio Vaticano II como perito em teologia; sentiu de perto a crise que se seguiu na vida de muitos sacerdotes que abandonaram o ministério; enfrentou debates em defesa da fé quando era o Prefeito da Congregação para Doutrina da Fé; foi eleito Papa no dia 19 de abril de 2005; desgastou-se com críticas inflexíveis de seus adversários; experimentou na pele como se a barca da Igreja de Cristo naufragasse; certamente sofreu e chorou as incompreensões de colaboradores que o atacavam de todos os lados, inclusive, com as polêmicas que algumas de suas afirmações mal interpretadas suscitaram e, no final, cansado pelo freio da inaptidão de suas forças físicas e intelectuais do cargo para o qual fora eleito como Papa, anunciou sua renúncia à função do ministério petrino no dia 11 de fevereiro de 2013, para espanto do mundo e tristeza de seus admiradores.
No dia 28 de fevereiro de 2013, ele se despediu do cargo diante dos olhos cibernéticos do mundo, em Castelgandolfo, dizendo, apenas:

“Obrigado! Obrigado de coração. Caros amigos, estou feliz por estar convosco, circundado pela beleza do criado e pela vossa simpatia que me faz muito bem, obrigado pela vossa amizade, pelo vosso afeto. Sabeis que este meu dia é diferente dos precedentes, já não sou Sumo Pontífice da Igreja Católica, até às 8 horas da noite sou ainda, depois não. Sou simplesmente um peregrino que inicia a última etapa da sua peregrinação nesta terra. Mas gostaria ainda, de trabalhar, com o meu coração, com o meu amor, com a minha oração, com a minha reflexão, com todas as minhas forças interiores, para o bem comum e o bem da Igreja, da humanidade. E sinto-me muito apoiado pela vossa simpatia. Vamos para a frente juntos com o Senhor para o bem da Igreja e do mundo. Obrigado. Abençoo-vos de todo o coração. Seja bendito Deus onipotente, Pai, Filho e Espírito Santo. Obrigado, boa noite. Obrigado a todos vós”.

Ao despedir-se de todos, parecia estar se fechando o tempo de uma era, a era ratzingueriana! Mas, aos 16 de abril de 2017, ele permanece aí, agora, nonagenário, testemunhando sua fé com lucidez e coragem, rezando pela Igreja do Senhor à qual tanto serviu, dedicando o melhor de suas forças, e energias. Curiosa e coincidentemente, ele nasceu no Sábado Santo, sendo batizado no mesmo dia, e o seu aniversário de noventa anos é marcado pelo mesmo mistério pascal de Cristo a quem ele consagrou toda a sua vida. Feliz coincidência! Parabéns, Bento XVI!


Gilvan Rodrigues, Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, e escritor. 

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O padre, o bêbado e o pé de galinha

O Padre, o Bêbado e o pé de galinha


Esta história foi um amigo sacerdote quem me contou. No contexto das celebrações natalinas, ele estava falando da fragilidade de uma criança, do modo surpreendente com que Deus, na sua baixeza, fizera-se igual a nós em tudo, exceto no pecado, e também assumira nossa humanidade com todas as consequências do pecado, como o sofrimento e a morte. De fato, de todos os animais que existem, o homem é um dos mais frágeis logo ao nascer, totalmente, dependente de seus pais para tudo: não sabe caminhar, não fala, não entende as coisas, se tem fome não sabe pedir comida, se sente uma dor não sabe dizer onde, enfim, derrama seus sentimentos na confiança de que os pais descubram os motivos de seu choro, de seu incômodo físico ou psicológico, de suas necessidades mais prementes e primárias. E isso acontece por muito tempo, diferentemente de outros animais que já caem em pé no solo fértil de sua sobrevivência.

Nas circunstâncias de seu discurso, realizado na homilia, expôs sobre as dificuldades que teria para conter um bebê nos braços, por conta de suas dobras frágeis, em processo de desenvolvimento e formação. Então, externou também a admiração que tinha pelas mães, cujas habilidades maternas sempre estão afeitas aos cuidados de todo tipo que devem ter com os filhos, sem machucá-los, ao dar banho, ao trocar as fraldas e em todos os outros trejeitos próprios de seus carinhos de mãe. Na consciência de não saber lidar com essa realidade dos recém-nascidos, poderia machucá-los, feri-los. Então, do meio da assembleia surgiu a voz de um bêbado que sempre frequentava as missas com seu pandeiro, às vezes, até ensaiando algum toque ao ritmo dos cânticos litúrgicos. E ele bradou: “Padre, minha mãe já dizia que pé de galinha não mata pinto!” Pronto! Se alguém pensa que os bêbados vão à missa distraídos está totalmente enganado. Nesse caso, ele não apenas estava atendo, mas veio em socorro do padre para elucidar melhor o ensinamento de sua pregação. E fê-lo com palavras certeiras. Mais tarde, na hora da comunhão, ele entrou na fila, o que causou perturbação ao padre: “Meu Deus, e agora, será que ele vem comungar?” Na verdade, uma situação constrangedora diante de todos da assembleia. Quando o sacerdote pensou que ele queria a hóstia, ele foi categórico: “Não, padre, eu quero que o senhor abençoe o meu pandeiro!”. Que bela lição de vida ele foi capaz de oferecer aos que sempre pensam mal dos que, aparentemente, são desprovidos de lucidez e coerência numa celebração litúrgica.

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Essa história fez-me lembrar de outro caso. Numa paróquia do interior do Estado, havia um cidadão que, segundo a opinião de todos, era um doido. Vivia indo e voltando, rua acima, rua abaixo, mesmo sem se importar com sol escaldante do meio dia, quando o sol se encontra em zênite, mais inclemente. Sempre ia à Igreja. Um dia, chamou o padre à parte e perguntou-lhe: “Seu vigário, sempre que eu ia à missa, eu recebia a hóstia. Mas, agora, aconteceu que eu estou morando com uma mulher sem ser casado. Eu posso continuar recebendo a hóstia?” Seria essa uma pergunta de quem é considerado fora de si, ruim das ideias, como todos pensavam? Aquele, de doido, não tinha nada! E o padre lhe advertiu: “Nesse caso, você vai ter de escolher entre a hóstia e sua mulher, embora você possa continuar indo à igreja, para a missa!”. E ele, sem delongas, elucidou a decisão: “Então, seu vigário, por enquanto, eu vou preferir ficar com a minha mulher!”. Mais outra lição de coerência e de fineza com as coisas sagradas da Igreja de Cristo. Uma lição para todos nós que, muitas vezes, imaginamos poder receber o Corpo de Cristo de qualquer jeito, sem nenhuma preparação, ou sem o verdadeiro exame de consciência diante da realidade do sagrado que desejamos “possuir”. Foi Cristo quem disse aos seus discípulos: “Não atirai vossas pérolas aos porcos!”.



A expressão parece forte, mas aparece no Novo Testamento num contexto em que Jesus critica, duramente, o comportamento de algumas pessoas que profanam as coisas santas: “Não deis aos cães o que é sagrado, nem atireis as vossas pérolas aos porcos, para que não as pisem e, voltando-se contra vós, vos estraçalhem” (Mt 7,6). Ao que nos interessa, o dito encerra um contraste profundamente nítido: “pérolas e porcos”. Conheço um sacerdote que dizia se sentir “uma verdadeira joia no focinho dos porcos”! O fato é que todo mundo sabe o valor que tem uma pérola, cuja preciosidade não se vende por qualquer tostão. Quantas vezes, o próprio Jesus comparou o Reino dos Céus a uma pérola preciosa escondida num campo? Quem o encontra, vai, vende tudo o que possui e compra aquele campo.





Manonas assassino


Mamōnas Assassino

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Inicialmente, para evitar conclusões precipitadas por parte do leitor, gostaria de, tanto quanto possível, familiarizá-lo com o provável significado da palavra grega “mamōnas”, que no contexto dos evangelhos de Mateus (6,24) e Lucas (16,9.11.13) vem traduzida por “dinheiro”. Ou seja, nada do que, talvez, de chofre, tenha sido excogitado pela inspiração associativa do incipiente ledor.
Na verdade, em todo o Novo Testamento, ela aparece com essa tradução grega apenas nessas citações. Segundo F. Hauck, o termo grego “mamōnas” reproduz o estado enfático “māmônâ” do substantivo aramaico de uso comum “māmôn”, embora seja um vocábulo de etimologia incerta. Pode parecer estranho, mas sua derivação mais verossímil tem a ver com ’mn, isto é, “aquilo em que se pode depositar a própria confiança”. Somente a título de curiosidade, esses três símbolos são a transliteração da palavra “amén” do hebraico, tão inconscientemente repetida em nossas orações, no sentido de confirmação, aceitação e verdade do conteúdo apresentado na alocução apenas referida. Com muita frequência, Jesus a utiliza para introduzir muito de seus discursos: “amēn!, amēn!”,– “Em verdade, em verdade, eu vos digo” (Mt 5,18.26; 6,2.5.16; 8,10; 10,15,23.42). Cito apenas alguns exemplos, pois ela é citada 128 vezes no NT. No contexto da citação do evangelista Lucas, referindo-se a um “administrador infiel” (16,1-13), Jesus fala do “dinheiro iníquo” ou “dinheiro da iniquidade”. Mas aludindo aos fariseus como “amigos do dinheiro”, o evangelista usa um termo diferente: “philargyros”, um adjetivo que significa “ávido por dinheiro” e, como diz o ditado, “avarus semper egit” – “o avarento sempre tem necessidade”. Desse modo, tal crítica é fundamental para que se possa compreender o verdadeiro alcance que motiva a reflexão sobre os caminhos desencontrados do exagerado apego ao dinheiro, porque, como diria São Paulo, “a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro [“philargyria” – avareza por dinheiro], por cujo desenfreado desejo alguns se afastaram da fé, e a si mesmos se afligem com múltiplos tormentos” (1Tm 6,10). Como poderia o “mamōnas” afastar alguém da fé? Não precisamos de muita intuição para descobrir o quanto o materialismo tem levado as pessoas ao afastamento de Deus.

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Comparando os continentes ricos e pobres, escrevi no livro “As Letras e as Palavras na Crônica dos Pensamentos” (p. 107) que “paulatinamente, o materialismo fechou o coração do homem para a realidade do transcendente, do divino, do eterno; obnubilou e escureceu a sua consciência para as verdades intrínsecas ao seu próprio destino. Ninguém mais se pergunta quem somos, de onde viemos e para onde vamos. O materialismo assumiu o lugar de Deus na roupagem provisória da autossuficiência. Como sentir falta de Deus quem não sente falta material de nada? Jesus tinha razão quando dizia: ‘Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino dos céus’. Somente quem se sente pobre pode estar aberto à grandeza da transcendência de Deus. Só em Deus, o homem encontra a satisfação plena de sua dignidade, pois, se nos deixarmos levar pela arrogância intelectual do nosso racionalismo, acabamos por perder a fé no Deus de Jesus Cristo, cuja revelação e ministério a nossa razão não consegue explicar suficientemente”. Morando na Europa ou na África, o nível de convivência e de manifestação de proximidade entre as pessoas é diferente. O mesmo, eu diria, vale para a experiência de se habitar em um bairro rico ou pobre. A felicidade espontânea dos menos afortunados salta aos olhos de qualquer pessoa, e o estresse cansativo do quotidiano afeta menos o bom humor hilariante da pobreza. Outra ponta aguda dessa “potência” em prover as próprias necessidades, pode ser vista pelo ângulo da nossa incapacidade de, repentinamente, perceber que temos muita dificuldade em aceitar que não nos bastamos a nós mesmos, ou em admitir que Deus é a fonte cristalina de nossa existência. O dinheiro, a opulência, a riqueza, nada disso garante a vida de um homem, pois, como diz Jesus, “mesmo na abundância, a vida do homem não é assegurada por seus bens” (Lc 12,15).

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No Antigo Testamento, talvez seja em Gn 42,25 que, pela primeira vez, aparece o termo “dinheiro”: “José deu ordem de encher de trigo suas sacas, de restituir o dinheiro [“argyrion”] de cada um em sua bolsa e lhe dar provisões para o caminho”. Todavia, perlustrando o texto sagrado, gostaria de trazer a lume alguns textos de conotação, fortemente, negativa, porquanto neles se revela o aspecto perverso e corruptor causado pelo apego desmedido ao dinheiro, ao “mamōnas”: “Quem ama o dinheiro, nunca está fardo de dinheiro, quem ama a abundância nunca tem vantagem” (Ecl 5,9). Em outras palavras, o dinheiro “não é garantia de vida nem fonte de felicidade” para ninguém. Daí que o ensinamento de Cristo se fundamenta no desapego, no desprendimento, como em Mt 6,19-21.24.25-34. Cristo incita seus discípulos ao abandono à Providencia divina que cuida, não somente dos pássaros do céu, mas, sobretudo, da obra-prima de suas criaturas, o homem. É, pois, nesse contexto de confiança e entrega que Jesus convida o jovem rico a vender os bens e dar aos pobres, reservando para si um tesouro nos céus. O moço, porém, “possuidor de muitos bens” (Mt 19,22) foi embora pesaroso e triste por não conseguir desapegar-se de suas aparentes garantias materiais.




sexta-feira, 3 de abril de 2015

O Homem das Dores espoliado de tudo!

O homem das Dores espoliado de tudo

 

Na sexta-feira Santa, não se reza missa em lugar nenhum do mundo, exceto por autorização do Santo Padre, O Papa, e numa circunstância bem particular, como aconteceu em Áquila, na Itália, em 2009, quando um terremoto vitimou muitas pessoas, e Bento XVI autorizou a missa de corpo presente pelas vítimas. Portanto, um caso muito excepcional. Mas, no geral, nunca se celebra missa nesse dia, porque o Filho de Deus Jesus, razão de ser da celebração eucarística, está morto. Tendo sido espoliado de tudo, até de sua própria vida, que ele a entrega livremente ao Pai, ele “desceu à mansão dos mortos”, segundo a expressão do Credo Católico. Na verdade, com a morte de Cristo no madeiro sanguinolento, a Igreja inteira permanece em estado de luto diante de seu Senhor e Salvador Jesus Cristo. 

Um Missal antigo afirma o seguinte: “Em sinal de luto e para realçar mais a morte de Nosso Senhor na Cruz, ela [a Igreja] congrega os fiéis em redor do Sumo Sacerdote que se oferece como Vítima pelos pecados do mundo. É dia de luto universal, em que os nossos corações compassivos se convertem ao seu Deus e Salvador, e deste modo com Ele se preparam para a Ressurreição”. A sexta-feira Santa é o dia da morte de Cristo, preanunciada pelos textos sagrados e evidente dentro da própria consciência de Cristo que sabe que veio ao mundo para a sua “hora”, o que se concretiza radicalmente no mistério de sua Cruz. Como indica a leitura do Salmo 21 na celebração do Domingos de Ramos, encontramo-nos diante do Homem das Dores, cujas vestes lhe são tomadas pelos inimigos que os cercam: “Cães numerosos me rodeiam furiosos, e por um bando de malvados fui cercado. [...] Eles repartem entre si as minhas vestes e sorteiam entre si a minha túnica” (Sl 21,17.19). Desse modo, a belíssima metáfora dos textos salmícos expressa muito bem a espoliação a que Cristo foi submetido de modo humano e espiritual por causa de nossos pecados. O amigo Samuel Albuquerque, professor e historiador, notou que no final da celebração da solenidade do Senhor dos Passos os fiéis se despediam “das túnicas roxas, atirando-as sobre a cultuada imagem do Senhor dos Passos”. E ele mesmo concluiu: “Na contramão das ações narradas na Bíblia, os nossos romeiros oferecem suas vestes e demonstram seu reconhecimento diante do sacrifício do Senhor”. 

Segundo a narrativa bíblica, no jardim do Éden, Adão e Eva estavam “nus” e não se envergonhavam (Gn 2,25). Mais tarde, depois do ato de desobediência em relação ao imperativo divino de não comerem do fruto da árvore que estava no meio do jardim, sob “pena de morte” (Gn 3,3), “perceberam que estavam nus; entrelaçaram folhas de figueiras e se cingiram” (Gn 3,7). Com a consciência do pecado, o que causou profunda desordem na harmonia da criação divina, a necessidade de uma veste indica também a inconveniência, a situação desconfortável do afastamento de Deus, o Criador. São os estudiosos que afirmam: “Que o homem e a mulher estão nus, sem sentir vergonha, é mais do que a mera observação de que não estão vestidos. Como ficará óbvio mais tarde, a nudez simboliza seu relacionamento com Deus. A essa altura da narrativa, esse relacionamento com Deus ainda está intacto; assim, a nudez não provoca vergonha. Somente com a ruptura desse relacionamento sua nudez se torna motivo de constrangimento” (Comentário Bíblico). Em outras palavras, eles estavam “conscientes de sua culpa e da impossibilidade de escondê-la de Deus” (DITAT=Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento). Na concepção dos estudiosos, a vergonha é um fruto natural do pecado, de modo que a nudez, enquanto exposição da vergonha, “é uma característica distintiva do juízo sobre os malfeitores” (DITAT). 

No contexto cultural bíblico, sobretudo em tempos de guerra, mantos e vestes faziam parte do butim de que se apoderavam os vencedores diante dos adversários. Assim, o triunfo sobre os inimigos é selado também com a posse de suas vestes. Tomar as vestes é apoderar-se da vida das pessoas, tornando-as escravas, servas. De fato, Cristo é apresentado como o “Servo Sofredor!”. Espoliar alguém de suas vestes também é sinal de invasão de privacidade. Do ponto de vista da espiritualidade, sabemos que Cristo carregou sobre si as nossas dores, os nossos pecados, a nossa própria nudez por causa do afastamento de Deus. Ele foi espoliado de todo jeito: física, moral, material e espiritualmente. Teve o seu corpo todo chagado, porque “aquele que não conhecera pecado, Deus o fez pecado por causa de nós” (2Cor 5,21). Não por acaso, diante do tribunal humano e das reações mais mesquinhas das pessoas que se aproximavam dele com muitas zombarias, cusparadas, vergastas, enfim, provocações irônicas diante do Inocente. Tudo aceito com resignação e silêncio, profundo sofrimento e divina paciência. Ele que não possuía nada em si que lhe merecesse a morte. Todavia, o amor verdadeiro “não para no meio do caminho, mais aceita continuar e levar até o fim o sacrifício extremo da generosidade que culmina na completa imolação (PGRS). Olhando para Cristo todo chagado, é com se contemplássemos a nós mesmos, com tantas feridas abertas na nudez de nossa carne por causa do pecado. Com efeito, “eram as nossas enfermidades que ele levava sobre si, as nos dores que ele carregava” (Is 53,4). Portanto, devolver as vestes é realmente um gesto de reconhecimento do Senhorio de Jesus, despido de tudo. É, pois, o contrário da zombaria que os incrédulos desferem diante do Homem das Dores. 

Talvez, esse intercâmbio queira expressar justamente o desejo que o homem tem de revestir-se da santidade de Cristo, ao reconhecer seu Senhorio absoluto, devolvendo-lhe, simbolicamente, a dignidade de vestir-se daquilo que nós mesmos lhe tiramos por conta de nossos pecados todos.


segunda-feira, 30 de março de 2015

O Pedro que existe em nós!


O Pedro que  existe em nós! 

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“Senhor Jesus, quantas vezes, também nós, por causa do medo e do sofrimento, somos alheios à verdade e coniventes com as injustiças desferidas contra os inocentes!!! Ajuda-nos a reconhecer em Pedro não apenas a fragilidade momentânea de nosso ideal frustrado e vencido pelo medo, mas, de igual maneira, ajuda-nos a encontrar na possibilidade da reconciliação, encorajada pelo arrependimento, o lugar da resposta amorosa de Deus, que insiste, traição após traição, queda após queda, no incondicional resgate dos que se reconhecem incapazes de corresponder ao escândalo da Cruz, mas, aceitam a aparente contradição de um Deus, misericordioso e bondoso, em seu mistério de Redenção, a tal ponto que manda o Seu Único Filho para ‘cobrir com o manto de sua misericórdia todos os nossos pecados...’ Amém!”