segunda-feira, 19 de julho de 2021

 Ela tinha o rosto simples da caridade...

 



 

Hoje, nossa celebração é para lembrar a vida e a memória da senhora Josefa Elvira de Jesus – carinhosamente conhecida como Dona Zelita (1931-2021) – com sentimento de louvor e gratidão a Deus pelo dom da sua existência. E nada mais significativo e grandioso do que estarmos aqui, na Igreja Jesus Ressuscitado, que ela ajudou a construir, com a sua família, e à qual ela também serviu como Ministra Extraordinária da Eucaristia, tocando o corpo do Senhor, sobretudo quando para entregá-Lo aos irmãos da comunidade paroquial. Enquanto pôde, sempre esteve presente nas atividades eclesiais e além fronteiras, em grupos de oração, na edificação espiritual e material de espaços para a evangelização, no serviço aos pobres e na transmissão da fé pelo testemunho de sua presença fiel e discreta por onde se encontrava.

O tempo e a idade são desgastes naturais por que todos devemos passar, alguns com mais vigor físico e espiritual, outros com a carência própria das forças vitais que ainda albergam o seu corpo. Mas os sinais do espírito e a sensibilidade da alma, especialmente nos meandros da psicologia humana, são fortalezas que carregamos conosco até o fim dos dias. Tal clarividência ou constatação seguiu nossa amiga até seus últimos dias. Pela longevidade dos dias, dos meses e dos anos, trata-se de uma graça especial de que poucos são dotados pela benemerência sobrenatural, divina. O esvair-se da condição corpórea da humanidade é uma questão que sempre nos faz pensar e refletir sobre a brevidade da existência, por mais duradoura que seja a chama bruxuleante da sua vulnerabilidade.

É o salmista quem nos ensina, com lucidez e convicção profundas:

O homem! ... seus dias são como a erva: ele floresce como a flor do campo; roça-lhe um vento e desaparece; e ninguém mais reconhece o seu lugar. (Sl 103,15-16).

A bondade é uma virtude dos corações generosos, abnegados e desprendidos diante das necessidades do próximo. Se o resumo de uma vida se fecha no horizonte da morte, igualmente faz resplandecer nas entranhas do mundo o altruísmo e a brandura de suas ações entre os vivos. Assim foi a passagem de Dona Zelita no meio de nós, cujo testemunho de amor e de fé, sombreado pela caridade fraterna, se derrama sobejamente no canteiro florido de seus gestos, deixando um bonito legado para muitas gerações. Aparentemente pequena na estrutura física, discreta, demonstrava-se gigante na compreensão dos valores cristãos e evangélicos quanto ao serviço dos irmãos. Baluarte da firmeza matriarcal, mãe da comunidade, sensível às carências materiais de muitos, alimentou a muitos colaborando com o Pe. Ednaldo no "banquete dos pobres". Ajudou a construir a Igreja de seu bairro, Jesus Ressuscitado, patrocinou eventos alhures e cultivou um carinho especial pelos padres que conheceu. De fato, ele teve um irmão padre, o Mons. Juarez, de quem se recordava com distinção e apreço. Aliás, ela sempre demonstrou um carinho, qual dom de gratuidade, por todos os padres que conheceu durante sua história eclesial.

Ouvi uma frase num filme que dizia, mais ou menos, assim: "entre o começo e o fim da existência, entre a data do nascimento e da morte, existe um traço e é justamente esse traço o que faz a vida valer a pena". E poderíamos dizer que, filosoficamente, ele comporta todo o conteúdo da essência de quem fomos e de quem seremos na memória dos vivos. Assim também foi com Dona Zelita! Sua vida foi vivida como uma vida que valeu a pena ser vivida! Não obstante a redundância ou o pleonasmo vocabular, a frase expressa outra dimensão do significado da vida e da morte de um ser humano, segundo a sabedoria bíblica que afirma: “Mais vale a fama do que o óleo fino; o dia da morte [mais] do que o dia do nascimento”. (Eclo 7,1).

Na compreensão de Wiersbe, um estudioso da Sagrada Escritura, “A ideia de Salomão era que o nome que você recebe quando nasce é como um unguento perfumado, e você deve mantê-lo assim até o dia de sua morte. Quando você nasceu e recebeu um nome, ninguém sabia o que você faria com ele; porém, ao chegar o momento da morte, esse nome é repleto de perfume ou de mau cheiro. Se é repleto de perfume, as pessoas têm motivo para se alegrar, pois, após a morte, não há nada que mude essa boa fama. Assim, para uma pessoa de boa fama, o dia da morte é melhor do que o dia do nascimento”.

Diante das tempestades da vida, como das perdas que se abateram sobre a sua família, às vezes, de maneira precoce e inesperada, ela sempre se segurou firme na fé para superar os embates próprios da existência e permanecer firme na trajetória de sua missão matriarcal. Dores, sofrimentos e lágrimas, certamente fizeram parte da pluralidade de seus dias. Mas a esperança não cansa o que têm os olhos fixos em Deus. Porque ele é a fonte inexaurível das consolações perenes para o “vale de lágrimas” que atravessamos no deserto existencial. Todavia, como diria Epicuro de Samos (341-270 a.C.), filosofo da literatura clássica grega, “Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e às tempestades”.

Hoje, nossa oração e o nosso louvor são gratidão a Deus, por nos fazer participantes do mistério da vida em plenitude, que Ele reserva para os justos no céu, e cujo mérito se desprende do Altar da Cruz, de sua Paixão, Morte e Ressurreição: únicas garantias da nossa futura ressurreição e participação plena na vida do Reino. Com efeito, “Se temos esperança em Cristo somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens. Mas não! Cristo Ressuscitou dos mortos primícias dos que adormeceram [n’Ele]”. (1Cor 15,19-20).

Se o manto da morte nos cobre de tristeza, de silêncio e de saudade, também nos permite viver a esperança de uma vida feliz na presença eterna do Criador, onde o sol não se põe, a festa não se acaba e a alegria do divino Esposo supera todas as carências da alma. Por isso, “A morte do cristão não é um momento no fim do seu caminho terreno, um ponto isolado do resto da vida. A vida terrena é preparação para a do céu, nela estamos como criancinhas no seio materno: nossa vida na terra é um período de formação, de luta, de primeiras opções. Ao morrer, o homem se encontrará diante de tudo o que constituiu o objeto das suas aspirações mais profundas: encontrar-se-á diante de Cristo e será a opção definitiva, construída por todas as opções parciais desta terra. (Missal Cotidiano).

Deus conceda a Dona Zelita a graça da beatificação, usufruindo da presença de Deus no céu e, a todos nós, familiares e amigos, a consolação de nos reencontrarmos um dia diante d’Ele no tempo sem tempo da eternidade.

Enfim, reconhecendo que ela possuía o rosto simples da caridade e as mãos generosas da partilha, para todos nós, o tempo de agora é somente de saudade e boas recordações por tudo o que pudemos experienciar juntos. Louvado Seja Deus! (PGRS).