sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

2019 E as despedidas da vida




2011,2012... 2017... 2019 E as despedidas da vida


Todas as despedidas são pequenas expressões da morte, ou seja, daquilo que passa por nós e deixa de existir no plano material do passadouro do tempo. Sim, a morte nos acompanha desde quando fomos gerados, minusculamente, no ventre materno, na inconsciência primeira do nosso próprio ser. Foi, então, lá, o primeiro ninho a nos albergar nos instantes iniciais da existência, até quando tivemos de nos despedir do invólucro da nossa manifestação no mundo extrauterino. Aquele foi o primeiro ensaio de uma espécie de despedida, e, ao longo da vida, de tantas outras despedidas e partidas.
Assim, da escuridão da vida intrauterina, fomos lançados no cosmos, e a luz do universo nos acolheu no abraço de uma jornada surpreendente, desafiadora, cheia de encantos e mistérios, que nos preparavam para novas despedidas. Nos primeiros passos, ainda éramos prisioneiros do carinho e do colo da mãe, da preocupação dos pais, que juntos, nos ensinaram a nos soltar das amarras da dependência para a liberdade pessoal. Foi quando, depois de alguns meses, também nos levantamos do chão, iniciamos a firmar os passos na direção de outras despedidas, porque o tempo, por si mesmo, sempre nos empurra para a frente, deixando para trás os rastros das partidas. Desse modo, a existência ganha rumos inesperados na formação da personalidade e do caráter, das peculiaridades inerentes a cada ser humano. Então, ganha espaço no bojo da inteligência a racionalidade que se despede da fantasia pueril das crianças para entrar na realização concreta das responsabilidades dos juízos e dos discernimentos mais comprometidos consigo mesmo. E novas separações acontecem como expressões do adeus ao tempo que ficou lá atrás, nos porões da autofagia dos eventos dentro do circuito cronológico.
Depois, entramos na escola, fazemos amigos, acumulamos conhecimento e trazemos para dentro de nós a exterioridade do universo, apreendido pelo espírito no movimento da intelecção que abrange as conquistas do saber. E mais despedidas acontecem: mudamo-nos de cidade, trocamos de vizinhos, descobrimos novas amizades e, mais tarde, conforme sopram os ventos do destino, dizemos outros adeuses, e buscamos em plagas mais distantes o aprimoramento da epistemologia das façanhas do intelecto. E o tempo patrocina outras despedidas no que fica para trás. De repente, a cronologia se estica ainda mais no rastro das despedidas, e começamos a perder os parentes mais próximos, como avós, tios, país, irmãos, amigos, enfim, pessoas das quais tentamos conservar o carinho das boas lembranças e as marcas da saudade, plantadas no fundo da alma, e arraigadas em reminiscências tiradas da convivência. Tudo corre para o esconderijo do esquecimento onde as lembranças vão se apagando na bruma inevitável da distância temporal das sombras existenciais. E as despedidas se intensificam ainda mais no pôr do sol da memória humana.
Mesmo assim, a gente só se despede do que passou, porque o tempo não volta mais. Todavia, é bom que o tempo passe, como diria Santo Agostinho: “Mas é bom que esse tempo passe, pois, se ele não passar, não teremos outro tempo”. Sim, “outro tempo” é a garantia que temos – enquanto vivemos – de que podemos conquistar mais do que aquilo que ficou para trás. E isso acontece porque a gaiola do tempo sempre está aberta na direção do porvir, do futuro que nos espera em algum lugar das novas possibilidades da realização da existência. Talvez, lá, nas curvas inconscientes do tempo, nas dobras da alma partida pelos arcos quebrados das frustrações, mas desejosa de que o vislumbre do horizonte porte novo sol sobre as asas da magia e do encanto da esperança, iluminada pelo fascínio dos sonhos que se acordam, teimosos, sempre de novo, nos lençóis do espírito. Na verdade, são despedidas que dão boas-vindas ao novo que chega, mesmo quando ele surge dos pontos escuros da existência, sem a claridade devida à obscuridade dos desafios que despontam na esteira dos propósitos do existir.
Às vezes, me ponho pensando: “Quem nasceu para morrer hoje, não pode esperar pelo amanhã!”. Mas a vida segue para os que ainda estaremos aqui, curtindo o chão batido da saudade dos que se nos anteciparam à corrida do além. Essa é a martelada fatídica do tempo, da cronologia que nos abraça na duração da vida, do pinga-gota temporal que, um dia, chegará ao fim para todos, pobres mortais, adormecidos na fantasia dos espectros da realidade fugidia, corriqueira, efêmera, quando, por exemplo, podemos contar os anos: 1900... 2011, 2012... 2017... 2019. Por certo, são eles que agasalham as despedidas enquanto ainda conseguimos contar o ritmo cronológico de suas batidas. E assim, cheios de alegria, paz e esperança – sobretudo para a nação brasileira, que ganha novo presidente – anelamos e queremos que o ano de 2019 se abra com as bênçãos de Deus para todos nós, coletiva e individualmente, pois, embora não possamos deter as despedidas, ele seguirá controlando tudo e todos, mesmo sem o aval de nossa vontade. E, desse modo, veremos outras despedidas, algumas, inclusive sem tempo para a despedida. (PGRS).