quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Contagem Regressiva!


Contagem Regressiva 

 
A cidade estava totalmente agitada na expectativa da chegada do ano novo. Contagem regressiva. Muitas pessoas nas ruas tentavam voltar para casa, a fim de poderem comemorar o novo tempo com seus familiares. Crianças brincavam ao ar livre da inocência sem euforia alguma. Amantes e enamorados contemplavam o arrebol cintilante que, no horizonte festivo, caminhava para o último pôr do sol, para o derradeiro anoitecer daquele ano. O coração pulsava na inquietação do momento. Natal já tinha passado, e papai Noel, frustrado, perdeu toda a coloração de suas vestes, desbotadas pelo esgarçamento do tempo. Ele teria de esperar mais um ano para saber se o brilho tosco de seus cabelos ainda seria o mesmo. Será que alguém se lembraria dele? Onde será que ele se escondeu?
Uma criança distraída na calçada, tentando contar as estrelas, que pipocavam no céu, encantou-se com os fogos de artifício que anunciava a iminente chegada do ano novo. Um show pirotécnico acendia no céu escuro de ruas apertadas as esperanças do alvorecer de um novo tempo na esteira cronológica da existência. Mas, a verdade é que ele ainda não havia chegado. O sonho de criança é como a fantasia de papel Noel, quando ele pensa que está aí, já sumiu no horizonte do esquecimento do Natal. Ele pensou até em mudar de nome, em não mais se chamar papai Noel. O avançar solene do tempo exige uma coisa de cada vez na celebração dos encantos da natureza, da vida, do quotidiano, das emoções perdidas no ralo tênue da efemeridade insaciável dos acontecimentos. Até mesmo a lua tímida resolveu aparecer longínqua, mas majestosa e brilhante, distribuindo beleza e encanto ao evento. Todavia, sempre é tempo de sonhar, de renovar os anseios inequívocos da felicidade, da realização pessoal e coletiva, pois, “ninguém é uma ilha”.
Réveillon não se vive sozinho, distante do ninho, calafetado de linho, boiando num copo de vinho, com o incômodo da solidão. Companheiros e amigos ajudam no acalanto festivo do dealbar inerente à conclusão da meia-noite. Não por acaso, “quando se vai ao fundo da noite, encontra-se com uma nova aurora”, e com ela todas as esperanças se renovam no fugidio instante que se desprende de 2011 para dar lugar a 2012.
Entre o natal e o ano novo, muita magia se apresenta no ar. Pessoas cheias de esperanças estão na espera da plenitude do tempo para a realização de novos desejos de felicidade. Quem chegará lá, depois dos limites escondidos na inconsciência do tempo, daquilo que virá, e se virá, no limiar das novidades e surpresas do porvir? A vida, por si mesma, rebenta como um milagre florescido no sertão árido e seco, cuja coloração vai dando asas e credibilidade aos embates emergentes da existência. E o contraste verde-escuro das belas paisagens, desabrocha dentro da alma como canteiros de esperança, como de esperança deve ser o destino desconhecido de cada novo ser, de cada nova flor vicejante na origem luminosa da nascente de sua aurora, de maneira que muitos assaltos da nossa alma podem precipitar-nos no esconderijo do que poderíamos chamar “a inconsciência do tempo”. Mas, o que é o tempo? Não sei se, um dia, encontraremos uma resposta satisfatória a essa pergunta. Ao longo dos séculos, muitos se perguntaram sobre o que ele seria, sobre o seu significado e sobre a sua dimensão na realidade concreta da vida dos homens: existe, realmente, o tempo? Para adentramos no santuário do seu mistério, precisamos de tempo, ou melhor, temos necessidade do tempo.
O que é essa categoria humana, que nos permite viver tantas experiências, tantas possibilidades de realizações na vivência concreta dos fatos, verdadeiros e reais, que constituem o antes e o depois da História dos homens? Na verdade, o depois chega à nossa consciência tendo passado, quase imperceptível, pelo crivo da nossa inconsciência, ou mais categoricamente, pelos escombros de nossa capacidade de consciência, que nada mais é do que a plenitude da concepção de um fato que, só depois de ter acontecido, pode ser elaborado na imagem da visibilidade momentânea de nossa fantasia, qual espécie de resgate da sucessão dos anos decorridos. Somos o que somos no tempo, enquanto possibilidade de realização tangível, captada pelo esvair-se dos fatos repentinos que morrem para deixar espaço a outros. Nascemos crianças e nos tornamos velhos no tempo, pois os acontecimentos não cessam senão no pós-limiar intenso e imediato do último suspiro. E é provável que nem sequer tenhamos tempo para dizer, no trepidar emocionante do derradeiro adeus: “Acta est fabulas!” – “o espetáculo acabou”, como dissera o imperador Augusto ao despedir-se do cenário conturbadamente dramático de sua vida. O fato é que o tempo passa rápido demais, e as lembranças da vida vão se perdendo no redemoinho voraz do esquecimento. Não sem razão, a Bíblia afirma, embora na concepção dos ímpios, que “breve e triste é a nossa vida, o remédio não está no fim do homem, não se conhece quem tenha voltado do Hades. Nós nascemos do acaso e logo passaremos como quem não existiu; fumo é o sopro do nosso nariz, e o pensamento centelha do coração que bate. Extinta ela, o corpo se tornará cinza e o espírito se dispersará como ar no inconsistente. Com o tempo, nosso tempo cairá no esquecimento e ninguém se lembrará de nossas obras; nossa vida passará como uma nuvem – sem traços – se dissipará como a neblina expulsa pelos raios do sol e, por seu calor, abatida. Nossa vida é a passagem de uma sombra, e nosso fim, irreversível; o selo lhe é aposto, não há retorno” (Sb 2,1-5).
A cidade é grande. A dimensão de seus bairros ou arrabaldes periféricos esconde a pobreza e o encanto mágico de muitos anelos. A família faz festa reunida no aconchego de suas necessidades. As estrelas do céu trocam manifestações de “feliz ano novo”, embora elas mesmas continuem as mesmas de antes. Cada pontinho de luz perdido na dimensão do espaço sideral noturno é o reflexo nítido da esperança de dias melhores. Todavia, a luminosidade acelerada de bons e alvissareiros votos nem sempre chega para todos. Com efeito, encostada no leito de seu sofrimento, uma velha senhora não tinha muita certeza se poderia contemplar a beleza do novo dia, do novo ano. Seu coração estava cheio de angústia e tristeza porque, sozinha e abandonada, sentia saudade dos seus parentes e amigos. De fato, a possibilidade de viver novos tempos e fazer novas experiências, acoberta, na convicção adormecida da memória, a certeza do inesperado. O vai e vem infrene das conquistas sublimes do curso temporal da realização não pára, e a euforia noturna da sociedade em festa retoma o seu curso.
O caminho noturno da vida interior esconde as ciladas não visíveis ao imediato porvir. A praia estava em polvorosa, mas ainda havia muito chão do tempo para ser percorrido no alvoroço inquietante em busca de um bom lugar para se quietar à espera dos clarões pipocando no escuro céu da passagem de ano, que carrega uns consigo e deixa outros para trás, enterrados na letargia temporal que os faz dormir para sempre. Assim, na indiferença dos que se agitavam com as expectativas dos novos tempos sociais no redemoinho da agitação, aquela velhinha não veria a chegada do ano novo. Sua fragilidade e solidão eram apenas suas. Reminiscências pressurosas abriam os vãos da memória e passeavam desimpedidas na saudade da vida enrugada no rosto desgastado pelas rugas, marcas do início do fim da vulnerabilidade radical da impotência que não sobrevive a si mesma. A vontade de superar as deficiências do estado em que se encontrava não lhe permitiria transpor o inevitável constrangimento do escoar-se, sem querer, do hálito existencial que morre deixando o corpo inerte. E, no turbilhão violento do mundo alheio à serenidade desesperada de sua agonia, longe de tudo e de todos, amordaçada na insuficiência de suas forças vitais, o seu coração parou antes de soar o último minuto para a chegada do ano novo!
Nascer, viver e morrer são verbos sequenciados, que não conseguem sincronizar a plenitude do existir senão na decorrência fatídica de seu total desaparecimento. Feliz ano novo! Sem mortes, sem angústias, sem frustrações, mas com a convicção do acolhimento das sementes que o tempo plantará na seara da vida, fazendo-as frutificar no momento oportuno da glória solene da realidade. 


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Uma manjedoura cheia de graça!

Uma manjedoura cheia de graça 


Uma manjedoura cheia de graça! Também não poderia ser diferente. O cocho no qual é colocado o feno e o capim para alimentar os animais, tornou-se o lugar do pequeno menino nascido em Belém – em hebraico “Betlehem” que significa “casa do pão” – não para ser capim, mas alimento vivo que sacia a fome de eternidade que o homem carrega dentro de si pela vida afora. A saudade de Deus é preenchida somente por Deus. Daí a expressão de Santo Agostinho, logo no início, na primeira página de suas “Confissões”: “Fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti”. Por isso que ele veio ao nosso encontro, buscando-nos onde quer que nos encontremos perdidos no espaço físico, espiritual ou interior de nós mesmos. O sonho de Deus chega carregado de Si próprio na manifestação plena de sua extraordinária e frágil pequenez. Nasce como criança, vinda do seio de uma mulher, arrebentando os portões do mundo, com a grandeza de sua presença inaudita.
Hoje é Natal, dia da comemoração do nascimento de Cristo. Ele nasceu para todos! Para os ateus, que não conseguem aceitar a extravagância de seu amor incompreensível; para os agnósticos, que não afirmam a inexistência de Deus, mas preferem dizer: “Eu não creio que ele exista”, assumindo para si mesmos as consequências de sua descrença; para os arrogantes, que não conseguem ver além da suspeita de sua autossuficiência; para os materialistas, para os quais tudo termina no horizonte pobre e angustiante dessa terra; para os sábios, que, do pedestal de seu conhecimento, não percebem a grandeza da criação por trás da qual se esconde o seu Artista supremo; para os violentos, que, no arrojo de sua estupidez descontrolada, acumulam episódios que ferem e agridem a dignidade humana; para os pobres do mundo, que experimentam a marginalidade de seus direitos por conta da ganância dos poderosos; para os infelizes, que, na escuridão de sua noite interior, não conseguem vislumbrar a luz da realização de seus sonhos; para os incrédulos, visceralmente inimigos da possibilidade da existência de um Ser superior, que se debatem na incongruência de suas falsas crenças; para aflitos, que choram as limitações miseráveis de suas condições desumanas e insuficientes de seus desejos; enfim, ele nasceu para os espiritualmente dilacerados, pois somente sua plenitude humana pode curá-los.
Na manjedoura de Belém está a paz que o homem procura para as guerras; a harmonia para o caos cósmico e universal; a felicidade plena para os infelizes; o calor humano para os frios e indiferentes; a esperança viva para os desesperados; a serenidade para os inquietos e agitados; a salvação para os perdidos; a consolação para os sofredores; a calmaria interior para os injustiçados; a fortaleza para os fracos; a graça redentora para os pecadores; a cura definitiva para as feridas da alma; a vitória para o fracasso; a verdadeira vida para a morte; a coragem do amor sem limites para os indecisos. Na manjedoura repousa a esperança do mundo adormecido em sua insensibilidade doentia. Nela está a libertação de todos os opróbrios. Eis, pois, a grandeza desse menino, luz que ilumina as trevas de todos os povos, acobertando os séculos com sua luminosidade infinita: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, uma luz raiou para os que habitavam uma terra sombria. Multiplicaste o povo, deste-lhe grande alegria; eles alegram-se na tua presença como se alegram os ceifadores na ceifa, como regozijam os que repartem os despojos. Porque o jugo que pesava sobre eles, o bastão posto sobre os seus ombros, a vara do opressor, tu os despedaçaste como no dia de Madiã. Com efeito, todo calçado que pisa ruidosamente no chão, toda a veste que se revolve no sangue serão queimadas, serão devoradas pelo fogo. Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, ele recebeu o poder sobre os seus ombros, e lhe foi dado este nome: Conselheiro-maravilhoso, Deus-forte, Pai-eterno, Príncipe da paz, para que se multiplique o poder, assegurando o estabelecimento de uma paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, firmando-o, consolidando-o sobre o direito e sobre a justiça. Desde agora e para sempre, o amor ciumento de Iahweh dos Exércitos fará isso” (Is 9,1-6).
Na manjedoura de Belém está a plenitude de tudo o que Deus sonhou para nossa humanidade. Portanto, eis outra palavra do profeta Isaías: “Um ramo sairá do tronco de Jessé, um rebento brotará de suas raízes. Sobre ele repousará o espírito de Iahweh, espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e fortaleza, espírito de conhecimento e de temor de Iahweh: no temor de Iahweh estará a sua inspiração. Ele não julgará segundo a aparência. Ele não dará sentença apenas por ouvir dizer. Antes, julgará os fracos com justiça, com equidade pronunciará sentença em favor dos pobres da terra. [...] Então o lobo morará com o cordeiro, e o leopardo se deitará com o cabrito. O bezerro, o leãozinho e o gordo novilho andarão juntos e um menino pequeno os guiará. A vaca e o urso pastarão juntos, juntas se deitarão as suas crias. O leão se alimentará de forragem como boi. A criança de peito poderá brincar junto à cova da áspide, a criança pequena porá a mão na cova da víbora. Ninguém fará o mal nem destruição nenhuma em todo o meu santo monte, porque a terra ficará cheia do conhecimento de Iahweh, como as águas recobrem o mar” (Is 11,1-9). A última expressão desse texto descortina e revela diante de nossos olhos extasiados de comoção natalina a profundidade que se levanta da manjedoura de Cristo para todos os povos. Desse modo, “a terra ficará cheia do conhecimento de Iahweh, como as águas recobrem o mar”. De fato, conhecer e reconhecer a Deus na fragilidade de uma criança é abrir as portas de nossa humanidade decaída pelo pecado às graças benditas do eterno Redentor.
Contemplando a manjedoura do menino-Deus, nascido em Belém, devemos recordar a bondade misericordiosa do Senhor que, do alto de sua Transcendência e inacessibilidade, chega ao nosso meio e se permite ser tocado pelas nossas feridas mais profundas. Mais do que isso: “Aquele que não conhecera o pecado, Deus o fez pecado por causa de nós, a fim de que, por ele, nos tornemos justiça de Deus” (2Cor 5,21). A estrela de Natal que brilha no horizonte de nossa existência não tem nada a ver conosco e, no entanto, veio na intenção de que sejamos restaurados nele. Ou seja: Cristo nasce para o mundo, a fim de que nós possamos nascer para os céus. Portanto, essa verdade fundamental da celebração do nascimento do Filho de Deus, Jesus Cristo, o Salvador, não deve ser esquecida ou obscurecida pela pressurosa busca das coisas fúteis que continuam deixando o coração vazio de tudo, ou cheio de tudo, menos, de Deus mesmo. Não deixemos passar em vão a extraordinária magia do Natal do Senhor, mas nos deixemos envolver profundamente pela grandeza de seu mistério, pela humildade de Deus que se rebaixa ao nível da nossa indignidade. Realmente, não somos dignos de Deus, mas, em Cristo, ele nos torna merecedores de todos os tesouros salvíficos de sua encarnação.
Ó pobre criança de Belém, teu nascimento enche de luz todos os caminhos dos homens e do mundo inteiro. Assumindo a nossa humanidade, tu nos revestes com a glória de tua divindade. Carregando em si todas as mazelas de nossos pecados, tu nos devolves a graça perdida no Paraíso. Espoliado de tudo, até de suas vestes, totalmente despido das riquezas humanas, que a ferrugem pode corroer, tu nos ensinas onde podemos encontrar a verdadeira dignidade, depois de todos os ultrajes sofridos pela injustiça dos homens. Tocando com tua humanidade todas as angústias do tempo e dos séculos, tu nos educas para a serenidade perene das consolações eternas. Enfim, chorando como todos os homens, tu nos mostras a compaixão divina por nossas fragilidades.
Muito obrigado Jesus porque, no teu Natal, tu continuas “nascendo no coração das pessoas de boa vontade, nos gestos de amor e partilha, nos povos que buscam a fraternidade e a paz”. A todos os meus queridos e estimados leitores, desejo-lhes um Santo e Feliz Natal, com Jesus no coração e na vida.


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Então, é Natal!!

Então, é Natal! 


O Novo Testamento diz que “quando, porém, chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de uma mulher” (Gl 4,4). Sim, ele nasceu como nós. Ele nasceu de uma mulher. Mas, diferentemente do modo como fomos concebidos, ele foi “gerado” por obra e graça do Espírito Santo (Lc 1,26-38). No seio virginal da “Filha de Sião”, houve um “começo radical”. Portanto, dentro desse contexto natalino, isto é, na referência ao nascimento de Jesus, a Igreja professa que Deus, na sua infinita sabedoria, quis preparar digna habitação para o seu divino Filho. É o que a Igreja reza na Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria, pois, Deus a preservou “de todo pecado em previsão dos méritos de Cristo” (Missal Romano). Eis, ainda, o que a Igreja canta de maneira bonita e solene: “Oh vinde depressa, do seio da Virgem, Beleza dos céus! O mundo admire: um tal nascimento é digno de Deus. Não germe de homem, mas sopro divino no seio gerou. O Verbo de Deus se fez nossa carne, o ventre deu flor” (Liturgia das Horas).
Durante anos a fio, o Povo de Israel viveu na expectativa do nascimento do Messias, do Ungido de Deus, revelando a todos os homens o seu rosto humano e, portanto, visível, pois, como afirma São Paulo, “Ele é a imagem do Deus invisível, o Primogênito de toda criatura, porque nele foram criadas todas as coisas, nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis” (Cl 1,15). Ou seja, que “o universo que percebemos ao nosso redor, não tem sentido sem Cristo”. Desse modo, com o nascimento do Filho de Deus, nasce também um mundo novo para todos nós, para todas as pessoas que compõem a existência do universo, mesmo para aquelas que ainda não ouviram falar sobre ele. Assim, o nascimento de Jesus não é fruto de uma especulação histórica, que planta na fantasia dos homens a vontade de ter um “deus” por perto; não é fruto da impossibilidade de explicar o fenômeno maravilhoso da criação; também não é fruto do desejo desesperado de autossuficiência que inquieta o coração humano. O nascimento de Jesus é a manifestação esplendorosa de que, no céu e na terra, há um Deus grande e poderoso que nos ama infinitamente. Com efeito, seu nascimento é a plenitude da manifestação do perdão que Deus mesmo quis conceder-nos quando, rebeldes e desobedientes, com grosseria, ingratidão e indiferença, voltamos as costas à sua bondade eterna.
É uma pena que o mundo ainda não tenha compreendido bem a grandiosidade desse amor, porque continua fechado à vida nova, e em plenitude, que Cristo veio trazer para todos. Na verdade, grande demais à compreensão racional humana é o mistério da Encarnação do Filho de Deus. Com já disseram, sabemos pela história que homens se fizeram deuses, mas que Deus tenha se tornado homem, essa é a novidade radical e escandalosa do Cristianismo. O Beato João Paulo II, preparando a humanidade e, sobretudo, os cristãos, para o ingresso jubiloso no terceiro milênio, dizia que, ao contrário das outras religiões que buscam a divindade, no Cristianismo, temos o caminho inverso, isto é, Deus vem ao encontro do homem para salvá-lo de seus pecados e, de maneira inaudita e extraordinária, reconduzi-lo à perdida intimidade com ele pelo mistério da Redenção de Cristo.
Celebrar o Natal de Jesus é, pois, carregar dentro da humildade de nossa consciência a certeza de que Deus está mais próximo de nós do que nunca. Se antes de sua chegada, cada um andava errante – como afirma o profeta Isaías, pois “todos nós andávamos errantes, seguindo cada um o seu próprio caminho” – agora, com o advento de sua presença, todos nós podemos retomar a estrada da reconciliação com ele, porquanto “Iahweh fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós” (Is 53,6). Por isso que na celebração do Natal do Senhor, a Igreja não dissocia o efeito salvífico de seu nascimento à sua vida inteira, culminando na sua Paixão, Morte e Ressurreição. Por exemplo, quem já teve a oportunidade de contemplar algum ícone oriental do nascimento de Cristo, o menino-Deus, deve ter percebido que ele é apresentado envolvido em lençóis mortuários. Realmente, a inteligência divina não é racional como a nossa, que se determina pela dinâmica do ontem, do hoje e do amanhã, incluindo um “antes” e um “depois”. A visibilidade de Deus atinge todos os pontos da existência no “hoje” ou no “agora” de sua eternidade.
Nessa dimensão de raciocínio, entrando na história dos homens, Cristo, humildemente, submeteu-se às condições temporais e se fez igual a nós em tudo, “provado em tudo como nós, com exceção do pecado” (Hb 4,15). Ele também cresceu “em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens” (Lc 2,52). Contudo, nada da sua existência humana diminuiu a sua divindade. Assim, a Igreja o reconhece “verdadeiro Deus e verdadeiro homem”. Embora com duas naturezas – a natureza humana e a divina – ele é uma pessoa só. Não são duas pessoas que habitam o Cristo. Com certeza, muito complexo parece ser o dogma da Igreja na correta e justa compreensão da pessoa do Filho de Deus. Todavia, o pensamento do Papa Bento XVI ilumina com mais clarividência o alcance da ideia que tentamos elaborar, pois Cristo, ao se “fazer carne”, permite que nos vejamos “colocados diante de um princípio de caráter absoluto e que narra a vida íntima de Deus. O Prólogo joanino apresenta-nos o fato de que o Logos existe realmente desde sempre, e desde sempre Ele mesmo é Deus. Por conseguinte, nunca houve em Deus um tempo em que não existisse o Logos. O Verbo preexiste à criação” (Exortação pós-sinodal Verbum Domini, n. 6). Mesmo se de difícil acesso intelectivo, nem por isso, devemos deixar de esforçar-nos para adquirir maior conhecimento sobre os desdobramentos da teologia ou da cristologia a respeito do Filho de Deus, que, especialmente no Natal, dialoga com a nossa humanidade. São João fala do Logos, do Verbo, da Palavra, como podemos distinguir nas diferentes traduções. E o Papa Bento XVI retoma o seu discurso do Natal de 2006 e corrobora o sentido dessa Palavra: “‘[...] O próprio Filho é a Palavra, é o Logos: a Palavra eterna fez-Se pequena; tão pequena que cabe numa manjedoura. Fez-Se criança, para que a Palavra possa ser compreendida por nós’. Desde então a Palavra já não é apenas audível, não possui somente voz; agora a Palavra tem um rosto: Jesus de Nazaré” (Exortação pós-sinodal Verbum Domini, n. 12).
A despeito de a pobreza de nossas concepções humanas permanecer sempre aquém da grandeza desse mistério, vale a pena o esforço de nossa lenta inteligência, auxiliada pela teologia da Igreja. Mas, para isso, precisamos ler e estudar o ensinamento do Magistério da Igreja apresentado pelos papas. Somente assim, poderemos amadurecer na fé e continuar firmes na Verdade da Igreja de Cristo, tão bela e rica na certeza das convicções da fé recebida e transmitida. Tal atitude deve ser motivada pelo desejo sincero e alegre do encontro com Cristo Jesus, o Senhor, Deus encarnado que vem ao nosso encontro. De fato, “a renovação desse encontro e desta consciência gera no coração dos fiéis a maravilha pela iniciativa divina, que o homem, com as suas próprias capacidades racionais e imaginação jamais teria podido conceber” (Exortação pós-sinodal Verbum Domini, n. 11). Na verdade, nunca é tarde para aumentarmos o conhecimento sobre Deus e as maravilhas que ele opera em prol de nossa salvação. Enfim, que a presença do Emanuel, do Deus conosco, encha de paz e alegria o coração de todos. Feliz Natal, com Jesus!


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Mysterium nunc patefactum

Mysterium nunc patefactum 



Durante muito tempo, a manifestação de Deus em sua plenitude na Pessoa do Filho ficou escondida no segredo do tempo. Daí a certeira e bela expressão de São Paulo: “Àquele que tem o poder de vos confirmar segundo o meu evangelho e a mensagem de Jesus Cristo – revelação de mistério envolvido em silêncio desde os séculos eternos, agora, porém, revelado [mysterium nunc patefactum] e, pelos escritos proféticos e por disposição do Deus eterno, dado a conhecer a todas as nações, para levá-las à obediência da fé – a Deus, o único sábio, por meio de Jesus Cristo, seja dada a glória, pelos séculos dos séculos! Amém” (Rm 16,25-27). De fato, trata-se de uma breve síntese do grande mistério da revelação de Deus que se fez acessivelmente visto em Jesus, pois “Ele é a imagem do Deus invisível” (Cl 1,15). E é justamente isso que celebramos durante o tempo do Advento que nos prepara para o Natal de Jesus.
Deus entra no tempo e desvela os segredos de sua Pessoa, fazendo-se pessoa como nós na carne de nossa humanidade. E o mundo inteiro se transformou com sua chegada. A vida se encheu de brilho; a pobreza, de significado; os sonhos, de esperança; as dificuldades do quotidiano, de superação; as tristezas, de consolação; as dores, de alívio; as angústias, de serenidade; os medos, de coragem; a caducidade, de renovação; a velhice, de juventude; as feridas, de bálsamo leniente; o caos interior, de harmonia; o diálogo, de compreensão; as palavras, de sentido; as dilacerações, de atilhos; os desafetos, de reconciliação; o vazio, de plenitude; enfim, o próprio homem, de Deus mesmo. Essa é, então, a grande novidade à qual os homens devem abrir-se, como diz São Paulo, a fim de poderem viver “a obediência da fé”, cujo exemplo maior foi o próprio Cristo quem deu com o testemunho radical de sua submissão à vontade do Pai. Na verdade, a obediência é a expressão incondicional da gratuidade do amor. Não por acaso, São João Bosco pregava: “Faze-te amar para, depois, fazer-te obedecer”. O amor desfaz as amarras do coração, tornando-o livre para a obediência. De fato, esse foi o testamento espiritual de toda a vida de Cristo vivida até o fim, até os limites extremos de sua generosa entrega (Jo13).
Esse “mistério agora revelado” jamais será atingido pela compreensão humana em toda a sua totalidade. A riqueza insondável do mistério de Cristo estará sempre além de qualquer esforço humano de nossa inteligência. Enquanto mais meditamos e refletimos sobre ele, com todas as consequências místicas de sua verdade escondida de nossas percepções, mais parecemos distantes dele, senão pela parte do envolvimento que nos cabe, redentoramente, na participação de seu próprio mistério. A palavra é de um dos maiores místicos da Igreja de Cristo, do século XVI, São João da Cruz: “É preciso cavar fundo em Cristo, que se assemelha a uma mina riquíssima, contendo em si os maiores tesouros; nela por mais que alguém cave em profundidade, nunca encontra o seu fim ou termo. Ao contrário, em toda cavidade aqui e ali novos veios de novas riquezas. Por isso que o apóstolo Paulo falou acerca de Cristo: Nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência de Deus (Cl 2,3). A alma não pode ter acesso a estes tesouros, nem consegue alcançá-los se não houver antes atravessado e entrado na espessura dos trabalhos, sofrendo interna e externamente e sem ter primeiro recebido de Deus muitos benefícios intelectuais e sensíveis e sem prévio e contínuo exercício espiritual”. E o Santo continua com profunda intuição cristológica: “Tudo isto é, sem dúvida, insignificante; são meras distrações para as sublimes profundidades do conhecimento dos mistérios de Cristo, a mais alta sabedoria a que se pode chegar nesta vida. Quem dera reconhecessem os homens ser totalmente impossível chegar à espessura das riquezas e da sabedoria de Deus! Importa antes entrar na espessura das labutas, suportar muitos sofrimentos, a ponto de renunciar à consolação e ao desejo dela. Com quanta razão a alma, sedenta da divina sabedoria, escolhe antes em verdade entrar na espessura da cruz”. Que desconfortável intuição: “Entrar na espessura da cruz”, para entender o vislumbre luminoso de sua encarnação.
A cruz de Cristo é o arco dentro do qual a sua vida se esgota e desaparece na impenetrabilidade do mistério colocado na penumbra da nossa fé. Assim, a mesma luz que brilha no Natal do Senhor resplandece na manhã da ressurreição depois do suplício do Calvário. Ou seja: é a vida toda de Cristo que cintila no momento de sua chegada em meio à nossa humanidade. Curiosamente, em alguns ícones que retratam o nascimento de Cristo, ele aparece revestido de uma mortalha e sua manjedoura é semelhante a um túmulo. Vida e morte se completam no mistério da existência do Filho de Deus que “se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Que estupendo mistério! Ele se fez pobre da nossa humanidade, a fim de nos enriquecer da sua divindade. Esse tem sido o resumo do motivo de sua presença no meio de nós. O “mistério da iniquidade” suplantado pelo “mistério da graça”. Com efeito, “de sua plenitude, todos nós recebemos graça por graça” (Jo 1,16), conferindo-nos os dons divinos da salvação. Por sua vez, ao aludir à manifestação do Verbo de Deus entre os homens, Santo Hipólito afirma: “Deus possuía o Verbo em si mesmo, e o Verbo era imperceptível para o mundo criado; mas fazendo ouvir a sua voz, Deus tornou-o perceptível. Gerando-o como luz da luz, enviou como Senhor da criação aquele que é sua própria inteligência. E este Verbo, que no princípio era visível apenas para Deus e invisível para o mundo, tornou-se visível para que o mundo, vendo-o manifestar-se, pudesse ser salvo”. Salvo de que? Sem dúvida, do pecado que afasta o homem de Deus.
Cristo faz a ponte que permite o homem reencontrar o caminho do céu. Por isso que, sem nos deixar contaminar pelo preconceito dos que apresentam uma imagem errada e distorcida de Deus e de Cristo, devemos permitir-nos crescer no conhecimento das verdades que encerram a manifestação de Jesus. Portanto, com sinceridade de coração e honestidade de inteligência, precisamos abrir-nos ao caudal das riquezas inexoráveis da proximidade com Cristo, sobretudo, pelo dom sublime da amizade com ele. Precisamos buscá-lo nas escrituras e encontrá-lo nos sentimentos que nos tornam mais próximos uns dos outros pela mediação de Cristo. No entanto, para que isso aconteça é necessária a superação da mentalidade mesquinha que não permite o homem ver além de si mesmo. Na verdade, tantos são os bons sentimentos que embalam os gestos de corações generosos no período natalino, que não podemos esquecer-nos de trazer em nós as pulsações do coração de Cristo, sempre aberto e disposto ao acolhimento dos irmãos. Todas essas siluetas da comiseração fraterna estão relacionadas às moções do Natal do Senhor.
Por conseguinte, o olhar voltado para a gruta de Belém e a pobreza do recém-nascido deve encher de esperança os sonhos de plenitude que despertam a humanidade para o melhoramento de suas relações interpessoais. Não importa a distância de onde nos encontramos, o véu na noite linda de Natal quer abraçar a todos; não importam as intenções perdidas pela indiferença, a sensibilidade do Menino-Deus quer aproveitar o desejo dos presentes oferecidos aos necessitados do caminho; não importam as lágrimas derramadas, o choro do menino de Belém que enxugá-las todas. Como no filme “o quarto sábio”, vale o desprendimento que socorre a quem precisa dos agasalhos que não eram propriamente seus, mas que lhe foram úteis na urgência instantânea da partilha provocada pela surpresa do momento. Cristo recebe os dons que lhe ofertamos nos irmãos caídos na rua da miséria, do desprezo, da marginalidade social, da frieza de transeuntes abastados pela ganância egoísta do ter, sem a preocupação do ser na contramão da vida alheia.
Que bom seria se, no final do percurso da nossa vida, pudéssemos dizer: “Senhor, todos os presentes que eram para Ti, foram entregues aos irmãos necessitados que apareceram no caminho antes que eu Te encontrasse”. E ele pudesse responder-nos: “Não se preocupe! Eu recebi todos os seus presentes!” Se é verdade que Cristo se esconde sob o semblante dos pobres, como diria a Beata madre Tereza, também é verdade que tudo o que lhe for oferecido com generosidade de espírito não deixará de ter a sua oportuna recompensa.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Quando as experiências humanas dificultam a visibilidade de Deus

Quando as experiências humanas dificultam a visibilidade de Deus 



A Bíblia diz que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 3,6). No entanto, transcorridos tantos séculos na esteira da história humana, nem sempre foi assim que o homem se comportou. Na verdade, muitas de suas fatídicas experiências distantes de Deus, no esforço contínuo, trágico e fracassado de autossuficiência e radical independência, fizeram com que a autêntica imagem de Deus fosse distorcida na visibilidade limitada e míope do homem.
Refazendo o percurso da história do povo de Israel, à luz da palavra de Deus, sabemos que a fidelidade do Deus da Aliança ao homem – ou melhor, às promessas feitas ao homem – é incondicional. Nunca Deus desistiu ou desistirá do homem, mesmo que ele tenha se arrependido de tê-lo criado (Gn 6,6). Contudo, a infinita misericórdia do Senhor Deus não dispensa o homem do esforço necessário para corresponder à sua graça. A Bíblia está cheia de exemplos notadamente fortes da revelação divina, solicitando a coerência da vida diante dele, não obstante todos os limites intrínsecos à rebeldia interior e ao jeito cômodo com que, vez por outra, o sonho da liberdade contradiz a essência de sua realidade mais profunda, isto é, de sua orientação para o bem e para a prática do bem, da busca e da aceitação da verdade. Quantas vezes, e de que maneira, Deus tentou advertir o povo de Israel do caminho errado de suas escolhas? Quantas vezes, Deus fez com que Israel fizesse a “memória histórica” de todos os acontecimentos que lhe dizem respeito, sobretudo, quando o Senhor ia diante deles, com mão forte e poderosa, a fim de livrá-lo de todas as ciladas colocadas propositalmente pelos inimigos? Mesmo assim, quantas vezes, o povo de Israel reclamou de seu Deus, na dinâmica dura, mas firme, das propostas da aliança que lhe fora oferecida? Quantas vezes, Deus ouviu o clamor de seu povo e foi libertá-lo de seus inimigos opressores?
O homem quando quebra o pé no buraco da estrada, não deve culpar somente a estrada, mas, talvez, sua distração durante a travessia do caminho. Na verdade, é a própria escuridão interior do homem quem limita sua visibilidade de Deus. Infelizmente, nossa infantilidade espiritual – se é que a possuímos de alguma maneira – quis fazer o retrato de Deus à imagem e semelhança de sua pequenez. Não poucas vezes, somos tentados a olhar para Deus como olhamos para nós mesmos. Tão mesquinha, medíocre e ridícula é a nossa percepção do Transcendente, que gostaríamos de aprisioná-lo nos esquemas retardados e dementes de nossas próprias atribuições. Todavia, Deus é sempre maior. O fato é que desclassificamos Deus e queremos colocar-nos no lugar dele. Pior ainda, “matamos Deus”, e queremos imaginar-nos vivos. Se Deus morrer na nossa vida, na nossa consciência, na nossa sociedade, na nossa história pessoal e coletiva, o homem – a humanidade – também morrerá. Se a luz divina apagar-se do palco da história humana, todos os outros personagens e atores ficarão no escuro e perderão o brilho, o vigor, a beleza, enfim, a própria vida. No entanto, o mais curioso é que a existência de Deus não depende de nossa vontade nem de nosso querer, nem do nosso agir. É justamente o contrário: nós precisamos dele. Ele simplesmente “É aquele que é” – “Eu sou aquele que sou!” – conforme a revelação bíblica a Moisés. Aceitando-o ou não, querendo-o ou não, em nada nossa arrogância diminuirá a essência de Deus, seu amor, sua glória, sua misericórdia e sua plena manifestação em Cristo.
Como é que tentamos olhar para Deus? Criamos um “deus” à nossa imagem e semelhança, invertendo os papéis, e queremos que ele se pareça conosco. Deus não precisa de um aprendizado alfabético como acontece com nossa inteligência racional. “Um antes” e “um depois”, no sentido cronológico de nossas percepções, não fazem parte de sua apreensão das coisas. Deus está fora dos esquemas lógicos de nossa cognição. Entrementes, os absurdos vividos ao longo da história, sobretudo, quanto à degradação da dignidade humana, como aconteceu em determinados períodos obscuros da racionalidade demente do homem, às vezes, acusaram Deus de ter se esquecido da obra-prima de suas criaturas, o homem. A verdade é que, sempre em tempos de dificuldades de todo tipo, instalou-se dentro do coração humano a desconfiança no que concerne à própria existência divina. Desse modo, os grandes dramas da humanidade, de modo especial os relacionados a doenças incuráveis, fome, peste, e guerra, sem falar do sofrimento e da dor dos inocentes e injustiçados, não raras vezes, dificultaram a visibilidade de Deus na essência mais profunda e tangível, perceptível, de seu Ser, que é amor, bondade, misericórdia, verdade, justiça, entre outros atributos de sua transcendência. Com efeito, nenhuma tragédia temporal humana poderá apagar os rastros de sua infinita benemerência, pois ela não está condicionada aos limites inerentes às nossas estruturas psicológicas ou espirituais. Mesmo desesperado no fundo incontrolável de sua angústia, o homem pode clamar e gritar por Deus, sem encontrar a resposta desejada, como se Ele estivesse surdo, silencioso e mudo diante de suas lamentações. Mas, Ele estará lá no aparente deserto interior da surdez humana. Deus não ri nem debocha do homem carente de realização plena, que somente Ele pode concretizá-la na radicalidade mais premente de suas exigências. Mesmo em situações espirituais em que podemos experimentar o “nadir infernal” da baixeza humana, é possível que Deus escute a voz aflita de seus filhos.
Saindo da escuridão de si mesmo, o homem caminha, às apalpadelas, na direção da claridade divina. É que a verdade do homem sobre si mesmo, sua origem e seu destino último somente encontram sentido em Deus, não obstante todo o caos que o cerca. Por isso que, tento visitado o Campo de Concentração e Extermínio de Auschwitz, em maio de 2006, o Papa Bento XVI afirmara, com absoluta serenidade diante de Deus e dos homens, em sua audiência na Praça do Vaticano: “Diante do horror de Auschwitz, não existe outra resposta senão a cruz de Cristo: o Amor descido até o fundo do abismo do mal, a fim de salvar o homem na raiz, onde sua liberdade pode rebelar-se contra Deus. Que a humanidade hodierna não esqueça Auschwitz e as outras ‘fábricas de morte’ nas quais o regime nazista tentou eliminar Deus para tomar o seu lugar! Não ceda à tentação do ódio racial, que está na origem das piores formas de antissemitismo. Tornem os homens a reconhecer que Deus é Pai de todos e a todos nos chama em Cristo a construir juntos um mundo de justiça, de verdade e de paz”. As palavras do Sumo Pontífice querem recordar à humanidade inteira a necessidade de Deus, mesmo quando tudo parece dizer que ele não existe, por conta de sua aparente indiferença e silêncio em face às calamidades que desesperam os homens. A despeito de toda descrença e incredulidade, Deus ainda é a resposta segura às buscas humanas. Fora da linha do horizonte divino, o homem tende a desaparecer pela barbárie inconsequente de suas perversas arbitrariedades.
Por conseguinte, é justamente lá, onde Deus se demonstra ausente e fracassado, como na morte de seu divino Filho, que Ele se mostra o Salvador de todos. Os olhos humanos não conseguem ver além do caos senão por meio da fé. E a fé é esse rasgo de luz atravessando a escuridão da noite de nossas incertezas, atingindo a incompreensibilidade da solidão divina que age contra o bom senso de nossas esperanças, expectativas ou desejos. De fato, estranha à nossa pretensa racionalidade é o pensamento do teólogo Dietrich Bonhoeffer, mártir do nazismo, que escrevera: “Deus não nos salva em virtude de sua onipotência. Ele nos salva em virtude de sua impotência em Cristo Jesus, crucificado e morto”. É, pois, essa aparente contradição quem abre uma dimensão nova na perceptibilidade do crente, que, apesar de tudo, não permite que as sinistras experiências humanas obnubilem ou dificultem a visibilidade de Deus, que silencia por trás das desordens provocadas pela imbecilidade do próprio homem, teimoso e truculento, que procura atribuir a Deus a irresponsabilidade que deveria tombar sobre os seus próprios ombros em decorrência da sua maligna e satânica criatividade.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Maran atha!


Maran atha 



Desde que Cristo veio a primeira vez, assumindo a nossa humanidade na sua Encarnação, e tendo subido aos céus, após a sua Morte e Ressurreição, a Igreja inteira, em atitude de oração humilde e insistente, não se cansa, jamais, de repetir, esperançosamente, o “Maran atha” (1Cor 16,22). O vocábulo, de origem aramaica, entrou bem cedo na linguagem cristã da Liturgia para exprimir, na perene celebração da Igreja peregrina, o desejo sincero de seu definitivo encontrou com o Senhor na sua Parusia, isto é, na sua segunda vinda. Por isso a “exclamação imperativa”: “Nosso Senhor, vem!”.
Em vários contextos do Novo Testamento, seu significado é o mesmo, embora apresente nuanças diferentes: “O Senhor está próximo” (Fl 4,5); “Assim, também vós, esperai com paciência e fortaleceis os vossos corações, porque a Vinda do Senhor está próxima” (Tg 5,8); “O fim de todas as coisas está próximo” (1Pd 4,7); “Eis que venho em breve” (Ap 22,7); “Aquele que atesta estas coisas, diz: ‘Sim, venho muito em breve!’ Amém! Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20). Todas essas expressões traduzem a iminência do retorno do Filho do Homem, “em sua glória” (Mt 24,31), como Senhor e Juiz da História. Naquele grande e tremendo dia, o segredo de muitos corações serão revelados. Então, o Senhor se apresentará para o julgamento final, quando “serão reunidas todas as nações e ele separará os homens uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos bodes” (Mt 24,32), como nos revelam as Sagradas Escrituras. Com efeito, não por acaso, a sábia e milenar liturgia da Igreja renova a cada instante, e todos os dias, o anseio permanente de que tal promessa se realize: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!”.
Embora, vez por outra – especialmente, em viradas de milênio – alguns falsos profetas nefastos da agonia tentem apressar o grande final do palco ilusório desse mundo, aquele momento derradeiro não foi revelado a ninguém, nem mesmo ao Filho de Deus. De fato, perguntaram os discípulos ao seu Mestre: “Senhor, é agora o tempo em que irás restaurar a realeza em Israel? E ele respondeu-lhes: ‘Não compete a vós conhecer os tempos e os momentos que o Pai fixou com sua própria autoridade’” (At 1,6-7), de maneira que “daquele dia e da hora, ninguém sabe, nem os anjos dos céus nem o Filho, mas só o Pai” (Mt 24,36). O fato é que esse momento de radical transformação acontecerá, e a Igreja jubilosa do Senhor se entusiasma e se anima com essa promessa de restauração de todas as coisas na plenitude dos tempos, porquanto “passarão o céu e a terra. Minhas palavras, porém, não passarão” (Mt 24,35). Num horizonte mais profundamente teológico, diante do contexto paulino, tal “aclamação” pode expressar três funções: “Primeiro expressa sinceros votos de que o Senhor venha logo. Depois de escrever uma extensa carta cheia de hostilidade, reprimendas e instruções, Paulo com certeza deseja que o Senhor venha logo para justificar o que ele disse e fez com os apóstolos (cf. 1Cor 4,3-5). Segundo, é usada para corrigir a concepção errônea dos coríntios quanto à posição que têm em Cristo. [Ou seja, que] o senhor virá de novo para conduzi-los ao novo reino com seus corpos ressuscitados ou transformados [...]. E, finalmente, funciona para exortá-los a viver dignamente diante do Senhor. Já que enfrentarão seu julgamento na sua vinda (1Cor 3,11-15), uma súplica pela vinda do Senhor lembra-os de se comportarem sempre de maneira apropriada, principalmente na vida pessoal, bem como no culto comunitário” (Dicionário de Paulo e suas cartas).
Sem dúvida, o mistério celebrado na Eucaristia, considerada como “penhor da vida futura”, encerra a grandeza da expectativa da comunidade dos crentes que, com os olhos voltados para os céus, aguardam “a bem-aventurada esperança e a vinda do nosso Salvador Jesus Cristo” (Catecismo da Igreja Católica, n. 1404). E é para essa realidade escatológica futura que também aponta a celebração do Natal do Senhor. Desse modo, a Igreja inteira nunca se cansa de incentivar uma vivência cristã mais conforme à proximidade com a chegada do Salvador.
Na concepção de Kuhn, o “Maran atha” é ou uma profissão de fé no Cristo glorificado presente na comunidade dos seus fieis, sobretudo, quando se celebra a Eucaristia, afirmando que “nosso Senhor está aqui”, ou é o grito da comunidade tensa no desejo de seu retorno. Evidentemente, não é isso o que encontramos na coloração festiva da luminosidade fria e distante de nossas ruas e casas durante o tempo natalino. Às vezes, nenhum sinal do verdadeiro sentido do Natal do Senhor está presente na avareza comercial das publicidades e do intercâmbio de presentes que acaloram os encontros de “fraternidade” no final do ano. De fato, no flagrante paganismo do mundo moderno, o brilhantismo de muitas festas cristãs assumiram conotações que nada falam do mistério de Deus que se fez “carne [homem] e habitou entre nós” (Jo 1,14). Pior ainda, o Deus misericordioso que, na sua humanidade, rebaixou-se ao nível de se igualar aos pecadores, a fim de proporcionar-lhes a verdadeira felicidade, tem sido cada vez mais expulso do mundo que ele mesmo criou e o redimiu, escandalosamente, numa demonstração gratuita de amor sem limites. Como nos lembra um autor moderno, afirmando: “Bastaria considerar a barbarização que o calendário cristão sofreu: o domingo é weekend, Todos os Santos é Halloween, o 25 de dezembro se identifica com Papai Noel, a Epifania é só a Befana, a velha bruxa que traz presentes às crianças na noite de Reis (na Itália)” (Svidercoschi).
Não obstante tudo, na consciência dos verdadeiros cristãos, jamais morrerá o encanto da “teologia da luz”, que, na noite do nascimento de uma frágil criança, enche de claridade e esperança os devaneios provocantes de uma sociedade adormecida nos porões escuros de sua suposta e mórbida autossuficiência. Que na noite santa de Natal, estejamos, vivamente, acordados para acolher o Senhor que vem, mais uma vez, devolver-nos o resplendor da dignidade humana que acende em nosso coração a certeza de que nem tudo está perdido e de que, no aparente caos que nos cerca, o mundo ainda tem Dono. 





sábado, 3 de dezembro de 2011

Que Natal, Papai Noel?

Que Natal, Papai Noel? 



Quem fala sobre o Natal pode expressar a emoção que quiser, junto com tantos outros sentimentos como alegria, harmonia, esperança, felicidade. No então, se não colocar na raiz se sua manifestação interior a grandeza da Encarnação de Deus em Jesus, o seu Filho bendito, não estará fazendo outra coisa senão jogando fora um vocabulário rico de intenções, mas vazio de significados. Por mais que nossa sociedade seja ateia e indiferente à verdadeira razão do Natal, ninguém pode esquecer-se da motivação profunda para tanta luminosidade e coloração festiva em nossas casas e cidades. Natal é Jesus, Deus mesmo armando sua tenda no seio de nossa humanidade pecadora. Vez por outra, ouço uma senhora dizer que, do céu, Papai Noel deve chorar por ter visto sua imagem substituir a de Cristo em alguns presépios modernos e pagãos, quando não nas consciências, que falam de tudo, até de gnomos e bruxos de halloween, mas nada dizem da chegada do Salvador no meio dos homens.
Quem quiser pode começar a observar nas entrevistas que aparecem nos meios de comunicação. Mesmo padres, bispos, ativistas sociais, atores, cantores e artistas de modo geral, também falam de solidariedade, de ajuda aos pobres, de filantropia, de compaixão pelos irmãos, de pobreza e miséria a serem combatidos, mas não mencionam, nunca, a palavra “Jesus Cristo” como fundamento do que realmente é o Natal do nascimento do Filho de Deus. Parece até referirem-se a um Natal sem Deus. É verdade que todas as aspirações em melhorar a convivência entre os homens têm seu sentido em si mesmas, mas elas podem ser enriquecidas se não nos esquecermos da própria bondade divina que torna todos os homens irmãos em Cristo, o doador da perfeição de nossa humanidade. Aí, sim, solidariedade, caridade, felicidade, auxílio recíproco em meio às necessidades de todos, distribuição de brinquedos para as crianças, a troca de presentes, tudo isso se transforma de significação à luz do reconhecimento do Natal do Senhor. Do contrário, até Papai Noel deve dar a mão à palmatória e, com honestidade, perguntar-se: “Que Natal nós queremos?” Tenho certeza de que, se a consciência do Natal permitir que Cristo faça parte das festividades dos encontros humanos, a durabilidade dos sentimentos que enlevam a dignidade humana será mais prolongada, e os relacionamentos também serão melhores na genuína gratuidade do querer bem.
Se o Natal é motivo para troca de presentes, não podermos nos esquecer de que Deus já se nos antecipou em participar desse “comércio admirável”, como diria Santo Agostinho, em que ele quis trocar a sua divindade sublime pela nossa humanidade pecadora. Revestindo-se de nossa humanidade, ele quis revestir-nos de sua divindade. Esse deveria ser o clarão maior de todas as convicções celebradas no Natal, que incendeia o nosso coração de esperança, de sonhos, de realizações, de partilhas. Oxalá que no Natal de Cristo, nosso olhar se voltasse para a riqueza do mistério de Deus que nos salva pelo Filho, e que nosso coração agradecido cantasse o hino da Liturgia da Igreja: “Ó Redentor do mundo, do Pai eterno gerado já antes do universo, qual Filho bem-amado. Do Pai luz e esplendor, nossa esperança eterna, ouvi dos vossos servos a prece humilde e terna. Lembrai, autor da vida, nascido de Maria, que nossa forma humana tomastes, neste dia. A glória deste dia atesta um fato novo, que vós, do Pai descendo, salvastes vosso povo. [...] E nós, por vosso sangue remidos como povo, vos celebramos hoje, cantando um canto novo”. Amém.