sábado, 18 de fevereiro de 2023

 

Saudades do Carnaval?

 


Saudades do Carnaval? Sim! “Saudades do Carnaval” é o sentimento de folia que tem repaginado a vida de muitas pessoas, Brasil afora, depois da suposta passagem da pandemia do Covid-19, uma tragédia humanitária que, só no país “verde e amarelo”, fez desaparecerem quase 700 mil pessoas. Então, as ruas começam a ser tomadas pelos foliões que se reúnem para a “celebração da vida”, diriam alguns. Por mais de dois anos afastados das passarelas do samba, eis que tudo parece voltar a todo vapor! E a pandemia já nos deixou em paz? Quanto aos que morreram, esses, sim, descansam em paz, porque o tumulto das nações silencia nos cemitérios.

O carnaval não é uma necessidade essencial da alma nem do espírito humano. Desse modo, sua substância é, sobretudo, de sede espiritual e de fome de Deus! Ou melhor: De Saudade de Deus! E esse deveria ser o grito dos cristãos: “Saudade de Deus!”. Infelizmente, com o afastamento moroso da sombra da pandemia, que assustou a todos no mundo inteiro, parece que a maioria das Igrejas ainda vazias sinaliza que vivemos, de veras, esquecidos de Deus. Alguns não voltaram, talvez, porque se descobriram não necessitados de Deus; outros, por acomodação mesmo, imaginando uma igrejinha doméstica, que não alcança o sentido pleno da eclesiologia; e outros ainda, porque esfriaram na fé, perderam o sentido da vida em comunidade e, assim, se isolaram. Mas Deus não nos esqueceu! Portanto, precisamos recobrar o caminho da gratidão, voltar à vida da comunidade na Igreja e nos alegrar com o fato de ainda estarmos aqui, vivos, celebrando os louvores do nosso Deus Criador e Salvador. É, pois, nessa direção que queremos caminhar durante o tempo forte, de oração e penitência para os cristãos católicos, com o advento do período da Quaresma!

Não é por acaso que “a Quaresma, que nos conduz à celebração da Santa Páscoa, é para a Igreja um tempo litúrgico muito precioso e importante, em vista do qual me sinto feliz por dirigir uma palavra específica para que seja vivido com o devido empenho. Enquanto olha para o centro definitivo com o seu Esposo na Páscoa eterna, a Comunidade eclesial, assídua na oração e na caridade laboriosa, intensifica o seu caminho de purificação no espírito, para haurir com mais abundância do Mistério da redenção a vida nova em Cristo Senhor (cf. Prefácio I da Quaresma”). (Bento XVI). Uma palavra do saudoso Bento XVI ainda em vigor! É a perenidade da Palavra de Deus que se desdobra nos ensinamentos da Igreja de Cristo através dos papas, do magistério, da tradição e da doutrina católica. Tudo, porém, fundamentado nas Sagradas Escrituras, sobretudo nos Evangelhos de Cristo.

Ou seja, um universo de diretrizes éticas e espirituais que devem elevar os homens à transcendência própria de sua altíssima dignidade. A dignidade de Filhos de Deus: “Com efeito, não recebestes um espírito de escravos, para recair no temor, mas recebestes um espírito de filhos adotivos, pelo qual clamamos: Abba! Pai! O próprio Espírito se une ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de Deus. E se somos filhos, somos também herdeiros; herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo, pois sofremos com ele para também com ele sermos glorificados”. (Rm 8,15-16). Sofrimento e glória, dois termos que São Paulo aponta aos cristãos, a fim de que não esqueçamos a dinâmica do binário espiritual aqui enfatizado. De fato, à luz cristológica, não há glória sem sofrimento. Aliás, essa é uma das tentações de satanás contra o Filho de Deus: para que passar pelo sofrimento, se é possível a glória sem ele? (“Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares”, Mc 4,9). Trata-se, pois, de uma enganação do diabo que tem inspirado a vida de muitos falsos discípulos de Cristo, porque tentam criar a sua própria religião.

Que o tempo novo da liturgia da Igreja, que é a Quaresma, conduza-nos a melhor entender o caminho da Cruz percorrido por Cristo para nossa salvação eterna. Piedade, amor, jejuns e orações, tudo isso ao lado da esmola – que é mais do que o simples gesto de doar algo a alguém – inspire-nos a bem viver esse período de penitência. Na verdade, contemplando o Cristo da cruz, de algum modo, contemplamo-nos a nós mesmos pelo mistério da Encarnação daquele que carregou sobre si as nossas feridas espirituais mais profundas, como consequências do pecado da desobediência de Adão e Eva.

O tempo santo da Quaresma deve ser também para nossa infinita gratidão ao Pai Criador, ao Filho Salvador e ao Espírito Santificador, pelos benefícios advindos da Cruz do Senhor nosso Jesus Cristo. (Dr. PGRS).

Feliz e Santa Quaresma!

2023