domingo, 26 de setembro de 2021

 

A morte do meu amigo cardeal Freire Falcão

 


(1925-2021)

Na passagem pela vida, também juntamos amigos e conquistamos amizades, de modo que, durante a temporada em Brasília, uma das figuras de quem me aproximei bastante foi a do Cardeal Dom José Freire Falcão (1925-2021). Foi mais um que perdemos por causa das complicações com a Covid-19. Que ironia! Viver, viver, para morrer em razão dessa pandemia triste! Aparentemente tímido como uma criança, era mais lúcido do que muitas inteligências juntas. Raramente ele ia ao seminário, mas cada vez que ia, levava novidades do Vaticano e refletia sobre acontecimentos pontuais da vida da Igreja. Muito espontâneo e espirituoso, dava seus recados diretamente, sem tergiversação. Também era amigo de Dom Luciano Duarte. Certa ocasião, os dois foram convidados pelo Cardeal francês, Paul Poupard, para uma conferência em seu apartamento onde se hospedaram por alguns dias. No final, Dom Falcão recebeu um pacote, pensando que fosse um presente, e se dirigiu a Dom Luciano, dizendo ter ganhado um presente do cardeal francês. Então, Dom Luciano foi taxativo: “Aprenda uma coisa Dom Falcão: francês não dá presente a ninguém”. Quando Dom Falcão abriu o pacote, encontrou a conta da hospedagem para pagar, o que, depois, virou motivo de galhofa.

Em Brasília, Dom Falcão me conferiu o ministério de Leitor, no dia 23 de março de 1997, na capela de sua casa, no Lago Sul, onde morava. Sempre muito bem disposto e acolhedor, também era muito desconfiado com tudo. Recebi o referido ministério durante a celebração de uma missa, na presença de seminaristas, amigos e outros convidados. Dom Falcão mo conferiu com a devida autorização de Dom Luciano Duarte, que lhe enviou a chamada “carta dimissória”. Naquele dia, um amigo se colocou debaixo da imagem de São José, de quem o Cardeal era muito devoto. Mas assim que ele adentrou no recinto e o viu, gritou: “Hei, você, cuidado com o meu São José! Saia, saia daí!”. Ao que o meu colega se defendeu, dizendo: “Eu também sou devoto, Dom Facão!”. E o Cardeal disparou: “Pior! Pior ainda!”.

Certa ocasião, ele foi presidir a uma missa no mosteiro de São Bento, também no Lago Sul, e pensava em permanecer para o jantar. No entanto, escutei-o de dentro de uma cabine telefônica, dizendo: “É da polícia? Aqui é o Cardeal Dom Falcão. Por favor, venham me buscar, porque estão querendo me matar!”. Logo depois, ele foi embora escoltado pela polícia. Algum tempo depois, eu precisei ir à sua casa, com a intenção de organizar a missa durante a qual ele me conferiria o ministério de leitor. Então, ao se aproximar da janela de seu quarto, no primeiro andar, ao me avistar, ele me perguntou: “Era você que estava querendo me matar?”. Claro que se tratava de uma brincadeira aquela pergunta, mas respondi que não: “Imagina! Eu, querer matar um cardeal?”. E, assim, na tranquilidade do expediente recreativo, ele me recebeu para conversarmos. Mas, de fato, depois eu conheci um padre brasileiro, recém-chegado à Arquidiocese de Brasília, com tonsura na cabeça, à moda dos filmes americanos quando tratam de religiosos. Acabara de chegar da Suíça e possuía um sotaque carregadamente marcado por acento francês, e era ele quem queria, a todo custo, ser recebido pelo cardeal na arquidiocese. Como o cardeal não o conhecia, certamente, não se sentiu à vontade para acolhê-lo. Daí a confusão, mas ele parecia muito estranho e não se parecia comigo.

As curvas da vida nos fazem refletir sobre o nosso próprio destino de reencontros e amizades. Muito tempo depois de já ordenado sacerdote, morando em Roma, minha amizade com Dom Falcão se fortaleceu, de modo que, mesmo se tornando emérito, sempre me recebeu em sua casa para refeições, ao sabor de um bom vinho importado. Um dia, quando acabou o almoço, ele chamou o motorista e disse: “Vá levá-lo em casa, senão ele fica para o jantar!”. “Cardeal sovina”, eu dizia, “negando jantar a um padre!” Todos ríamos, mas essa era a sua espontaneidade. E eu também me sentia muito à vontade com ele. Na ocasião em que recebeu o governador do DF, no finalzinho de uma tarde, despediu-o desse modo: “Está na hora de eu rezar as vésperas. Vocês precisam ir embora!”. Era uma espontaneidade sadia, não ofendia nem feria ninguém, e todos o entendiam.

No embalo de nossas conversas, um dia, eu quis saber sobre seus livros, porque não era escritor – ele, que escrevia tão bem no folheto “Povo de Deus”, o folheto das celebrações litúrgicas da Arquidiocese – e ele me revelou algo que considerei fantástico. Seu primeiro livro fora publicado com o pseudônimo de Sacerdos O Homem integral e o Estado integral (uma introdução à filosofia de Plínio Salgado), porque tinha medo se ser acusado de integralista, na época da ditadura no Brasil, e ser preso. Essa descoberta me custou dinheiro, porque, depois, para comprovar o fato, eu comprei toda a coleção de três volumes de filosofia no Brasil, de autoria de Jorge Jaime (da Academia Brasileira de Filosofia), Volume 2, 2ª. Edição, publicado pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Centro UNISAL) e pelas Vozes, do ano de 1997. Esse autor fazia um comentário, considerando a obra o melhor resumo jamais lido sobre o pensamento integralista de Plínio Salgado, e, numa nota de rodapé, se perguntava sobre a probabilidade de o livro ser de autoria de Dom Helder Câmara (1909-1999). Embora o questionamento seja procedente, agora o fato merece a devida referência autoral. Espero que a história faça justiça à memória do verdadeiro autor: Dom José Freire Falcão.

Falei a Dom Falcão que iria procurar o autor da obra filosófica ou a editora para registrar e corrigir a dúvida ou o equívoco da referência. E ele, rápido na intuição como sempre, desferiu: “Não, não! Eu não morri ainda não!”. Como se quisesse dizer: “Só depois que eu morrer!”. Na verdade, o pensamento da morte sempre o afligia, mas ele o aceitava de maneira espirituosa. Amiúde, ele dizia que estava entre aqueles de quem Cristo dizia: “Alguns dos que aqui estão não provarão a morte até que vejam o Filho do Homem vindo em seu Reino”. (Mt 17,28). E eu afirmava, no mesmo ritmo: “Vá pensando, Dom Falcão, que eu irei junto com o senhor. Não vá embora sozinho, não!”. No seminário maior, vez por outra, ele confessava aos seminaristas: “Meus amigos estão morrendo todos, e eu estou ficando com medo!”.

Muitas histórias engraçadas, ditas com a já mencionada espontaneidade que lhe era peculiar, eu ouvi de Dom Falcão nas rodas de conversas em Roma e em sua própria casa. Eu morria de rir, e os seus amigos, que o acompanhavam diziam: “Esse padre é doido? Está mangando do cardeal”. Ele ria comigo, e eu afirmava: “Não se preocupem! O Cardeal é meu amigo, e já me conhece há muito tempo”. Em 2005, quando morreu São João Paulo II, que o fizera cardeal, ele fora chamado para o conclave que elegeu o Papa Bento XVI. No dia do funeral de João Paulo II, 8 de abril daquele ano, eu estava chegando de Israel, depois de passar o dia visitando a acrópole de Atenas, na Grécia. A cidade havia sido tomada por milhares e milhares de pessoas do mundo inteiro, de autoridades políticas e religiosas, que vieram se despedir do Magnus Papa. Havia chovido muito, mas, à noite, muitos visitantes já haviam deixado a Cidade Eterna. A urbe estava tranquila, e, ao me aproximar do Colégio Pio Brasileiro, onde eu morava desde agosto de 2002, Dom Falcão foi a primeira pessoa que encontrei no portão da casa. Ele também estava recém chegado de Israel para o conclave. Depois das emoções da eleição de Bento XVI, os cardeais que estavam presentes no Colégio Pio Brasileiro, entre os quais estava o meu amigo cardeal, se apresentaram para uma conferência, com o propósito de que cada um expusesse suas impressões, seu ponto de vista. Dom Falcão, direto e tranchant como sempre se demonstrou, falou pouco, mas disse: “Eu não queria que o papa morresse, não. Mas, se eu morresse sem participar de um conclave, eu iria morrer muito frustrado!”. Algum tempo antes, ele já havia dito que, no ocasião em que fora feito cardeal, em 1988 – quando eu era apenas um jovem seminarista menor, e nem o conhecia ainda – o chefe das cerimônias pontifícias asseverara o seguinte: “Vocês, novos cardeais, nem pensem em participar de um conclave, porque esse papa, aí, vai longe! Ele vai conduzir a Igreja até depois da virada do milênio”. E concluiu: “Ele quase acertou!”.

Na verdade, com a idade limite de 80 anos para ter direito a voto no conclave, Dom Falcão já estava com 79 anos e seis meses. Ou seja, estava quase no prazo de validade! Faltavam seis meses apenas. Mas que bom que ele conseguiu. Inclusive, em Roma, uma jornalista lhe perguntou se ele não seria candidato ao papado. Sua resposta ferina e imediata não poderia ter sido mais clara e virulenta do que a própria perguntada da repórter: “Pois é, não é? Todos os cardeais do conclave somos candidatos!”. Uma resposta fina para uma jornalista imprevisível.


Sobre a sua nomeação para ser arcebispo da Arquidiocese de Brasília, entra em cena a história de um “visionário”, que o profetizara. Ele contou que sabia do fato de que, um cidadão do interior do Ceará, dizia tê-lo como o candidato mais provável para suceder Dom José Newton em frente ao pastoreio da Capital Federal. E o próprio Dom Falcão reconhecia não estar entre os mais cotados. Todavia, segundo a afirmação do visionário, seria ele mesmo, porque o então mais cotado estava muito doente e iria “morrer louco”, isto é, sem o devido domínio das faculdades da razão. Dom Falcão sabia da existência do vaticinador, soube do relato – também não sei quem lho contara – e, a partir daquela ciência, declarou que gostaria de, um dia, encontrar-se com o sonhador. Algum tempo depois, ele teve a oportunidade do encontro, embora o sujeito já se encontrasse cego. Por ocasião da visita, nas palavras do próprio Dom Falcão, “ele me reconheceu como sendo aquele da visão”. Era um homem simples, piedoso, que fora tomado por aquela percepção interior sem ter maiores explicações para tal fenômeno. Para Dom Falcão, tratava-se de um “santo”, daqueles que, como na expressão de Jacques Maritain, “nunca seriam oficialmente canonizados”. No entanto, Dom Falcão contou-nos outro fato curioso sobre a morte desse cidadão. Ele gostaria de ser enterrado na sua terra natal, mas era muito pobre e não teria condições de realizar o desejo post-mortem.

Alguém levou seu codicilo ao conhecimento de Dom Falcão, que prontamente se responsabilizou pelas despesas na ocasião do velório e do enterro ainda por virem. No entanto, tudo combinado, aquele que recebera a incumbência da inumação foi, fez tudo segundo a vontade do morto, mas, voltando para casa, no mesmo dia, sofreu um acidente e morreu, de modo que Dom Falcão não soube mais onde o vidente fora sepultado. Ao narrar-nos o acontecido, Dom Falcão externou o seguinte anelo: “Eu gostaria que ele me visitasse num sonho, para me dizer onde foi enterrado, e eu poder visitar o seu túmulo”. Do jeito que Dom Falcão tinha medo da morte e dos mortos, eu gritei: “Não chame, não, Dom Falcão, que ele vem. E o senhor morre só de medo!”. De fato, grande era a sua consideração e estima pelo suposto vidente que se escondeu do mundo sem dar ao arcebispo a localidade de onde repousam seus restos mortais.

Dom Falcão parecia uma criança contando suas peripécias aos amiguinhos. De uma naturalidade tão espontânea, que poderíamos confundir entre ingenuidade e simplicidade mesmo. Quando, por exemplo, Bento XVI quis visitar a Turquia, em 2006, Dom Falcão esteve em Roma e disse: “Ele é muito corajoso! Se eu fosse ele, eu não iria não. Lá no Brasil, os videntes estão dizendo que ele pode ser assassinado”. De fato, a conjuntura sócio-política não parecia favorável à sua presença no país naquele momento, sobretudo, porque ele, ainda cardeal, se declarara contra o ingresso da Turquia na Comunidade Europeia. Talvez, desejando desfazer o mal-entendido, assim que chegou em Ancara, ainda no aeroporto, fez questão de afirmar que estaria totalmente de acordo em relação à entrada do país de maioria muçulmana na União Europeia. Todavia, Dom Falcão foi tirar sua dúvida sobre a iminência do que preanunciavam os videntes brasileiros num túmulo que, segundo ele, começava a gotejar se, porventura, o papa estivesse perto de morrer. Parece hilariante – realmente eu ri bastantes também – mas o meu amigo Cardeal se saiu com essa: “Na Basílica de São João do Latão, há um túmulo de onde começa a escorrer água quando o papa está perto de morrer. Eu fui lá, passei a mão, e estava tudo enxutinho, enxutinho!”. E eu brincava com ele, dizendo: “Nosso amigo cardeal é supersticioso”. Era o modo divertido de como ele sempre se demonstrava brincalhão diante de coisas sérias para as quais o espírito humano, frequentemente, não consegue se adequar para a serenidade luminosa de sua autoconsciência. Com efeito, na bruma das nossas certezas, o fenômeno da morte “é o mistério que abraça a nossa consciência e nos confere o selo radical da nossa solidão mais profunda. Cada um vive a sua própria morte como fonte de transformação, na esperança da imortalidade”. (Santos). Descanse na Paz do Senhor, meu amigo!  (PGRS).