domingo, 28 de agosto de 2011

Gladium Spiritus Verbum Dei

Gladium Spiritus Verbum Dei 



A frase encontra-se na Carta de São Paulo aos Efésios: “E tomai o capacete da salvação e espada do Espírito, que é a Palavra de Deus” – gladium Spiritus quod est verbum Dei (Ef 6,17). A palavra de São Paulo aparece no contexto em que os cristãos são exortados e motivados pelo Apóstolo a se prepararem, com a devida armadura, para o combate espiritual: “Fortalecei-vos no Senhor e na força de seu poder. Revesti a armadura de Deus, para poderdes resistir às insidias do diabo” (Ef 6,10).
A literatura paulina aborda dois termos que traduzem a mesma realidade da importância da palavra de Deus na vida dos cristãos: “Capacete da salvação e espada do Espírito”. Antes, porém, de sua compreensão mais imediata, convém recordar a grandeza desses vocábulos em língua grega, como no texto original da Sagrada Escritura. Na verdade, trata-se de termos de guerra, usados em sentido militar. O capacete, todo mundo sabe, deve ser colocado sobre a cabeça. Falam os historiadores, por exemplo, que a luta dos gladiadores era considerada um esporte danoso por causa da grande pressão que fazia o capacete sobre a cabeça do indivíduo. A palavra grega usada é “perikephalaia”, isto é, “em derredor da cabeça”, e aparece, em todo o Novo Testamento, somente duas vezes, assumindo uma acepção teologicamente metafórica. Segundo os estudiosos, tanto em 1Ts 5,8 quanto em Ef 6,17, faz referência a Is 59,17, em que Deus é apresentado como o sujeito da construção literária, determinando sua própria ação salvífica. Na consideração do exegeta Oepke, a salvação final assegurada aos crentes pela obra salvífica de Deus deve envolver e proteger a cabeça tal e qual um capacete. Portanto, colocar o capacete significa que se pode enfrentar a luta iniciada contra as potências tenebrosas do mal, que querem impedir a libertação, tendo plena confiança na salvação oferecida.
Ao lado da couraça, temos também a espada, que o grego traduz por “machaira”, e aparece 29 vezes no NT. Raramente, assume o significado de “faca”, como em Js 5,1, quando Deus pede a Josué que faça “facas de pedra” para circuncidar o povo que conquistara a terra prometida, ou em Gn 22,6, quando Deus pede que Abraão sacrifique o seu filho Isaac. Fora desses contextos, refere-se a uma arma de guerra, a espada propriamente dita, sobretudo, em situações concretas do NT, como no caso dos inimigos de Jesus que o vão procurar acompanhados de Judas “com espadas e paus” (Mt 26,47). São Paulo dilata o horizonte de sua percepção e atribui um valor alegórico e, portanto, figurado à “espada do Espírito” para aludir à Palavra de Deus. Não por acaso, a Carta aos Hebreus fala que “a palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes” (Hb 4,12). Nessa linha de raciocínio, a preocupação de São Paulo é a de que os cristãos, empunhando o escudo da fé e da palavra divina, possam extinguir os dados inflamados do Maligno (Ef 6,16).
Na tentação de Jesus, narrada pelos evangelistas, sabemos que ele enfrentou as armadilhas do tentador, também, recorrendo à Palavra de Deus, que ele as tinha gravado na sua inteligência. Da mesma maneira, é muito importante que os seus seguidores também possam, conhecendo e aprofundando cada vez mais as Sagradas Escrituras, servir-se delas para vencer a luta no campo da espiritualidade, em que forças contrárias à vontade divina tentam precipitar os filhos de Deus longe de sua presença. Assim, lendo com calma e serenidade a “Carta Magna” de Deus para a humanidade – a Bíblia –, estaremos reforçando as armas do espírito para vencer, nos limites vulneráveis da vontade, as inspirações maléficas do que não é justo, bom e agradável aos olhos de Deus. Às vezes, perdemos tanto tempo na apreciação de leituras banais, sem fontes autênticas de verdadeiras moções que nos apontem a direção do alto, das coisas sublimes de nossa plena realização. Mas, a palavra de Deus nos indica o endereço do céu. Ela contém as leis do trânsito espiritual de nossa peregrinação terrestre.
O salmista não se cansa de nos advertir: “As palavras de Iahweh são palavras sinceras, prata pura saindo da terra, sete vezes refinada” (Sl 12,7); “Que te agradem as palavras de minha boca e o meditar do meu coração, sem treva em tua presença, Iahweh, meu rochedo, redentor meu!” (Sl 19,15); “Pois a palavra de Iahweh é reta, e sua obra toda é verdade; ele ama a justiça e o direito, a terra está cheia do amor de Iahweh” (Sl 33,4); “Lembrando-se de sua palavra sagrada ao servo Abraão, fez seu povo sair com alegria, seus eleitos com gritos jubilosos” (Sl 105,42); “E gritaram a Iahweh na sua aflição: ele os livrou de suas angústias. Enviou sua palavra para curá-los, e da cova arrancar a sua vida” (Sl 107,20); “Como um jovem conservará puro o seu caminho? Observando a tua palavra. Eu te busco de todo o coração, não me deixes afastar dos teus mandamentos” (Sl 119,9-10); “Iahweh, tua palavra é para sempre, ela está firme no céu; tua verdade continua, de geração em geração: fixaste a terra, e ela permanece” (Sl 119,89-90); “Tua palavra é lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho” (Sl 119,105); “O princípio de tua palavra é verdade, tuas normas são justiça para sempre” (Sl 119,160). São expressões ricas do valor e da importância da palavra de Deus na vida de homens e mulheres de boa vontade que se deixam iluminar por ela.
No caso específico da pregação de São Paulo, durante momentos difíceis de perseguição e ódio, ele sabia que não estava apenas lutando contra as resistências de pessoas singulares ou de grupos ideológicos da época, que tentavam refrear o anúncio do evangelho, inclusive, com a prisão dos seguidores de Cristo. Mais radicalmente ainda, São Paulo tinha consciência de que o combate não era somente “contra o sangue nem contra a carne, mas contra os Principados, contra as Autoridades, contra os Dominadores deste mundo de trevas, contra os Espíritos do Mal, que povoam as regiões celestiais” (Ef 6,12). Consequentemente, quanto maior for a consciência da influência dessas realidades sobrenaturais na vivência cristã, mais se deve estar munido do conhecimento da palavra de Deus a fim de superar os conflitos do quotidiano.
A bem da verdade, se quisermos treinar a intimidade com Deus na reflexão silenciosa sobre o sentido de sua suprema vontade em nossa vida, não podemos dispensar o mérito da leitura diária de sua palavra, que nos orienta o querer e o agir em profunda sintonia com o anseio da liberdade interior que nos faz progredir no caminho da perfeição querida por Deus para todos os seus filhos.





A vida que não vale nada


A vida que não vale nada!! 



Há alguns dias, eu ouvi numa rádio de Aracaju, um cidadão falando, profundamente indignado e consternado, aflito, sobre o fato de terem encontrado o corpo de uma criança recém-nascida, totalmente comida pelos urubus, num lixão a céu aberto. Além da brutalidade do fato em si, parece que a criança fora devorada viva pelas necrofágicas aves negras. Uma vida inocente jogada no lixo, sem a mínima possibilidade de defesa, de autodefesa. Sem condições de defender-se de seus irracionais agressores. Na sociedade moderna, cheia de autossuficiência e senhorio de si mesma, a vida humana não vale nada, não vale mais do que nada.
Que culpa tem uma criança de ser gerada, mesmo se em situações violentas de estupro, a fim de que, quando nascida, seja precipitada, irresponsavelmente, no monturo?. Dentro dos limites de nossa diabólica racionalidade, haveria alguma legitimação válida para tamanha barbárie?. Como o alucinógeno estado de espírito de uma mãe permite que ela se comporte pior do que um animal?. Quanto realmente vale a vida humana nesse joguete perverso e satânico da falsa liberdade que as pessoas julgam ter?. “O filho é meu, e eu faço dele o que bem quiser ou entender!”. Não é verdade. Nenhuma mãe é proprietária de seu filho para chegar às raias de tamanha loucura, de tão abstrusa insanidade. O fato é que a preciosidade do dom da vida é um dom de Deus, o único capaz de levar a sério o seu projeto criador. Mesmo os que foram e são abortados antes de nascerem nas oficinas de satanás, clandestinas ou não, são frutos do poder criador divino. Portanto, não podem ser manipulados pela delinquência covarde de quem não lhes deu corpo, alma, vida.
A sociedade do descartável joga crianças e velhos no lixo. Ambos indefesos, são atirados no lixo da indiferença, do desprezo, da inutilidade, da não funcionalidade. Crimes aberrantes fazem com que seres humanos tenham a sua dignidade triturada pela ganância de uns poucos. Um apelo à vida é necessário em conjunturas tão degradantes quanto assustadoras e deprimentes. Tomado pela irracionalidade – uma característica que denigre e contraria a essência do “homo sapiens” – o bicho homem torna-se o pior dos animais. Precisamos considerar mais o valor da vida humana. A Constituição Federal que, logo no início, assegura o direito de todos à vida – “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se [...] a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, e à propriedade [...]” (Art. 5º) – não chega à consciência educativa de não poucos cidadãos. Se negamos a vida a quem quer que seja, esperado ou não, planejado ou não, favorecendo ou permitindo assassinados crudelíssimos de quem se aproxima da porta da existência, o que mais poderíamos garantir-lhe?. Sem vida, sem nada!. Não somos senhores da vida nem da morte. Não somos donos de ninguém. Nem o Estado, com toda a sua super-proteção interesseira e arrogante, é dono de ninguém. Que segurança, de fato, o Estado concede aos indefesos, em todas as classes do desprestígio que envolve e acoberta a degradação das pessoas?. Que patrocina a indecência e a espoliação brutal de seus mais sublimes direitos?.
Depois, ainda queremos abrir as portas do diálogo para liberação da maconha, do crack, do oxi e de tantas outras liberações desmoralizantes, como se não bastasse o vulcão de imoralidade e corrupção política ou de violência que todos os dias agridem a vulnerabilidade dos pequenos. E ainda reclamamos dos jovens delinquentes, incontroláveis, que derramam sua ira e sua raiva nos quebra-quebras de tudo o que veem pela frente, tentando externar a carência do que a vida mergulhada no caos lhes roubou sem nenhum direito. Esse é o homem, o animal irracional, que não consegue mais levantar-se do chão, como poderia sugerir-lhe o espírito aberto aos altos páramos de sua própria transcendência. Limitado pelo inferno de suas escolhas, às vezes, malignas e sem tino, ele permanecerá o cão impiedosamente raivoso que devora o seu semelhante na inconsciência absurda do que deveria ser a sua lúcida responsabilidade. A cultura de morte deve ser contida, detida. Cada vida humana é valiosa aos olhos de Deus, e precisa ser respeitada na sua integral dimensão existencial, do início ao fim do tempo, cuja duração foi determinada pelo criador, único Senhor de tudo e de todos. Portanto, nossa realidade humana não pode prender-se aos mitos da antiguidade grega ou egípcia, em que o deus Úrano devolvia seus filhos ao seio materno, de onde haviam saído, trucidando-os, com medo de ser destronado pela geração sucessora. A vida humana não é um mito desvairado de nossa demente fantasia demagógica de caráter fabuloso.
A voz é do Papa Bento XVI: “O homem não é um átomo perdido num universo causal, mas é uma criatura de Deus, à qual quis dar uma alma imortal e que desde sempre amou. Se o homem fosse fruto apenas do acaso ou da necessidade, se as suas aspirações tivessem de reduzir-se ao horizonte restrito das situações em que vive, se tudo fosse somente história e cultura e o homem não tivesse uma natureza destinada a transcender-se numa vida sobrenatural, então, poder-se-ia falar de incremento ou de evolução, mas não de desenvolvimento. Quando o Estado promove, ensina ou até impõe formas de ateísmo prático, tira aos seus cidadãos a força moral e espiritual indispensável para se empenharem no desenvolvimento integral e impede-os de avançarem com renovado dinamismo no próprio compromisso de uma resposta humana mais generosa ao amor divino”. Destarte, convém que redescubramos o “Evangelho da Vida”, como também intuía o Beato Joao Paulo II: “A Igreja sabe que o Evangelho da vida, recebido do seu Senhor, encontra um eco profundo e persuasivo no coração de cada pessoa, crente e até não-crente, porque, se ele supera infinitamente as suas aspirações, também lhes corresponde de maneira admirável. Mesmo por entre dificuldades e incertezas, todo homem sinceramente aberto à verdade e ao bem pode, pela luz da razão e com o secreto influxo da graça, chegar a reconhecer, na lei natural inscrita no coração (cf. Rm 12,14-15), o valor sagrado da vida humana desde o seu início até o seu término, e afirmar o direito que todo ser humano tem de ver plenamente respeitado esse bem primário. Sobre o reconhecimento de tal direito é que se funda a convivência humana e a própria comunidade política”.
A vida precisa ser resgatada pelo milagre do amor, da generosidade, da doação de si à edificação do outro. Como diria o Cardeal Van Thuan, servo de Deus, quando o amor abandona o coração humano, quando nele se levanta o mar do egoísmo e da vingança [assassina], é que está próximo o momento da exterminação. Assim, nada mais terá sentido no horizonte de nossa humanidade destruída, falida, deteriorada e consumida pela ferrugem da morte. Sim, uma centelha de amor pode incendiar o mundo inteiro e proteger a sacralidade da vida onde ela se encontra mais frágil e ameaçada. Faça sua parte onde você vive dentro de sua própria casa, junto aos seus, no trabalho, na escola, na oficina, na rua, enfim, em qualquer lugar aonde possa chegar a certeza de que a nossa humanidade será melhorada pela concretude do amor generoso, desinteresseiro, gratuito, que salva a todos do destino da breve morte que solapa o futuro dos pequenos.
Coloque-se à prova. Não seja mesquinho, hesitante nem colaborador do mal. Provoque em seu derredor o incêndio do amor, e o mundo iluminar-se-á pela esperança da vida, na força do abraço de todos nós. Com efeito, a vida em abundância que Cristo prometeu a todos (Jo 10,10), também, depende da generosidade do acolhimento com que nos abrimos à benemerência de sua infinita e operosa gratuidade.




terça-feira, 23 de agosto de 2011

Bento XVI e a Juventude: sexo, droga e rock'n'roll

Bento XVI e a Juventude: Sexo, Droga e Rock’n’ roll 



Confesso que gostaria de ver a cara e os olhos dos leitores que se encontram diante de um tema como este: “Bento XVI e a Juventude: sexo, droga e rock’n’roll”. Imagino sua inteligência, vendo brilhar o desvario desnorteante do padre escritor, como se a falta do que fazer ou do que dizer soprasse forte sua fantasia dialética. Posso até intuir e vislumbrar a mente do leitor agitada sob o efeito devastador do delírio do padre. Mas, vamos supor, de maneira absurda, que o título acima correspondesse à verdade esperada por alguns desorientados.
Sim, se fosse verdade, com certeza o leitor já estaria farto, totalmente saturado, com a enxurrada de informações e detalhes escandalosos, envolvendo a figura do Santo Padre. Sem dúvida nenhuma, os veículos de comunicação de massa televisiva e impressa já teriam envenenado, à saciedade, todas as oportunidades sensacionalistas, a fim de denegrir sua imagem, com todas as consequências devastadoras das inverdades projetadas sobre ele e os jovens em seu derredor. Porém, o Papa não reúne jovens para fomentar a promiscuidade patrocinada pela indústria gananciosa de preservativos, incitando à depravação e à libertinagem do “transe o máximo que puder, contando que use camisinha”; ele não arrebanha jovens para fazer valer a legalização do aborto nem a falsa legitimidade dos antivalores, convencionada por uma sociedade doentia e medíocre, que não se dá conta de suas próprias aberrações; ele não chama os jovens à passeata da liberação da maconha e de outras drogas afins, que destroem a dignidade da pessoa e matam as disposições do espírito para liberdade do autêntico domínio de si; ele não lidera nenhuma passeata gay. Muito pelo contrário, seu papel de pastor e guia visível do rebanho do Senhor Jesus Cristo, do rebanho da Igreja de Cristo, vai numa direção totalmente diferente quanto aos apelos hedonistas e autossuficientes do mundo moderno. Seu discurso parece ser a “a voz que clama no deserto” da indiferença dos que buscam alicerçar sua vida longe de Deus, único fundamento possível à superação dos conflitos violentos da desintegração do homem e de sua dignidade. Todavia, o discurso do papa é uma lente de aumento que consegue atingir a essência das coisas num mundo maluco e marginal à voz do evangelho de Cristo.
Reunido com milhares e milhares de jovens de mais de 170 países, numa verdadeira olimpíada da fé, Cristo tornou-se o vencedor e ganhador merecido da alma de tantos jovens que aderem ao seu projeto de felicidade e escutam a voz do Papa. Sim, o Sumo Pontífice tem consciência da urgência de modelos seguros de que os jovens precisam para viver o ideal cristão. Cristo é o exemplo maior e a garantia viva da resposta verdadeira à busca da juventude. Ele é o “otimismo radical” como antídoto a todo tipo de desequilíbrio e ausência de domínio, que descaracterizam a sacralidade da vida humana. Assim, diante dos desafios contemporâneos à vivencia da fé, o Papa Bento XVI exorta a juventude católica a não desistir, nunca, de alimentar o desejo de profunda intimidade com Cristo, conhecendo-o melhor e amando-o como somente ele o merece. Eis o convite do Papa: “Aproveitai estes dias para conhecer melhor a Cristo e inteirar-vos de que, enraizados n’Ele, o vosso entusiasmo e alegria, os vossos anseios de crescer, de chegar ao mais alto, ou seja, a Deus, têm futuro sempre assegurado, porque a vida em plenitude já habita dentro do vosso ser. Fazei-a crescer com a graça divina, generosamente e sem mediocridade, propondo-vos seriamente a meta da santidade. E, perante as nossas fraquezas, que, às vezes, nos oprimem contamos também com a misericórdia do Senhor, sempre disposto a dar-nos de novo a mão e que nos oferece o perdão no sacramento da Penitência”. E mais: “Edificando-a sobre a rocha firme, a vossa vida será não só segura e estável, mas contribuirá também para projetar a luz de Cristo sobre os vossos coetâneos e sobre toda a humanidade, mostrando uma alternativa válida a tantos que viram a sua vida desmoronar-se, porque os alicerces da sua existência eram inconsistentes: a tantos que se contentam com seguir as correntes da moda, se refugiam no interesse imediato, esquecendo a justiça verdadeira, ou se refugiam em opiniões pessoais em vez de procurar a verdade sem adjetivos”.
Com o Papa Bento XVI, a Jornada Mundial da Juventude continua – segundo as intenções do Beato Joao Paulo II, que as fundou em Roma, no Domingo de Ramos de 1994 – sendo um marco válido para que, de modo mais próximo e objetivo, o guia do rebanho possa confirmar, também, a fé de seus irmãos jovens, de igual modo, seguidores de Cristo. De fato, como ouvi por uma emissora de televisão católica, que transmitiu todos os momentos mais importantes do evento, “jovem não significa barulho e bagunça, mas, oração e reconciliação”. E é verdade!. Infelizmente, nossa juventude, muitas vezes, encontra-se perdida, sem rumo nem direção, com os modelos falidos e nada edificantes, que patrocinam a apologia ao sexo, à droga e às aberrações e promiscuidade de todo tipo, na corrida infrene e devastadora de satisfação às taras mais efervescentes dos instintos mais primários dos desajustes comportamentais. Baladas e pegações, bolinagens e esfregações, e tantos outros desníveis de xumbregação, estão fora do que o Papa tenta transmitir aos jovens católicos. E, com certeza, tudo isso soa mal aos ouvidos surdos da modernidade que apenas ouve o que lhe interessa de modo imediato e vantajoso. Por isso que o Papa lembra aos jovens a necessidade de Deus para uma vida conforme seu plano de felicidade para o homem: “Há muitos que, julgando-se deuses, pensam que não têm necessidade de outras raízes nem de outros alicerces para além de si mesmo. Desejariam decidir, por si sós, o que é verdade ou não, o que é bom ou mau, justo ou injusto; decidir quem é digno de viver ou pode ser sacrificado nas aras de outras preferências; em cada momento dar um passo à sorte, sem rumo fixo, deixando-se levar pelo impulso de cada instante. Estas tentações estão sempre à espreita. É importante não sucumbir a elas, porque na realidade conduzem a algo tão fútil como uma existência sem horizontes, uma liberdade sem Deus”.
Sem desconhecer o dom sublime da liberdade com que fomos criados “à imagem de Deus”, o Papa insiste com firmeza e serenidade: “Sabemos bem que fomos criados livres, à imagem de Deus, precisamente para ser protagonistas da busca da verdade e do bem, responsáveis pelas nossas ações e não meros executores cegos, colaboradores criativos com a tarefa de cultivar e embelezar a obra da criação. Deus quer um interlocutor responsável, alguém que possa dialogar com Ele e amá-Lo. Por Cristo, podemos verdadeiramente consegui-lo e, radicados n’Ele, damos asas à nossa liberdade. Porventura não é este o grande motivo da nossa alegria? Não é este um terreno firme para construir a civilização do amor e da vida, capaz de humanizar todo homem?”. Eis, pois, que o Papa prossegue orientando os jovens: “Sede prudentes e sábios, edificai as vossas vidas sobre o alicerce firme que é Cristo. Esta sabedoria e prudência guiarão os vossos passos, nada vos fará tremer e, em vosso coração, reinará a paz. Então sereis bem-aventurados, ditosos, e a vossa alegria contagiará os outros. Perguntar-se-ão qual seja o segredo da vossa vida e descobrirão que a rocha que sustenta todo o edifício e sobre a qual assenta toda a vossa existência é a própria pessoa de Cristo, vosso amigo, irmão e Senhor, o Filho de Deus feito homem, que dá consistência a todo o universo. Ele morreu por nós e ressuscitou para que tivéssemos vida, e agora, junto do trono do Pai, continua vivo e próximo a todos os homens, velando continuamente com amor por cada um de nós”.
Que bela festa da Igreja de Cristo aconteceu em Madri, na Espanha, enquanto tão poucos meios de comunicação se interessaram em transmitir com mais disposição e vontade no intento de demonstrar que a voz do Papa ainda encontra eco no meio da juventude sedenta de Deus e do amor que ele quer transmitir-lhe!. Em 2013, festa desse nível será realizada no Rio de Janeiro, esperando contar com mais de dois milhões de jovens do mundo inteiro. Vamos esperar com alegria e entusiasmo!. Que também entre nós, esteja o Santo Padre, o Papa Bento XVI, na ocasião, no alto de seus 87 anos. No Ângelus do Domingo passado, encerrando seu compromissos na XXVI Jornada Mundial da Juventude, sua saudação aos jovens de língua portuguesa dizia: “Queridos jovens e amigos de língua portuguesa, encontrastes Jesus Cristo! Sentir-vos-eis em contracorrente no meio duma sociedade onde impera a cultura relativista que renuncia a buscar e a possuir a verdade. Mas foi para este momento da história, cheio de grandes desafios e oportunidades, que o Senhor vos mandou: para que, graças à vossa fé, continue a ressoar a Boa Nova de Cristo por toda a terra. Espero poder encontrar-vos daqui a dois anos, na próxima Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, Brasil. Até lá, rezemos uns pelos outros, dando testemunho da alegria que brota de viver enraizados e edificados em Cristo. Até breve, queridos jovens! Que Deus vos abençoe!”. E nós dizemos: Amém.





sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A Juventude da Igreja de Cristo

A Juventude da Igreja de Cristo 


Em Madri, na Espanha, o Papa Bento XVI encontra-se com a Juventude da Igreja de Cristo na já conhecida JMJ (Jornada Mundial da Juventude), que está na sua XVI edição. Inspirada pelo Beato Joao Paulo II, as Jornadas Mundiais da Juventude nasceram em 1984, no Domingo de Ramos, em Roma. De lá para cá, o Papa sempre teve a oportunidade de encontrar-se com jovens católicos do mundo inteiro para aprofundar a fé e a radicalidade de suas exigências vividas por amor a Cristo.
Na vigésima sexta edição, em Madri, o Papa Bento XVI, seguido por jovens católicos do mundo inteiro, assim os saudou no acolhimento: “Na leitura que há pouco foi proclamada, ouvimos uma passagem do Evangelho onde se fala de acolher as palavras de Jesus e de as pôr em prática. Há palavras que servem apenas para entreter, e passam como o vento; outras instruem, sob alguns aspectos, a mente; as palavras de Jesus, ao invés, têm de chegar ao coração, radicar-se nele e modelar a vida inteira. Sem isso, ficam estéreis e tornam-se efêmeras; não nos aproximam d’Ele. E, deste modo, Cristo continua distante, como uma voz entre muitas outras que nos rodeiam e às quais estamos habituados”. Fundamentado na Sagrada Escritura, sobretudo, à luz de tudo o que Cristo viveu e ensinou, o Papa fala do valor de palavras seguras, que sejam alimento de intimidade com o Deus, o Pai de Jesus Cristo. De fato, vivendo no meio de correntes turbulentas e contrárias à vontade de Deus, nenhum homem poderá, jamais, encontrar o caminho da felicidade plena, como, não apenas anseia o mundo moderno, mas, também, tem demonstrando pouco interesse pela fidelidade aos princípios de retidão e vivência serena dos valores cristãos. Aliás, aqueles que pensam ser donos de si mesmos e de seus projetos falidos pela superficialidade de uma vida vazia e sem sentido, nada mais fazem do que cavar o abismo da infelicidade para o qual são arrastados pela teimosia do distanciamento de Deus. No seu discurso, o Papa Bento XVI insistia: “Além disso, o Mestre que fala não ensina algo que aprendeu de outros, mas o que Ele mesmo é, o único que conhece verdadeiramente o caminho do homem para Deus, pois foi Ele que o abriu para nós, que o criou para podermos alcançar a vida autêntica, a vida que sempre vale a pena viver em todas as circunstâncias e que nem mesmo a morte pode destruir. O Evangelho continua explicando estas coisas com a sugestiva imagem de quem constrói sobre a rocha firme, resistente às investidas das adversidades, contrariamente a quem edifica sobre a areia, talvez numa paisagem paradisíaca, poderíamos dizer hoje, mas que se desmorona à primeira rajada de ventos e fica em ruínas”.
Ao lado de protestos desnecessários, fomentados por grupos radicais, perdidos e desorientados na vida, as palavras do Papa fazem eco no coração dos jovens católicos que sabem o que querem, o que fazem e por que estão ali, reunidos em derredor do Pastor visível da Igreja de Cristo que confirma os seus irmãos na fé. Portanto, não se trata de um “show business” da fé, em que a agitação frívola de consequências financeiras chama à baila jovens inquietos em busca de coisas extraordinárias. Na verdade, as palavras de Cristo ainda encontram ressonância profunda na vida de muitos jovens em nossas comunidades paroquiais. O Papa sabe das angústias e dos conflitos espirituais e interiores por que os cristãos passam no quotidiano de seu testemunho a Cristo, e os jovens também participam, com convicção e generosidade, dos desafios de sua fé. Por isso que o Santo Padre os adverte: “Bem sabeis que, quando não se caminha ao lado de Cristo, que nos guia, extraviamo-nos por outras sendas como a dos nossos próprios impulsos cegos e egoístas, a de propostas lisonjeiras, mas interesseiras, enganadoras e volúveis, que atrás de si deixam o vazio e a frustração”. É um momento único na vida dos jovens que se reúnem para rezar com o Papa, são dias que devem bem ser aproveitados, como afirma o Sucessor de Pedro, “para conhecer melhor a Cristo e inteirar-vos de que, enraizados n’Ele, o vosso entusiasmo e alegria, os vossos anseios de crescer, de chegar ao mais alto, ou seja, a Deus, têm futuro sempre assegurado, porque a vida em plenitude já habita dentro do vosso ser. Fazei-a crescer com a graça divina, generosamente e sem mediocridade, propondo-vos seriamente a meta da santidade. E, perante as nossas fraquezas, que às vezes nos oprimem contamos também com a misericórdia do Senhor, sempre disposto a dar-nos de novo a mão e que nos oferece o perdão no sacramento da Penitência”.
É uma pena que muitas pessoas fiquem privadas do conhecimento mais anunciado das Jornadas Mundiais da Juventude e de seu conteúdo!. Na há interesse das emissoras nacionais e internacionais, de grande porte e alcance, em divulgar eventos desse tipo. A perversidade maligna de jornalismos sensacionalistas não apresenta quase nada do que realmente seja significativo para o mundo em crise. O Cristianismo não dá ibope nem patrocina a possibilidade de vantagem financeira aos grupos preconceituosos em relação às coisas da igreja de Cristo. Quando da reação dos homossexuais, que deflagraram o beijo gay, como se a presença do Papa fosse um afrodisíaco às suas depravações irracionais e pagãs, todo mundo ficou sabendo, mas não ouvimos, nem sequer, uma frase que fosse edificante do discurso do Papa, que – imagino – deve divertir-se com as provocações raivosas e atrevidas ao vislumbre de sua pessoa. É um fenômeno, no mínimo curioso: quando na Europa – na Itália, ou na Alemanha, por exemplo – um casal gay se depara com um religioso ou um padre, a esfregação é acintosa, como se tivéssemos alguma coisa a ver com a vida deles. Presenciei muito isso!. Coitados!. No caso do Papa, silencioso como o “Bom Pastor”, ele passa adiante no caminho de sua missão, deixando-se ser atraído semente por aqueles que se interessam pela sua voz, pela sua palavra: “Edificando-a sobre a rocha firme, a vossa vida será não só segura e estável, mas contribuirá também para projetar a luz de Cristo sobre os vossos coetâneos e sobre toda a humanidade, mostrando uma alternativa válida a tantos que viram a sua vida desmoronar-se, porque os alicerces da sua existência eram inconsistentes: a tantos que se contentam com seguir as correntes da moda, se refugiam no interesse imediato, esquecendo a justiça verdadeira, ou se refugiam em opiniões pessoais em vez de procurar a verdade sem adjetivos”.
E o Papa segue, sem medo de errar: “Sim, há muitos que, julgando-se deuses, pensam que não têm necessidade de outras raízes nem de outros alicerces para além de si mesmo. Desejariam decidir, por si sós, o que é verdade ou não, o que é bom ou mau, justo ou injusto; decidir quem é digno de viver ou pode ser sacrificado nas aras de outras preferências; em cada momento dar um passo à sorte, sem rumo fixo, deixando-se levar pelo impulso de cada instante. Estas tentações estão sempre à espreita. É importante não sucumbir a elas, porque na realidade conduzem a algo tão fútil como uma existência sem horizontes, uma liberdade sem Deus”. Não são discursos vazios, mas plenos da convicção inquieta e constrangedora de quem reconhece que o mundo pretende caminhar sem referência segura ao Deus que o criou e o preserva, pelos séculos afora, ao seu verdadeiro fim. Então, o Santo Padre confia os frutos da Jornada Mundial da Juventude “à Santíssima Virgem, que soube dizer ‘sim’ à vontade de Deus e nos ensina, como ninguém, a fidelidade ao seu divino Filho, que acompanhou até à sua morte na cruz. Meditaremos tudo isto mais pausadamente ao longo das diversas estações da Via-Sacra. Peçamos para que o nosso ‘sim’ de hoje a Cristo seja também, como o d’Ela, um ‘sim’ incondicional à sua amizade, no fim desta Jornada Mundial e durante toda a nossa vida”.
Os jovens católicos escutam a voz de Cristo e do Papa. Não importam os aplausos do mundo. Cada seguidor de Cristo sabe que rema contramaré em relação aos golpes de ufanismo da autossuficiência e libertinagem modernas. O fato é que o furacão do tempo vai engolir a todos, mas, quem estiver firme em Cristo não sofrerá as incongruências das vicissitudes momentâneas, mas será transformado na plenitude da vida nova que ele nos presenteou.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

As Mulheres chegaram à frente!

As Mulheres chegaram à frente!! 



A vida histórica de Cristo sempre esteve envolvida pelo mistério da presença das mulheres. Elas chegaram à frente!. Apesar da cultura machista, muitas vezes acusada, com razão, de desvalorizar e desprestigiar a figura feminina, elas estão num plano superior ao dos homens quando olhamos para o início do papel que lhe coube na história da salvação. Criados à imagem e semelhança divinas, homem e mulher, cada um na sua singularidade, participam de todos os dons espirituais que Deus lhes dispensa no processo salvador da encarnação de seu divino Filho.
Por conta do preconceito e da confusão gerada pela dificuldade de compreendermos o alcance do significado do termo “homem”, enquanto um terno genérico para o que entendemos por “homem e mulher”, isto é, a nossa humanidade, de uns tempos para cá, instaurou-se o problema, suscitado pelas feministas, de que, para combater o machismo, agora, os gêneros dos dois sexos devem ser colocados lado a lado, como por exemplo, no discurso: “prezado pai e prezada mãe!”. Dizer apenas “prezados pais” descaracteriza ou relega a importância de um dos dois ao desprezo da cultura machista ou feminista. Penso que são complicações desnecessárias ao respeito devido a todos. Pelos menos, até onde sei, os gramáticos ainda não definiram novas regras gramaticais que contemplem a possibilidade de desfazer a beleza estética quando temos de ler citações do tipo “dos/as excluídos/as”, “os/as alunos/as”. Assim como o terno homem engloba o gênero humano, isto é, homem e mulher, preocupações desse tipo deveriam ser superadas pela elasticidade criativa de nossa mentalidade. Quando, por exemplo, eu afirmo que “as mulheres chegaram à frente”, não estou querendo dizer que os homens ficamos para trás. Muito pelo contrário, quando eu afirmo “mulheres”, faço referência ao gênero humano, à nossa humanidade, enfim, a todos nós.
Vasculhando o vocabulário do Antigo Testamento, encontramos o termo hebraico ’ādām, que significa “homem, a espécie humana; humano, alguém; Adão (o primeiro homem)”. Assim, “esta palavra se liga com o fato de o homem ter sido feito à imagem de Deus, a coroa da criação. Deve ser distinta de ’ish (homem em contraste com a mulher, ou distinto por sua masculinidade) [...]. É também usado no título ‘’ab ‘adam’, ‘pai da espécie humana’. ’ādām aparece unicamente no absoluto singular em suas 562 ocorrências” no AT. Essa concepção bíblica do homem, evidentemente, envolve também a figura da mulher, pelo fato de ambos serem dotados de alma ou espírito, capacidade ou faculdades físicas, integridade intelectual e moral, corpo e domínio sobre a criação inferior, isto é, sobre os outros seres limitados à sua irracionalidade. Portanto, “é significativo o fato de que as primeiras palavras de Deus ao homem são tanto um mandamento como uma proibição (Gn 2,16-17); somente o homem é responsável por sua decisão, somente ele determina o seu destino por meio de uma escolha volitiva [relativo à volição, à vontade] e apenas ele é julgado como justo ou pecador pela lei de Deus. Uma teologia bíblia mais antiga sustenta que a ‘semelhança divina refere-se antes à dignidade total do homem em virtude da qual a natureza humana é nitidamente distinta da natureza dos animais; o homem, como ser livre, está acima da natureza, e foi criado para manter comunhão com Deus e para ser seu representante na terra [que responsabilidade!!]’ (Oehler, G. F., Old testamente theology)”.
Feitas as sobreditas considerações, é, pois, nessa consciência e perspectiva que eu me permito falar da festa da assunção de Nossa Senhora, celebrada no Brasil, no domingo imediatamente seguido ao dia 15 de agosto. Depois de Cristo, somente sua mãe já participa da glorificação de seu corpo no céu, aonde ela subiu – foi elevada – em corpo e alma. A humanidade de Maria já participa da gloriosa ressurreição de seu divino Filho. E essa realidade da plenitude do mistério de nossa salvação em Cristo, é para todos nós, homens e mulheres. Ou seja: todos podemos encontrar-nos em Maria. Ela é a síntese da nossa vida futura, enquanto mérito da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, de cujos frutos espirituais ela é a primeira a participar plenamente. De fato: “Nas homilias e orações para o povo na festa da Assunção da Mãe de Deus, os santos padres e grandes doutores dela falaram como de uma festa já conhecida e aceita. Com a maior clareza a expuseram; apresentaram o seu sentido e conteúdo com profundas razões, colocando especialmente em plena luz o que esta festa tem em vista: não apenas que o corpo morto da Santa Virgem Maria não sofrera corrupção, mas ainda o triunfo que ela alcançou sobre a morte a e sua celeste glorificação, a exemplo de seu Unigênito, Jesus Cristo” (Papa Pio XII, Constituição Apostólica Munificentíssimus Deus, 1950). E o Papa Pio XII continua: “São João Damasceno, entre todos o mais notável pregoeiro desta verdade da tradição, comparando a Assunção em corpo e alma da Mãe de Deus com seus outros dons e privilégios, declarou com vigorosa eloquência: ‘Convinha que aquela que guardara ilesa a virgindade no parto, conservasse seu corpo, mesmo depois da morte, imune de toda corrupção. Convinha que aquela que trouxera no seio o Criador como criancinha fosse morar nos tabernáculos divinos. Convinha que a esposa, desposada pelo Pai, habitasse na câmera nupcial dos céus. Convinha que, tendo demorado o olhar em seu Filho na cruz e recebido o peito a espada da dor, ausente no parto, o contemplasse assentado junto do Pai. Convinha que a Mãe de Deus possuísse tudo o que pertence ao Filho e fosse venerada por toda criatura como mãe e serva de Deus’”. As palavras do Santo Padre revelam-nos a grandeza do mistério da humanidade de Maria resplandecente de glória e beleza ao lado de seu Filho nos céus, onde todos queremos encontrar-nos um dia, participando dos bens eternos de Cristo. Essa é a fé da Igreja e nossa bendita esperança!.
Considerando que Maria está misteriosamente ligada ao seu Filho desde toda a eternidade, “pelo mesmo desígnio de predestinação, a augusta Mãe de Deus, imaculada na concepção, virgem inteiramente intacta na divina maternidade, generosa companheira do divino Redentor, que obteve pelo triunfo sobre o pecado e suas consequências, ela alcançou ser guardada inume da corrupção do sepulcro, como suprema coroa dos seus privilégios. Semelhantemente a seu Filho, uma vez vencida a morte, foi levada em corpo e alma à glória celeste, onde rainha, refulge à direita do seu Filho, o imortal rei dos séculos” (Papa Pio XII). Tendo Cristo como “o imortal rei dos séculos”, todos pertencemos à sua mesma imortalidade, cuja plenitude viveremos no céu. Em Maria, sua Mãe Santíssima, as mulheres chegaram à frente, e, com ela, toda a nossa humanidade.
A história da salvação é o profundo mistério da manifestação radical do amor de Deus por todos os homens. Ou seja: “a queda tornou inferior a posição do homem diante de Deus (Gn 6,5-6; 8,21), interrompeu sua comunhão com Deus e trouxe a maldição da morte sobre ele de modo que não cumpriu sua exaltação planejada para o homem. Tal parte da imagem divina que consistia em conhecimento, justiça e santidade verdadeiros foi destruída. Somente Cristo e por meio dele, o novo Adão (Rm 5,12-21), é que a promessa divina original pode ser concretizada”. Maria, a mãe de Jesus, que não foi tocada pela maldade do pecado, tem o privilégio de ser a motivação de nossa esperança. De fato, olhado para Maria, contemplamos nossa vida futura na glória de Deus, mesmo sendo Cristo Ressuscitado a fonte e o modelo da glória que nos espera.
Gostaria de concluir a reflexão com um pensamento e uma oração de Martinho Lutero: “Ela [Maria] quer ser o maior exemplo da graça de Deus para poder incitar-nos a todos a termos confiança e a louvarmos a graça divina. Todos os corações deveriam, através dela, adquirir tal confiança que pudessem dizer: Deus não nos desprezará, mas olhará benignamente para nós, homens pobres e mesquinhos... Ó bem-aventurada Virgem, Mãe de Deus, que grande consolação nos mostrou em ti! Tendo Ele olhado com tanta graça para a tua humildade e nulidade, recorda-nos assim que Ele não desprezará, mas olhará graciosamente para nós, homens pobres, que seguimos o teu exemplo...” Amém!. 

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Credo, Domine!


Credo, Domine 



O Evangelho da Samaritana (Jo 4) e do cego de nascença (Jo 9) revelam-nos atitudes de conversão, depois do reconhecimento do Senhor, com a profissão de fé, duplamente, atestada em conjunturas diferentes. São dois encontros emocionantes e comprometedores. São duas dimensões distintas de uma mesma realidade da fé: a confissão de que Jesus é o Filho de Deus, o profeta que devia vir a esse mundo (Jo 7,40). Longe dos holofotes, Jesus não era uma vedete dos “shows business” da modernidade. Não se empolgava nem se interessava muito com o fanatismo histérico de seus fãs. A histeria, como sabemos, é uma “psicopatia cujos sintomas se baseiam em conversão, e caracterizada por falta de controle sobre atos e emoções, ansiedade, sentido mórbido de autoconsciência, exagero do efeito de impressões sensoriais, e por simulação de diversas doenças” (Dicionário Aurélio). Cristo andava fora desses circuitos exagerados de admiração e aplausos.
As circunstâncias que indicam o caminho do encontro com Jesus são surpreendentes e causam profunda alegria interior, mudança de vida, atos novos de comportamentos que manifestam o tom solene da abertura à ação divina. A dinâmica do Evangelho de São João, a “águia de Patmos”, assume contornos literários diferentes dos evangelhos sinóticos. Sua preocupação, finamente, teológica, abre as perspectivas do leitor ao coração da revelação progressiva de Cristo, fundamento do processo salvífico que lhe fora confiado pelo Pai. Os episódios a que estamos aludindo, o diálogo com a Samaritana e a cura polêmica do cego de nascença, coincidem na argumentação do ato de fé que, de maneira paulatina, Cristo vai provocando nos dois personagens. A Samaritana reconhece: “Sei que vem um Messias (que se chama Cristo). Quando ele vier, nos explicará tudo. Disse-lhe Jesus: ‘Sou eu que falo contigo’” (Jo 4,25). Depois, ela “correu à cidade, dizendo a todos: ‘Vinde ver um homem que me disse tudo que fiz. Não seria ele o Cristo?’ Eles saíram da cidade e foram ao seu encontro” (Jo 4,28). Segundo Angélico Poppi, quando, no início, Jesus oferece “água viva” à Samaritana, ele está pensando na revelação do plano soteriológico do Pai. Tal anúncio tem como efeito a efusão do Espírito Santo que consente uma compreensão mais penetrante e a assimilação progressiva do mistério de Jesus. Por conseguinte, esse conhecimento conduz o crente à participação da vida divina, que Cristo tem em comunhão com o Pai. Na verdade, Cristo comunica aos crentes a vida divina que ele tem junto do Pai.
Embora os samaritanos não se entendam com os judeus, eles se demonstram mais abertos à revelação de Cristo. Ou seja, enquanto Jesus havia sido constrangido a distanciar-se da Judeia incrédula, agora, é acolhido e reconhecido como Salvador por aqueles que eram desprezados como heréticos, à maneira dos pagãos. À fé inadequada de Nicodemos (Jo 3), contrapõe-se à disponibilidade da Samaritana, que se abre à revelação do Messias e se torna sua coerente e fiel testemunha. Jesus faz-se mendicante para dar à mulher a “água viva” que jorra para a vida eterna. Portanto, o conteúdo eminentemente cristológico da narração polariza-se em derredor dos dois temas dominantes do quarto evangelho: a revelação progressiva de Cristo e a resposta de fé por parte de seu auditório. Tanto a Samaritana quanto o cego de nascença são uma indicação de que diante de Cristo não podemos ficar indiferentes. Ou estamos com ele ou contra ele. Ou nos salvamos com ele ou nos perdemos sem ele. Diante da revelação amorosa do amor do Pai por meio do Filho, o Salvador do mundo, não existe meio termo nem uma terceira alternativa. São somente dois os caminhos de nossas decisões, identificadas com um “sim” ou um “não” ao seu chamado.
No que concerne ao relato do cego de nascença (Jo 9), que causou tanta confusão por conta de um “milagre”, Angélico Poppi considera que o conteúdo teológico também está totalmente centrado sobre a pessoa de Jesus. Na realidade, mesmo que depois da realização do sinal ele desapareça da cena, as diversas reações dos atores, as controvérsias, os interrogatórios, tudo faz referimento ao taumaturgo. O mistério de sua pessoa determina uma discriminação entre os homens: um juízo de condenação para aqueles que não crêem na sua palavra e a iluminação da fé para aqueles que o acolhem. Conforme o binômio típico do caráter joanino ao dualismo luz e trevas faz contraponto o simbolismo entre iluminação e cegueira. Com efeito, Cristo mesmo se apresenta como a “luz do mundo” (v. 5). Ele foi enviado pelo Pai a fim de irradiar a luz da “verdade”. Enquanto é “dia”, isto é, enquanto dura a sua vida terrena, ele possui a missão de revelar a todos a verdade. Mas, à medida que o cego abre-se à luz da verdade, de maneira gradual, os fariseus se obstinam na sua cegueira, precipitando-se nas trevas mais densas da incredulidade. Entre aceitação e resistência, o Filho de Deus segue o caminho de sua missão na expectativa de encontrar uma resposta fiel por parte dos homens. Todavia, Ele tem consciência plena de que os homens sempre estarão vacilantes quando à intensidade de sua confiança e abandono total ao seu apelo.
Conforme a afirmação do Papa Bento XVI, “a Palavra divina ilumina a existência humana e leva as consciências a reverem em profundidade a própria vida, porque toda a história da humanidade está sob o juízo de Deus: ‘Quando o Filho do homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, sentar-Se-á, então, no seu trono de glória. Perante Ele, reunir-se-ão todas as nações’ (Mt 25,32-32). No nosso tempo, detemo-nos muitas vezes superficialmente no valor do instante que passa, como se fosse irrelevante para o futuro. Diversamente, o Evangelho recorda-nos que cada momento da nossa existência é importante e deve ser vivido intensamente, sabendo que cada um deverá prestar contas da própria vida”. Na consciência amadurecida do cego de nascença, Cristo é a Palavra divina por excelência. E ele deixa-se iluminar por ela, a ponto de ver, clareando dentro de si, o filete de luz que passa de sua cegueira física à plena luminosidade espiritual que lhe permite fazer, sem sombra de dúvidas, o reconhecimento da revelação do Filho de Deus diante de quem ele se encontra: ‘“Quem é, Senhor, para que eu nele creia?’ Jesus lhe disse: ‘Tu o vês, é quem fala contigo’. Exclamou ele: ‘Creio, Senhor’ [Credo, Domine]. E prostrou-se diante dele” (Jo 9,36-38). O cego o reconhece como “Filho do homem” e professa a sua fé no “Kýrios-Senhor”. De igual maneira, no final do século I, muitos judeus cristãos foram expulsos da sinagoga. Porém, ao contrário de se sentirem desencorajados, renovaram a sua fidelidade a Cristo Jesus, que no final dos tempos voltará para julgar o mundo, e a cada um de nós.
No arremate da reflexão aqui proposta, descobrimos que entre a Samaritana e o Cego de nascença, há um envolvimento pessoal com as sadias insinuações de Cristo, que tenta despertá-los, não apenas para uma atitude de fé profunda, mas, também para uma reorientação de sua vida, segundo o caminho de Deus, na intimidade com Ele. Somente os simples poderão chegar a tal reordenamento de sua vida sob a autoridade divina. Durante a travessia de nossa existência, qual estrangeiros que somos, forasteiros em “terras que não são nossas”, precisamos da luz da fé e da graça divina para nos abrirmos ao encontro com Cristo, não obstante os percalços inelutáveis de nossa hesitação e falta de firmeza para tomar a decisão certa e coerente com os apelos divinos.

Ego sum Pastor Bonus

Ego sum Pastor Bonus 



No Evangelho de São João, Cristo apresenta-se, dizendo: “Eu sou o bom Pastor: o bom pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas. O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê o lobo aproximar-se, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as arrebata e dispersa, porque ele é mercenário e não se importa com as ovelhas. Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem, como o Pai me conhece e eu conheço o Pai” (Jo 10,11-14). Cristo tem consciência plena de seu papel de pastor diante das ovelhas e sabe que todos aqueles que estão interessados apenas em abusar e se aproveitar das ovelhas, explorando-as, não correspondem à vontade de Deus, que é o verdadeiro Pastor do povo. Por isso, já no Antigo Testamento, os profetas criticaram, duramente, o comportamento daqueles que pouco levaram em consideração o bem incondicional das ovelhas.
São palavras duras, mas verdadeiras, dirigidas aos pastores de Israel: “Pastores, assim diz o Senhor Iahweh: Ai dos pastores de Israel que apascentam a si mesmos! Não devem os pastores apascentar o seu rebanho? Vós vos alimentais com leite, vos vestis de lã e sacrificais as ovelhas mais gordas, mas não apascentais o rebanho! Não restaurastes o vigor das ovelhas abatidas, não curastes a que está doente, não tratastes a ferida da que sofreu fratura, não reconduzistes a desgarrada, não buscastes a perdida, mas dominastes sobre elas com dureza e violência. Por falta de pastor, elas dispersaram-se e acabaram por servir de presa para todos os animais do campo; e se dispersaram” (Ez 34,2-6). A voz do profeta expressa a própria censura divina com a mesma autoridade do Senhor. Um bafio terrível de corrupção também embotou o coração dos pastores de Israel. No contexto bíblico, a metáfora de relacionamento entre o pastor e as ovelhas, é profundamente rica e demonstra o nível de intimidade entre Deus e o seu povo, embora se reproduza de maneira limitada e imperfeita entre os líderes de Israel e os seus súditos. Daí a censura do profeta Ezequiel. Segundo o Comentário Bíblico Africano, que abre as portas da compreensão bíblica dentro dos circuitos culturais e religiosos de seu território, “no Antigo Oriente Médio era comum, governantes ou reis serem chamados de pastores. Hamurabi e seus sucessores assírios e babilônios ‘definiam o seu papel com uma série de títulos pastorais, e um provérbio babilônico dizia: ‘um povo sem rei (é como) um rebanho sem pastor’ (NICOT). Um provérbio luganda (Uganda) expressa a mensagem de Zacarias 13,7, ‘Fere o pastor, e as ovelhas ficarão dispersas, da seguinte maneira: ‘Quando o galo morre, há confusão entre as galinhas’”. Diante da infidelidade dos pastores de Israel, Deus mesmo se encarregará de cuidar de suas ovelhas. Na verdade, Deus é o pastor de Israel por excelência. Com efeito, “a ideia teológica do AT acerca do bom pastor que alimenta o seu rebanho com a verdade de Deus (Jr 3,15) adquire proeminência no NT (Jo 10,11)”.
Eis a continuação do texto de Ezequiel: “Com efeito, assim diz o Senhor Iahweh: Certamente eu mesmo cuidarei do meu rebanho e dele me ocuparei. Como o pastor que cuida de seu rebanho, quando está no meio de suas ovelhas dispersas, assim cuidarei das minhas ovelhas e as recolherei de todos os lugares por onde se dispersaram em dia de nuvem e escuridão” (Ez 34,11-12). Seria interessante a leitura de todo o capítulo 34 do profeta Ezequiel. Mas, o fato é que ao longo da história da revelação bíblica de Deus ao seu povo, Ele sempre se mostrou próximo, não obstante todas as dificuldades por que Israel passou, muitas vezes, sentindo-se abandonado. Não podemos nos esquecer de que o profeta Ezequiel viveu a dura experiência do exílio na Babilônia sob a opressão de Nabucodonosor, que assediou Jerusalém no ano 598 a.C., e levou ao cativeiro a elite intelectual da cidade de Davi. Foi uma experiência duríssima para Israel que, na realidade conflituosa em que se encontrava, esperava a chegada do Messias prometido pela descendência de Davi. No entanto, Deus é sempre surpreendente em todas as suas iniciativas para salvar o seu povo de situações em limites radicais. E isso também vale para os tempos modernos, para todos os tempos, enquanto durar a existência da pobre vida humana sobre a terra. De fato, bem que as ovelhas perdidas do mundo moderno poderiam reencontrar o caminho que as reconduz ao Bom Pastor que é Cristo, ao contrário de aprovar projetos de leis, legitimando situações de comportamentos aberrantes, isto é, que vão contra os anseios de uma vida plena como a que Cristo quis e quer oferecer a todos! Bem que as ovelhas perdidas do mundo moderno poderiam rezar com o salmista que diz: “O Senhor é o meu pastor e nada me falta. [...] Sim, felicidade e amor me seguirão todos os dias da minha vida; minha morada é a casa de Iahweh por dias sem fim” (Sl 22,1.6). Mas, como isso seria possível se o Bom Pastor tem sido tão ridicularizado pelas bestas do apocalipse moderno que desconsideram a possibilidade de um Deus salvador perto de seu povo? Bem que as ovelhas perdidas do mundo moderno poderiam sentir-se acolhidas pelo Bom Pastor, cujo amor incondicional não é uma imposição – embora aberto ao sacrifício, como foi seu exemplo – mas, um convite sereno e livre ao refrigério de sua companhia segura, mesmo se pelos vales tenebrosos da sombra da morte, onde nenhum mal poderia atingi-las, pois seu bastão e seu cajado deixam-nas tranquilas (Sl 22,4).
O problema é que o homem, durante todos os momentos históricos da civilização, sempre teve dificuldade para entender e aceitar que ele não é senhor de si mesmo: nem de sua vida, nem de seus supostos bens materiais – a falsa segurança com que tenta apoiar o fugidio presente que se esvai na inexorabilidade incontrolável do trepidar definitivo do último momento – nem do suspiro inconsciente de suas artérias e vísceras, ou seja, de nada. A sua “desorientação ontológica” atirou-o fora da harmonia original com que Deus o criou, “à sua imagem e semelhança” (Gn 1,26), precipitando-o no desarranjo interior do distanciamento de Deus. Ferido pelo pecado, que poderia ser traduzido simplesmente pelo ato insubmisso da desobediência primitiva, Deus o ajudou a reconquistar o paraíso perdido pelo pela morte do Filho, o Bom Pastor de que estamos falando, a fim de que o homem pudesse refazer, ou melhor, ser refeito na integridade desfeita da profundidade mais radical de seu ser, de sua essência ontológica. Por isso que o Bom Pastor olha para todos os homens com piedade e amor, oferecendo-lhes o dom mais precioso de si mesmo, isto é, a sua própria vida, a vida em abundância, que brota da generosidade de sua entrega total: “O Bom Pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas” (Jo 10,11).
No dia do Bom Pastor, no IV Domingo da Páscoa, a mensagem do Papa Bento XVI para o 48o Dia Mundial de Orações pelas Vocações, lembra-nos que: “A arte de promover e cuidar das vocações encontra um luminoso ponto de referência nas páginas do Evangelho, onde Jesus chama os seus discípulos para O seguir e educa-os com amor e solicitude. Objeto particular da nossa atenção é o modo como Jesus chamou os seus mais íntimos colaboradores a anunciar o Reino de Deus (cf. Lc 10, 9). Para começar, vê-se claramente que o primeiro ato foi a oração por eles: antes de os chamar, Jesus passou a noite sozinho, em oração, à escuta da vontade do Pai (cf. Lc 6, 12), numa elevação interior acima das coisas de todos os dias. A vocação dos discípulos nasce, precisamente, no diálogo íntimo de Jesus com o Pai. As vocações ao ministério sacerdotal e à vida consagrada são fruto, primariamente, de um contato constante com o Deus vivo e de uma oração insistente que se eleva ao ‘Dono da messe’ quer nas comunidades paroquiais, quer nas famílias cristãs, quer nos cenáculos vocacionais”. Nesse sentido, o Santo Padre exorta todas as comunidades cristãs ao incentivo vocacional, enquanto proposta de imitação de Cristo, Bom Pastor, pelos candidatos à participação no seu Sacerdócio ministerial. A intimidade com Ele é o primeiro passo seguro do amadurecimento vocacional e do sentido profundo da resposta que Ele espera de seus seguidores mais próximos.